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Moradores aprendem a mergulhar para fugir de caverna alagada no Laos

Mergulhadores de resgate tailandeses passam esta semana a treinar moradores presos em uma caverna inundada no Laos a respirar com equipamentos de mergulho para escapar do local. A operação, em andamento em 2026, ocorre sob risco permanente de novas chuvas e de pânico entre os presos.

Caverna vira sala de aula improvisada sob a água

No interior do Laos, uma caverna alagada se transforma em sala de aula forçada. Dentro dela, moradores de uma vila vizinha aprendem, às pressas, a usar reguladores de mergulho para abrir caminho por túneis estreitos, completamente tomados pela água. O nível não baixa, apesar de dias de bombeamento contínuo, e impede qualquer saída a pé.

Os treinamentos se concentram em exercícios básicos: colocar e tirar a máscara, manter o bocal do regulador firme, controlar a respiração em ambiente escuro e barulhento. Cada erro pode custar segundos decisivos em passagens onde dois corpos mal se alinham lado a lado. O primeiro sobrevivente já foi retirado, mas a maioria dos moradores continua retida, à espera de preparo físico e psicológico mínimo.

Resgate sob pressão e medo de pânico

Especialistas que acompanham a operação alertam que o desafio vai além da técnica. “Isso é um pedido enorme”, afirma à CNN o mergulhador Roberson, com três décadas de experiência em cavernas. “Eu faço isso há 30 anos e esse tipo de condição seria difícil até mesmo para um mergulhador de cavernas experiente”. A avaliação ajuda a dimensionar o que se exige agora de moradores sem qualquer histórico de mergulho.

O malaio Lee Kian Lie, também mergulhador de resgate, confirma que a equipe não vê alternativa. Em entrevista à CNN, ele relata que os socorristas ensinam os moradores a mergulhar para sair da caverna porque o espaço é estreito e a água persiste, apesar das bombas. Passagens inundadas com menos de um metro de largura e visibilidade quase nula impõem um roteiro semelhante ao vivido na Tailândia em 2018, quando um time de futebol juvenil ficou retido na caverna de Tham Luang por mais de duas semanas.

A semelhança não garante repetição de resultados. Os socorristas no Laos interrompem as operações durante a noite para descanso e reavaliação. Um grupo de mergulhadores tailandeses admite que os que seguem presos “ainda não estão prontos para serem evacuados”. O temor é que a ansiedade, somada ao confinamento prolongado e à umidade constante, derrube a frágil confiança construída nos treinos.

Roberson resume o risco central: “Se alguém entrar em pânico, não só coloca a si mesmo em risco, como também coloca o socorrista em risco”. Em túneis onde muitas vezes apenas um mergulhador consegue manobrar, um movimento brusco pode deslocar o regulador da boca ou prender uma mangueira em saliências da rocha. Em cenários assim, segundos se alongam em tragédia.

Oxigênio, chuva e relógio psicológico

As autoridades locais e a equipe internacional tratam a operação como corrida contra o tempo. Tanques de oxigênio extras começam a ser levados para dentro da caverna para garantir ar suficiente durante o percurso submerso, que pode durar dezenas de minutos para cada morador. Socorristas calculam com cuidado o consumo de cada cilindro, enquanto acompanham previsões de chuva que seguem instáveis para os próximos dias.

O impacto da espera já aparece. Em abrigos improvisados na região, familiares acompanham as atualizações com desconfiança e esperança em doses alternadas. A cada hora de pausa, cresce o medo de que uma nova enxurrada eleve ainda mais o nível da água. Do lado de dentro, quem treina para mergulhar precisa lidar com frio, escuridão e a ideia de atravessar, no escuro, trechos onde quase não há espaço para girar o corpo.

Psicólogos e especialistas em resgate destacam que o preparo mental pesa tanto quanto o domínio do equipamento. A experiência tailandesa mostrou que crianças e adolescentes podem aprender a seguir instruções sob condições extremas, desde que os socorristas mantenham comunicação clara e rotinas previsíveis. No Laos, o grupo preso é formado por adultos e jovens, alguns em condição de saúde delicada, o que exige abordagens diferentes para ensinar o mesmo gesto: inspirar e expirar sem arrancar o bocal da boca.

O que vem a seguir na operação

Os próximos dias devem definir o formato final do resgate. Se a chuva der trégua e o bombeamento conseguir reduzir alguns centímetros do nível da água, trechos hoje totalmente submersos podem ficar menos críticos. A equipe, porém, trabalha com o cenário mais duro: todos terão de sair mergulhando, acompanhados por times de resgate em esquema escalonado, um a um, para reduzir o risco de colisões nos pontos mais apertados.

O sucesso da operação tende a se tornar referência para futuras ações em ambientes extremos, reforçando a importância de treinar moradores para situações de enchentes e deslizamentos em regiões de cavernas. Um desfecho negativo, por outro lado, deve reacender o debate sobre protocolos de segurança, monitoramento de chuvas e limites aceitáveis de risco em missões de alto impacto emocional. Enquanto socorristas e moradores repetem, dentro da caverna, o exercício de inspirar e expirar em silêncio, a principal pergunta permanece aberta do lado de fora: até onde é possível ensinar alguém a vencer o medo antes que a próxima frente de tempestade chegue?

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