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Mercúrio contaminou cidades maias por séculos e pode ter ameaçado população, revela estudo

Pesquisadores descobriram concentrações extremas de mercúrio em lagos do México, com sinais de destruição da vida aquática durante séculos; possível impacto sobre a população ainda é investigado.

Mercúrio contaminou cidades maias por séculos e pode ter ameaçado população, revela estudo

Uma descoberta científica revelou que a civilização maia pode ter convivido durante séculos com uma contaminação tóxica muito mais extensa do que se imaginava. Pesquisadores identificaram concentrações extremamente elevadas de mercúrio em lagos próximos a antigas cidades maias na península de Yucatán, no México. O metal pesado chegou a comprometer ecossistemas aquáticos inteiros e pode ter representado uma ameaça à saúde das populações que viviam na região.

O estudo, publicado na revista científica Science Advances em novembro de 2026, analisou sedimentos preservados nos lagos de Coba e Xcach. Os resultados mostraram que a contaminação começou há aproximadamente 1.900 anos e persistiu, em diferentes períodos, por centenas de anos. Em determinados momentos, os níveis de mercúrio ultrapassaram amplamente os limites de toxicidade utilizados atualmente para avaliar riscos ambientais.

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A descoberta acrescenta uma nova peça ao debate sobre as dificuldades enfrentadas pelas cidades maias antes de seu declínio. Embora os pesquisadores não tenham comprovado que o mercúrio contribuiu diretamente para o abandono dos grandes centros urbanos, os resultados indicam que a poluição da água pode ter agravado problemas já associados a secas, desmatamento e conflitos.

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Como os maias contaminaram seus próprios territórios?

A origem mais provável da contaminação está no uso do cinábrio, um mineral de coloração vermelha intensa composto por sulfeto de mercúrio.

O cinábrio, mineral vermelho utilizado em rituais e pinturas pelos maias, contém mercúri0
O cinábrio, mineral vermelho utilizado em rituais e pinturas pelos maias, contém mercúri0

Para os antigos maias, o pigmento possuía grande importância religiosa e simbólica. A cor vermelha era associada ao sangue, à vida e à alma, aparecendo em cerimônias, rituais funerários, objetos decorativos e pinturas de templos.

O cinábrio também era empregado na ornamentação de construções e sepultamentos, tornando-se um material valorizado em diferentes cidades.

O problema é que o mineral contém mercúrio, elemento que pode causar danos à saúde humana e aos ecossistemas dependendo da forma química, da concentração e da exposição.

Ao longo do tempo, materiais contendo mercúrio podem ter alcançado o solo e os corpos d’água, deixando registros de contaminação que permaneceram preservados durante séculos.

Pesquisas anteriores já haviam identificado mercúrio em sítios arqueológicos maias, incluindo Tikal, na Guatemala. O novo levantamento amplia as evidências desse problema para as planícies do norte da região maia, onde havia menos informações disponíveis.

Lagos guardaram vestígios de contaminação por séculos

A investigação foi conduzida por uma equipe liderada pelo cientista ambiental Matthew Waters, professor da Universidade de Auburn, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores retiraram amostras profundas de sedimentos acumulados no fundo do lago Coba e do cenote Xcach, ambos próximos a antigas áreas de ocupação maia.

Essas camadas funcionam como um registro natural do passado. Ao analisar sua composição, os cientistas conseguem identificar mudanças ambientais ocorridas ao longo de centenas ou milhares de anos.

Em Coba, os registros apontaram um aumento expressivo do mercúrio a partir de aproximadamente 250 d.C., coincidindo com o início do Período Clássico da civilização maia.

Esse primeiro episódio de elevação se prolongou por cerca de 150 anos, embora concentrações consideradas preocupantes tenham persistido por períodos ainda maiores.

Em Xcach, a análise revelou diferentes episódios de contaminação. O primeiro ocorreu aproximadamente entre 125 d.C. e 200 d.C., antes do Período Clássico.

Outros aumentos foram identificados posteriormente, incluindo um período entre aproximadamente 535 d.C. e 820 d.C.

As concentrações encontradas estão entre as mais elevadas documentadas em ambientes associados à ocupação maia antiga.

Mercúrio afetou organismos que sustentavam a vida nos lagos

Um dos resultados mais importantes foi a identificação de mudanças profundas nos ecossistemas aquáticos durante os períodos de maior contaminação.

Os pesquisadores analisaram vestígios biológicos preservados nos sedimentos e encontraram redução ou desaparecimento de diferentes organismos.

Entre eles estavam algas, bactérias, cianobactérias, pequenos crustáceos e larvas de insetos aquáticos.

Esses organismos são fundamentais para o funcionamento dos ambientes de água doce, pois participam da produção de alimento e sustentam outras espécies da cadeia alimentar.

No lago Coba, as concentrações de mercúrio permaneceram acima de determinados limites modernos de risco ecológico por mais de 200 anos.

Já em Xcach, houve períodos em que os valores alcançaram aproximadamente seis vezes o limite utilizado como referência para efeitos ambientais graves.

A coincidência entre as concentrações elevadas e a redução dos organismos indica que a contaminação esteve associada a alterações importantes na vida aquática.

A pesquisa também identificou sinais de recuperação desses ecossistemas após a diminuição dos níveis de mercúrio.

População maia pode ter consumido água e peixes contaminados

Além dos danos ambientais, o estudo levantou a possibilidade de que habitantes das antigas cidades também tenham sido expostos ao metal.

A pesquisadora Savanna Wooten, coautora do trabalho, explicou que a presença do mercúrio em diferentes níveis da cadeia alimentar sugere possíveis caminhos de exposição humana.

O consumo de água contaminada e de peixes provenientes dos lagos é uma das hipóteses consideradas pelos cientistas.

Entretanto, os pesquisadores ressaltam que não encontraram evidências diretas de intoxicação humana nas amostras analisadas.

A pesquisa foi realizada a partir de sedimentos e vestígios de organismos aquáticos, sem medir concentrações de mercúrio em restos humanos.

Por isso, ainda não é possível determinar quantas pessoas podem ter sido afetadas ou quais consequências a exposição teria provocado nas populações maias.

Quais são os riscos do mercúrio para a saúde?

O mercúrio é um metal pesado que pode provocar intoxicações e danos ao organismo, especialmente quando ocorre exposição a determinadas formas químicas em concentrações perigosas.

Entre os sistemas que podem ser afetados estão o sistema nervoso central, o cérebro, os rins e os pulmões.

Os efeitos dependem de fatores como a quantidade absorvida, o tempo de exposição e a forma do mercúrio presente no ambiente.

Em ecossistemas aquáticos, algumas formas do metal podem entrar na cadeia alimentar e se acumular nos organismos.

A possibilidade de exposição por alimentos contaminados é uma preocupação importante em estudos de toxicologia ambiental.

No caso das antigas cidades maias, porém, os cientistas ainda precisam investigar se a presença do contaminante nos lagos resultou em efeitos mensuráveis sobre a saúde das populações.

Contaminação pode ajudar a explicar o declínio dos maias?

O desaparecimento de grandes centros urbanos maias é um dos temas mais estudados da arqueologia.

Durante o final do Período Clássico, diversas cidades sofreram mudanças políticas, redução populacional ou abandono.

As explicações científicas envolvem uma combinação de fatores, incluindo períodos prolongados de seca, dificuldades agrícolas, desmatamento, erosão do solo e conflitos entre diferentes centros de poder.

A nova pesquisa acrescenta a deterioração da qualidade da água como outro possível fator de pressão ambiental.

Isso não significa que a intoxicação por mercúrio tenha provocado o colapso da civilização maia.

Os autores destacam que o estudo demonstra uma contaminação ambiental importante, mas não estabelece uma relação direta de causa e efeito entre o metal e o declínio das cidades.

Também é importante lembrar que a civilização maia não desapareceu completamente. Comunidades maias continuam existindo atualmente em diferentes países da América Central e no México, preservando línguas, tradições e conhecimentos próprios.

Descoberta abre novas investigações sobre o passado

Os resultados levantaram novas perguntas sobre a circulação do cinábrio entre as antigas cidades.

Os pesquisadores consideram a possibilidade de que o mineral tenha sido transportado por redes comerciais, já que as características da contaminação sugerem fontes concentradas próximas aos locais estudados.

Coba possuía uma extensa rede de caminhos que conectavam diferentes áreas, o que reforça o interesse em investigar como mercadorias e materiais religiosos circulavam pela região.

A equipe pretende analisar sedimentos de outros lagos mesoamericanos, incluindo áreas próximas a antigos centros comerciais, para identificar se o mesmo padrão de contaminação aparece em novos locais.

O objetivo é compreender melhor a extensão dos impactos ambientais provocados por atividades humanas anteriores ao período industrial.

A descoberta demonstra que problemas de poluição capazes de afetar ecossistemas inteiros já existiam muito antes das sociedades modernas e acrescenta informações importantes sobre os desafios ambientais enfrentados pelas antigas populações maias.

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