Ultimas

EUA classificam PCC e Comando Vermelho como terroristas e pressionam Lula

O governo dos Estados Unidos inclui o PCC e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras no fim de maio de 2026, em decisão assinada por Donald Trump. A medida impõe sanções econômicas, cria novas exigências de controle para empresas e abre um flanco político delicado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em plena pré-campanha eleitoral.

Derrota diplomática e desconforto político para Lula

A decisão coroa meses de tensão entre Brasília e Washington. Desde 2025, o Itamaraty tenta evitar que as facções brasileiras ingressem na mesma relação que hoje reúne 94 grupos, entre eles Hamas, Hezbollah e Al-Qaeda. A ofensiva fracassa e expõe um dos pontos mais sensíveis do governo Lula: a segurança pública.

Para Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria Eurasia Group, o problema central para o Planalto não está no revés diplomático, mas no efeito político doméstico. “Lula fica pressionado e numa posição incômoda de ter que criticar uma medida dura contra o crime organizado que tem apoio da opinião pública”, afirma. Ele destaca que pesquisas recentes indicam ampla concordância da população com a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

A Casa Branca enquadra o movimento em uma estratégia mais ampla de endurecimento contra o crime organizado na América Latina. O governo Trump busca responder à pressão interna sobre violência, tráfico de drogas e imigração, deslocando o foco da política externa do Oriente Médio para o hemisfério. “O combate aos cartéis e às organizações criminosas é uma agenda real do governo Trump”, diz Garman.

O Brasil, no entanto, não ocupa o centro desse tabuleiro. Segundo o analista, o atraso em relação a outros países da região reforça esse diagnóstico. Cartéis e grupos armados de México, Equador, El Salvador, Honduras, Colômbia e Venezuela entram antes na lista de terrorismo. “Isso não significa que o Brasil virou prioridade máxima”, avalia. “As prioridades continuam muito mais concentradas no México e na América Central.”

Trump mira crime organizado e setor privado entra em alerta

A designação como organização terrorista estrangeira não se limita ao campo simbólico. A partir da inclusão formal, qualquer pessoa física ou jurídica que, na visão do governo americano, ofereça suporte material ao PCC ou ao Comando Vermelho pode ser enquadrada nas mesmas sanções aplicadas a grupos como a Al-Qaeda. Isso significa congelamento de ativos sob jurisdição dos EUA, bloqueio de transações em dólar e proibição de relações comerciais com empresas americanas.

Na prática, bancos, exportadoras, tradings, empresas de logística, plataformas digitais e até fintechs brasileiras precisam reforçar filtros de lavagem de dinheiro e checagem de clientes. “O que isso cria é uma nuvem de incerteza de compliance sobre o setor privado”, resume Garman. Ele lembra que, no México, três bancos de menor porte acabam fechados após acusações de lavar recursos de cartéis e sofrer sanções do órgão americano de controle de ativos, o OFAC.

O efeito imediato, avalia o analista, não é uma fuga de capital em massa. Investidores estrangeiros permanecem atentos a fundamentos econômicos, previsibilidade regulatória e estabilidade política. Países já atingidos por medidas semelhantes, como México e Colômbia, continuam recebendo fluxos relevantes de investimento direto. “Não é algo que necessariamente afugenta investidores ou que vá transformar o Brasil em um pária”, diz.

No campo militar, a leitura em Brasília é de que o risco de uma intervenção direta americana no território brasileiro é nulo. Garman reforça essa avaliação e afasta paralelos com a Venezuela sob Nicolás Maduro, quando setores em Washington aventam ações de força. “No lado militar, as mesmas razões pelas quais isso era muito improvável de acontecer continuam válidas”, afirma. “Não existe interesse em ação militar contra um país democrático, grande e estratégico como o Brasil.”

O movimento, porém, reorganiza a agenda bilateral em segurança. O PCC já atua como organização transnacional, com conexões em países vizinhos e na Europa. A tendência é de aumento da cooperação de inteligência e de investigações financeiras conjuntas, ainda que casos concretos levem meses ou anos até resultar em processos e sanções. “O mais provável é que nada aconteça no próximo ano”, projeta o especialista.

