Esportes

México lamenta tabu em aberturas, mas celebra 32 anos sem perder em estreias

A seleção mexicana revive nesta terça-feira, em 2026, um incômodo contraste: nunca vence jogos de abertura de Copas do Mundo, mas não perde estreias desde 1994. Programas de TV do país transformam o tema em autocrítica e combustível para a preparação rumo ao Mundial que o México coorganiza.

Televisão ressuscita um velho incômodo

As tardes de esporte na TV mexicana giram em torno de uma mesma pauta. Com imagens em preto e branco e narrações recuperadas de arquivos, comentaristas revisitam mais de sete décadas de Copas para explicar por que o país jamais comemora uma vitória em partidas de abertura oficiais. A discussão ganha fôlego porque, daqui a dois anos, em 2026, o México volta ao centro da festa como país-sede do Mundial.

O ponto de partida dos programas é a própria Fifa. As cerimônias de abertura com status oficial começam em 1966, em Londres, no empate sem gols entre Inglaterra e Uruguai. A partir daí, a conta é simples e incômoda para os torcedores: o México participa de apenas duas inaugurações formais, em 1970 e 2010, e empata ambas. No Estádio Azteca lotado, em 31 de maio de 1970, o time para na União Soviética em 0 a 0. Quarenta anos depois, em 11 de junho de 2010, repete a frustração em 1 a 1 com a África do Sul, em Johanesburgo.

Produções locais ampliam o recorte e incluem outros jogos disputados no primeiro dia de Copa, ainda que sem o rótulo de “partida inaugural” da Fifa. Em 1930, a história do torneio começa com duas partidas paralelas: França 4 a 1 México e Estados Unidos 3 a 0 Bélgica. Vinte anos depois, no 24 de junho de 1950, o México volta a estrear com derrota pesada: 4 a 0 para o Brasil, no Maracanã. As imagens reaparecem em câmera lenta, enquadrando defesas tardias, gols sofridos e expressões abatidas dos jogadores.

O roteiro televisivo reforça um estereótipo que o próprio país tenta abandonar. Em estúdio, analistas falam em “cultura de jogar como nunca e perder como sempre”. A frase, repetida há décadas, volta com força enquanto mesas redondas exibem gráficos com derrotas em estreias antigas e empatam esse passado com eliminações nas oitavas de final. O técnico Javier Aguirre, hoje novamente no comando da seleção, torna-se personagem central do debate.

Invencibilidade recente expõe outro lado da história

O exercício de memória, porém, deixa escapar um dado que muda o tom da conversa. O México não perde estreias de Copa há 32 anos. A última derrota ocorre em 19 de junho de 1994, em Orlando, diante da Noruega: 1 a 0, gol de Rekdal, em um jogo nervoso pela fase de grupos. Desde então, o time soma cinco vitórias e três empates nos primeiros jogos de cada Mundial.

Os números contam uma história diferente da melancolia da tarde de terça. Em 1998, na França, a seleção vira para 3 a 1 contra a Coreia do Sul. Em 2002, vence a Croácia por 1 a 0, em Niigata, no Japão. Em 2006, na Alemanha, repete o placar de 3 a 1 sobre o Irã, em Nuremberg. Em 2010, segura a pressão da anfitriã África do Sul e empata em 1 a 1, em Johanesburgo. Em 2014, no calor de Natal, no Rio Grande do Norte, supera Camarões por 1 a 0. Em 2018, em Moscou, aplica talvez a estreia mais emblemática: 1 a 0 contra a Alemanha, então campeã mundial. Em 2022, no Catar, começa com 0 a 0 frente à Polônia, em Doha.

Quando alguém traz essa sequência ao ar, o clima dos debates muda. Comentaristas que, minutos antes, lamentam um suposto bloqueio psicológico em aberturas admitem que o time mostra consistência quando pisa em campo pela primeira vez em Copas. “O tabu é cerimonial, não esportivo”, resume um analista, ao lembrar que a definição de partida de abertura da Fifa não coincide com a experiência do torcedor, que vive a estreia como momento-chave.

Aguirre aparece nesses programas como ponte entre frustração e esperança. Em participações gravadas, que a imprensa mexicana resgata de entrevistas recentes, o treinador insiste que a narrativa de fracasso não faz justiça ao elenco. “É verdade que nunca ganhamos uma abertura oficial, mas faz mais de trinta anos que não perdemos o primeiro jogo. Isso fala de caráter”, diz, em depoimento reproduzido por diferentes canais.

O contraste entre tabu e invencibilidade serve de argumento para discutir a evolução do futebol mexicano. Analistas lembram que o país participa de Copas desde 1930, soma seis classificações seguidas às oitavas entre 1994 e 2018 e sustenta presença regular entre as 20 melhores seleções do ranking da Fifa. A crítica deixa de se concentrar apenas na ausência de vitórias em partidas inaugurais e passa a perguntar por que a equipe encontra limite tão rígido no mata-mata.

Tabu vira combustível para 2026

A discussão na mídia não fica no campo da estatística. Ao longo da programação de terça-feira, comentaristas sugerem que o histórico de estreias vira matéria-prima para a preparação da seleção. “Não é um trauma, é um desafio”, afirma outro analista, ao defender que o vestiário use o retrospecto para construir confiança rumo a 2026. O argumento é simples: se o México passa 32 anos sem perder debutes de Copa, tem base emocional para encarar a pressão de uma abertura em casa.

O impacto imediato recai sobre a comissão técnica. Planejar 2026 significa decidir se o México deve, ou não, estar em campo na partida inaugural oficial, caso a Fifa mantenha o costume de colocar um dos anfitriões no jogo que abre a competição. A experiência de 2010, quando o time enfrenta a anfitriã África do Sul, é vista como laboratório, ainda que a partida acabe em empate. Nos bastidores, dirigentes sabem que uma vitória em 11 de junho de 2026, data provável da abertura, teria valor simbólico muito maior do que três pontos.

Torcedores sentem esse peso. Nas redes sociais, o debate reproduz o tom ambivalente da TV. Há quem enxergue o tabu como maldição que acompanha o país desde o 4 a 1 sofrido para a França em 1930. Outros preferem destacar a solidez recente. “Não perdemos a estreia desde que eu nasci”, escreve um jovem de 29 anos em uma rede social, resumindo a diferença geracional entre quem viveu derrotas antigas e quem cresceu com resultados mais estáveis.

Para a federação mexicana, o passado recente oferece margem para campanhas publicitárias que misturem superação e orgulho nacional. Patrocinadores trabalham com datas, gols e imagens icônicas, como o contra-ataque que derruba a Alemanha em 2018, para associar a marca do país a uma seleção que resiste sob pressão. A mesma narrativa encontra eco nos estádios, onde bandeiras e faixas mencionam a sequência invicta de estreias como símbolo de resiliência.

O verdadeiro teste, porém, ainda não começa. Enquanto a Fifa ajusta a organização da Copa de 2026, o México tenta transformar números em convicção. A dúvida que acompanha Aguirre e seus jogadores é direta: a geração que chega ao Mundial em casa será capaz de quebrar o tabu das aberturas sem perder a solidez das últimas estreias? A resposta, para um país acostumado a equilibrar frustração e orgulho em Copas do Mundo, só virá quando a bola rolar de novo.

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