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Marcha para Jesus reúne milhares no Rio e expõe disputa política

A Marcha para Jesus leva milhares de fiéis às ruas do Rio de Janeiro neste sábado (23). Sem a presença de Flávio Bolsonaro, o ato ganha protagonismo político para o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), que transforma o trio elétrico em palanque e comenta o avanço de pré-candidatos nas pesquisas Datafolha.

Fé nas ruas, política no microfone

O cortejo avança por quilômetros na zona central do Rio em clima de festa religiosa. Famílias carregam Bíblias e bandeiras do Brasil, enquanto carros de som alternam músicas gospel com chamados à oração pelo país. Organizadores estimam a participação de dezenas de milhares de pessoas ao longo do dia, reforçando o peso da Marcha, que ocorre anualmente desde a década de 1990 e hoje é um dos maiores eventos evangélicos da cidade.

No alto de um dos principais trios elétricos, Sóstenes Cavalcante fala para uma plateia de celulares erguidos. Ele cita diretamente o cenário eleitoral e a nova pesquisa Datafolha, divulgada nesta semana, que mede a popularidade de pré-candidatos à Prefeitura do Rio e à Presidência. “O povo de fé não é massa de manobra de instituto nenhum”, afirma, em referência aos números do levantamento. A frase provoca aplausos e gritos de apoio vindos das primeiras fileiras.

A ausência de Flávio Bolsonaro, senador e presença frequente em edições anteriores da Marcha, vira assunto entre pastores e lideranças locais. Em 2024 e 2025, o filho do ex-presidente usou o evento para reforçar laços com o eleitorado evangélico e defender o legado do bolsonarismo no Rio. Desta vez, lideranças evitam explicações públicas, mas admitem, em conversas reservadas, desconforto com o afastamento e com a reorganização de forças dentro do campo conservador.

Fiéis se dividem entre quem nota a ausência e quem prefere enfatizar apenas o caráter religioso do encontro. “Político vem e vai, Jesus fica”, diz a professora evangélica Ana Paula Rocha, 42, que participa da Marcha há pelo menos dez anos com a família. Ela carrega uma faixa em apoio genérico à “defesa dos valores cristãos” e evita citar nomes de pré-candidatos no Rio.

Tradição religiosa, palco eleitoral

A Marcha para Jesus nasce como ato de celebração da fé evangélica, mas se consolida, ao longo dos últimos 20 anos, como vitrine política obrigatória no calendário conservador. A cada edição, parlamentares, pré-candidatos e autoridades disputam espaço nos trios, nos bastidores com pastores influentes e nas fotos que circulam nas redes sociais. Em um Estado onde os evangélicos já representam mais de 30% da população, segundo o último Censo, a presença nesse tipo de evento pode decidir alianças e campanhas.

Sóstenes Cavalcante, ligado a importantes denominações neopentecostais, tenta ocupar com mais clareza esse vácuo deixado por Flávio Bolsonaro. Em seu discurso, ele cita a necessidade de “unir o campo cristão” diante da disputa de 2026 e argumenta que o Datafolha mostra um “descompasso” entre a opinião do eleitor evangélico e a narrativa dos grandes centros urbanos. “A pesquisa é uma fotografia de hoje. O filme de 2026 será escrito por quem respeita a igreja”, declara, sob gritos de “amém”.

O tom dos discursos mistura apelos espirituais, críticas ao governo federal e mensagens indiretas a possíveis aliados e rivais à direita. Pastores pedem “sabedoria para escolher governantes justos” e falam em defesa da família, da liberdade religiosa e de políticas de segurança pública mais duras. Entre uma canção e outra, referências à violência no Rio, ao desemprego e à inflação ligam a pauta moral ao cotidiano de fiéis que cruzam a Avenida Presidente Vargas sob sol forte.

O Datafolha, citado repetidas vezes por Sóstenes e por organizadores, circula nos bastidores em telas de celular. Em conversas curtas, auxiliares avaliam cenários de segundo turno no Rio, calculam perda e ganho de intenção de voto na casa de 3 a 5 pontos percentuais e testam nomes para composições. A pesquisa se torna, na prática, ferramenta de pressão para negociações com partidos que cortejam o voto evangélico, estimado em alguns bairros da Zona Oeste como maioria absoluta do eleitorado.

Disputa por influência e próximos movimentos

A ausência de Flávio Bolsonaro, acostumado a usar a Marcha como vitrine, abre uma janela de especulações. Integrantes de igrejas historicamente alinhadas ao bolsonarismo questionam, em voz baixa, se o senador busca se descolar de disputas locais para mirar outro projeto em 2026. Outros veem apenas cálculo de agenda, mas reconhecem que a imagem de um trio sem a presença da família Bolsonaro marca uma mudança simbólica em um ambiente onde cada foto vale capital político.

A disputa interna no campo conservador passa, cada vez mais, por quem fala em nome dos fiéis em eventos de massa. Sóstenes tenta se firmar como esse canal, enquanto outros deputados e pré-candidatos percorrem bastidores, almoçam com pastores e acertam agendas em cultos de grandes templos. O controle desse circuito, que movimenta milhões de reais em campanhas e doações, define quem aparece na TV, quem arrecada mais e quem chega competitivo à janela de registro de candidaturas, em agosto de 2026.

Para o fiel comum, o impacto se mede em outra escala. A Marcha ajuda a consolidar uma identidade política evangélica mais visível, com símbolos e discursos compartilhados, o que reforça pressão sobre partidos e governos. Políticos que ignoram esse público correm o risco de enfrentar rejeição organizada em templos e redes sociais, enquanto aqueles que se alinham sem diálogo real podem ser cobrados nas urnas se promessas sobre segurança, saúde e emprego não se materializarem.

Organizadores já falam na próxima edição e em ampliar a estrutura de trios, telões e pontos de apoio, com metas de público acima de 100 mil pessoas nos próximos anos. A aposta é que, mesmo em meio a rearranjos no bolsonarismo e ao surgimento de novos líderes no campo conservador, a Marcha para Jesus siga como vitrine cobiçada. A dúvida que permanece é quem, em 2026, vai subir ao microfone para falar em nome dessa multidão e com que projeto político vai tentar converter fé em voto.

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