Bolsonaro ganha fôlego, mas efeito eleitoral é limitado

O anúncio ocorre dois dias depois de o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, ser recebido por Trump em Washington. O encontro rende fotos, declarações públicas e uma narrativa política imediata: o filho do ex-presidente reivindica ter pedido formalmente a classificação do PCC e do Comando Vermelho como terroristas. Nas redes sociais, aliados apresentam a medida como vitória da direita brasileira na disputa com o governo Lula.

Nos bastidores, contudo, a decisão amadurece há meses dentro da Casa Branca. Garman reconhece o peso da visita, mas relativiza seu poder de fogo. “Foi quase como se a decisão já estivesse na boca do gol e o Flávio Bolsonaro tivesse dado um empurrãozinho final”, afirma. A designação, diz ele, faz parte de uma estratégia mais ampla do governo Trump e atende também a um grupo de linha dura em Washington, os chamados Brazil Hawks.

Do ponto de vista eleitoral, o saldo para Flávio é modesto. A ofensiva diplomática ajuda a mudar o foco da cobertura sobre a crise do Banco Master, que envolve áudios e encontros com o banqueiro Daniel Vorcaro, mas não redefine o cenário. “No curto prazo, ele se beneficia um pouco, porque tem a cobertura da imprensa sobre o evento”, avalia Garman. “Mas não vejo isso como algo que muda o jogo eleitoral.”

O analista projeta que tanto o desgaste ligado ao Banco Master quanto o capital político obtido com a viagem aos EUA tendem a se diluir até outubro. O fator de risco, para a campanha de Flávio, está em novas denúncias de corrupção ou uso indevido da máquina. Ao mesmo tempo, ele vê espaço para o surgimento de outro nome competitivo da direita, com ênfase em segurança pública. Cita o governador Ronaldo Caiado, do PSD, como exemplo de liderança com histórico robusto na área.

Para Lula, o incômodo é mais direto. O presidente precisa criticar uma decisão de Trump que grande parte da população apoia. A oposição já testa um discurso simples: por que o governo brasileiro resiste a chamar de terroristas facções responsáveis por chacinas, ataques coordenados e controle de rotas de tráfico? “Exacerba um pouco o calcanhar de Aquiles do Lula”, diz Garman. “É um tema que traz um desconforto e vai ser usado na campanha.”

Relação Lula-Trump esfria às vésperas do G7

Lula e Trump devem se encontrar nas próximas semanas na França, durante a cúpula do G7. Até a inclusão de PCC e Comando Vermelho na lista de terrorismo, negociadores dos dois lados ainda discutem a possibilidade de um avanço comercial limitado, com redução de tarifas em setores específicos. A nova crise desloca o horizonte. “A gente já estava cético que sairia um acordo comercial”, diz Garman. “Isso reforça essa visão.”

O clima tende a ser protocolar. Interlocutores de ambos os governos falam em reunião “cordial, mas fria”. Em Washington, ganha força a expectativa de que a Casa Branca conclua até o fim de junho a chamada investigação 301, instrumento da legislação comercial americana usado para responder a práticas consideradas desleais. A conclusão abre caminho para novas tarifas sobre produtos brasileiros, possivelmente acima dos 15% praticados hoje para outros países, mas abaixo dos 50% que a Suprema Corte dos EUA derruba em 2025.

Se a tarifa média avançar para algo entre 20% e 25%, o efeito interno pode se inverter contra Flávio Bolsonaro, avalia Garman. Lula tende a responsabilizar a viagem do senador e o alinhamento da família Bolsonaro com Trump pelas medidas punitivas. “Lula vai dizer: ‘Flávio entregou o país. Foi por causa da família Bolsonaro que vieram tarifas proibitivas contra o Brasil e isso tirou empregos'”, projeta.

Entre Itamaraty e Palácio do Planalto, o diagnóstico é de dano controlado, mas persistente. A classificação das facções como terroristas não derruba investimentos nem isola o Brasil, mas complica a diplomacia, pressiona o governo num tema sensível e exige resposta rápida na área de segurança pública. A equipe de Lula trabalha em ajustes de política, com promessa de reforço ao combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro, na tentativa de reduzir o espaço político da oposição.

O próximo ano deve revelar se a nova etiqueta aplicada por Washington às facções brasileiras se limita a um choque diplomático passageiro ou se inaugura uma fase duradoura de pressão externa e disputas internas em torno de quem, de fato, controla a agenda da segurança no país.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *