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Mauro Vieira desafia tarifa de 25% dos EUA e nega superávit do Brasil

O chanceler Mauro Vieira contesta, em 4 de junho de 2026, a proposta dos Estados Unidos de impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e afirma que o Brasil não tem superávit comercial com os americanos. Em Paris, durante reuniões ministeriais da OCDE, ele diz ter apresentado dados que, segundo o governo, desmontam a base jurídica da iniciativa norte-americana.

Brasil tenta conter escalada em Paris

Vieira transforma a agenda da OCDE, em Paris, em palco para uma disputa direta com Washington. Entre encontros oficiais e conversas de bastidor, o chanceler busca convencer o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) de que o Brasil não merece entrar na lista de alvos de tarifas punitivas. A proposta americana, apresentada na segunda-feira, 1º de junho, prevê sobretaxa de 25% sobre praticamente todas as importações brasileiras, com poucas exceções.

O chefe do Itamaraty relata ter entregado aos interlocutores, liderados pelo novo representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, planilhas e respostas formais coletadas durante as investigações abertas sob a chamada Seção 301 da Lei Comercial americana. A ferramenta, usada em outras ofensivas de Donald Trump contra parceiros, permite retaliações unilaterais em casos que Washington considera práticas comerciais desleais. O Brasil, diz o chanceler, demonstra que não se encaixa nesse diagnóstico.

“Demos todas as informações necessárias. O que nós esperamos é que isso tudo seja levado em conta e que fique comprovado que não há porquê sermos objeto de tarifas. Todos os argumentos apresentados nós provamos que não são legítimos”, afirma Vieira, à saída de uma das reuniões na capital francesa. Nos cálculos do governo, a leitura americana sobre o comércio bilateral está distorcida e ignora o déficit brasileiro nas trocas com os EUA.

O chanceler afirma que, nos últimos anos, os americanos vendem mais ao Brasil do que compram, o que resulta em saldo negativo para Brasília. “O maior deles é este: nós provamos que não temos um superávit com os Estados Unidos, muito pelo contrário. Não há por que medidas de proteção do comércio americano. Nós é que temos um grande déficit. Nós é que, a princípio, deveríamos estar nos protegendo, mas estamos conversando”, diz.

Tarifa ameaça exportações e clima político

A ofensiva da USTR tem como alvo três frentes: regras de comércio digital, estrutura de algumas tarifas brasileiras e políticas de combate ao desmatamento ilegal. No relatório preliminar, o órgão sustenta que esses pontos criam barreiras indevidas para empresas americanas e justificam reação sob a Seção 301. A proposta divulgada em 1º de junho inclui a alíquota extra de 25% sobre produtos brasileiros, com exceção de itens enquadrados em “tarifas de segurança nacional”.

Ficam fora dessa lista de punições setores sensíveis também para Washington, como carne bovina, café, parte das frutas e nozes, especiarias, petróleo e alguns minérios metálicos. Mesmo com essas exceções, a medida pode atingir dezenas de bilhões de dólares em comércio anual, segundo estimativas de diplomatas envolvidos nas negociações. Itens industriais, bens de consumo e manufaturados de maior valor agregado tendem a sofrer mais.

Na prática, um imposto de 25% eleva de imediato o preço de exportações brasileiras na prateleira americana. Empresas que disputam espaço com concorrentes do México, da Europa ou da Ásia perdem competitividade e veem contratos em risco. Setores que dependem do mercado dos Estados Unidos como destino principal, como parte da indústria de transformação e fornecedores de insumos intermediários, acompanham o caso com apreensão.

Para Vieira, o movimento americano também ignora avanços recentes em áreas sensíveis, como a fiscalização ambiental. O chanceler sustenta que dados enviados a Washington comprovam queda no ritmo de desmatamento ilegal e reforço de operações de controle. Internamente, o governo vê nas alegações sobre clima e floresta uma brecha política para a Casa Branca endurecer o discurso com o Brasil em ano eleitoral nos EUA.

O encontro com Jamieson Greer, realizado mais cedo em Paris, reduz o tom de confronto, mas não dissipa a incerteza. Vieira relata que ouviu do representante comercial americano disposição para “continuar dialogando” sobre o desenho das tarifas. O gesto é recebido como sinal de que ainda há espaço para frear a medida antes da publicação definitiva das regras, prevista para as próximas semanas, após a conclusão formal dos relatórios da investigação.

Pressão econômica e disputa nas mesas de negociação

Exportadores brasileiros já fazem contas. Um aumento de 25% nas tarifas pode inviabilizar negócios que operam com margens apertadas, sobretudo em cadeias que combinam produção no Brasil e montagem final nos Estados Unidos. A ameaça também pesa sobre planos de longo prazo de empresas que miram o mercado americano como porta de entrada para a América do Norte. Analistas avaliam que a medida adiciona incerteza a um cenário global já pressionado por juros altos e desaceleração do comércio.

As tensões bilaterais ocorrem enquanto o Brasil tenta se aproximar mais da OCDE e se vender como parceiro confiável em cadeias de suprimento. Uma escalada com os Estados Unidos, principal acionista da organização, pode contaminar debates em curso sobre regras digitais, subsídios e instrumentos de defesa comercial. Diplomatas brasileiros trabalham para evitar que a disputa se transforme em exemplo de endurecimento generalizado contra países emergentes considerados lenientes em temas ambientais.

Vieira insiste em manter a trilha do diálogo. Em público, ele evita falar em contra-ataques imediatos ou em recurso a painéis em organismos como a Organização Mundial do Comércio. Nos bastidores, auxiliares admitem que o Brasil estuda caminhos jurídicos e coordena posições com outros parceiros que também enfrentam ações sob a Seção 301. “Talvez esteja faltando compreensão da temática”, resume o ministro, que espera levar ao presidente americano, Donald Trump, uma solução capaz de suspender a aplicação das tarifas.

O Itamaraty aposta no argumento de que uma guerra tarifária afeta não só exportadores brasileiros, mas também importadores e consumidores americanos, que enfrentariam preços mais altos e menos opções de fornecedores. Em um ambiente de inflação ainda sensível nos Estados Unidos, o governo brasileiro vê espaço para convencer a Casa Branca de que o custo político interno de avançar com a medida pode superar o ganho simbólico de mostrar firmeza diante de parceiros.

Próximos passos e risco de escalada

Os próximos dias em Paris funcionam como teste para a disposição de Washington em recuar ou calibrar o alcance das tarifas. Técnicos da USTR e do Itamaraty cruzam números, discutem metodologia de cálculo do saldo comercial e avaliam alternativas intermediárias, como fases de implementação ou exclusão de setores específicos. Cada vírgula dos relatórios da Seção 301 pode servir de base para futuras disputas em fóruns multilaterais.

Se a proposta americana for confirmada sem mudanças significativas, Brasil e Estados Unidos entram em um período de tensão que tende a respingar em outras agendas, de investimentos a cooperação ambiental. Caso prevaleça o entendimento buscado por Mauro Vieira, a crise pode se transformar em oportunidade para fixar novas balizas sobre como usar instrumentos unilaterais de defesa comercial. A resposta de Washington, ainda em aberto, ajuda a definir não só o rumo do comércio bilateral, mas também o limite da tolerância global com tarifas de retaliação em nome de causas econômicas e ambientais.

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