Mano Menezes mira 2030 com Peru e tira Brasil do rol de favoritos
Em entrevista exclusiva ao UOL Esporte em 9 de junho, em Miami, Mano Menezes detalha o plano de reconstrução da seleção do Peru até a Copa de 2030 e avalia o lugar do Brasil no futebol mundial. Aos 64 anos, o treinador admite frustração pelo ciclo interrompido na seleção brasileira e hoje vê França e Espanha à frente na corrida pela Copa de 2026.
Do 7 a 1 à aposta peruana
Mano Menezes fala com calma, algo raro para quem constrói a carreira sob pressão em beira de campo no Brasil. Quase 13 anos depois de deixar a seleção brasileira, ele assume no Peru a missão que considera pendente: conduzir uma equipe sul-americana até uma Copa do Mundo no auge do próprio trabalho. “Todo técnico fica frustrado quando não consegue concluir um trabalho”, diz, ao lembrar a demissão após o Mundial de 2010, em meio à troca de comando na CBF, com a saída de Ricardo Teixeira e a entrada de José Maria Marin.
O gaúcho é o técnico que leva Neymar pela primeira vez à seleção principal. Inicia um processo de renovação que não chega ao fim. O projeto muda de mãos, passa para Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira, e deságua naquele 7 a 1 que ainda hoje simboliza um fracasso coletivo, esportivo e institucional. Mano não se detém na ferida, mas deixa clara a sensação de que o roteiro poderia ser outro. “Havíamos passado algumas etapas e estávamos chegando perto de encontrar o equilíbrio para aquele time”, afirma.
Desde então, ele circula por gigantes do futebol brasileiro. Em 2013, chega ao Flamengo pouco antes da virada financeira que transformaria o clube em potência. Define o ambiente como “assustador” na época, diante do tamanho da dívida e da desorganização. Em 2019, assume o Palmeiras, mas não encontra tempo nem sintonia com a arquibancada e sai em poucos meses, sem conquistar títulos. Esses anos ajudam a moldar a leitura que hoje ele faz do país que o consagrou.
“O torcedor brasileiro ainda tem a ilusão de que todos podem ser campeões, o que já não é verdade”, analisa. Para ele, Flamengo e Palmeiras colhem em campo o que constroem fora dele, com planejamento, estrutura e investimento contínuo desde meados da década passada. “Hoje, qualquer treinador de alto nível, do Brasil ou de fora, vai chegar no Flamengo ou no Palmeiras e vai ser campeão. Se o Corinthians fizesse isso, não seria também uma potência? Mas não faz e a coisa vai se arrastando.”
Reconstrução em país pobre e apaixonado
O novo endereço de Mano Menezes é Lima, cidade de quase 10 milhões de habitantes e um futebol que oscila entre a tradição e a carência estrutural. O técnico assume a seleção em um momento de transição, com parte da geração que vai ao Mundial de 2018 já em fim de ciclo. Ele recebe a missão de renovar um time que tenta voltar à Copa em 2030, ano do centenário do torneio, que terá jogos em Argentina, Uruguai e Paraguai.
O formato das Eliminatórias ainda não está oficializado pela Conmebol, mas a tendência é que os dez países voltem a se enfrentar em turno e returno. Três vagas diretas já pertencem aos anfitriões, restando três vagas e meia para outros sete concorrentes, cenário que aperta a disputa. Há ainda a perspectiva de uma nova competição continental, uma espécie de “Liga das Nações das Américas”, que reuniria seleções da Conmebol e da Concacaf a partir deste ciclo.
Mano encara esse desenho com naturalidade e projeção otimista. “Nós estaremos em 2030”, crava. O discurso vem acompanhado de decisões duras. Jogadores que disputam Copa recentemente começam a ficar de fora das convocações por não terem mais idade para sustentar um ciclo de quatro anos. “É um processo de reconstrução e isso não é fácil quando essa renovação demora um pouquinho para começar a ser feita. Estamos deixando de fora alguns jogadores mundialistas, mas agora vamos tentar achar os jovens que possam nos ajudar.”
O treinador sente no dia a dia a combinação entre pobreza e paixão que marca o país. “Fora de Lima, é um país bastante pobre, com gente sofrida, e o futebol sempre pode ocupar um espaço de alegria em alguns momentos”, resume. “Os peruanos são realmente muito carinhosos e são apaixonados pela seleção deles.” Esse vínculo social, segundo ele, amplia o peso de cada convocação, de cada derrota, de cada esperança vendida para 2030.
Na sexta-feira anterior à entrevista, o Peru vence o Haiti por 2 a 1, de virada, em amistoso em Miami. No domingo à noite, em Puebla, no México, a seleção é dominada pela Espanha e perde por 3 a 1. Os dois resultados resumem o estágio atual: um time competitivo contra rivais do mesmo patamar e ainda distante das potências europeias. Justamente Espanha, ao lado da França, surge para Mano como favorita absoluta à Copa de 2026.
Brasil sem favoritismo e treinador em trânsito
Enquanto desenha o futuro do Peru, Mano observa à distância o país onde constrói a própria reputação. Ele não coloca o Brasil no primeiro escalão de candidatos ao título em 2026. Para o treinador, França e Espanha largam à frente, com Brasil e Argentina vivendo de tradição e talento individual para tentar chegar a esse nível ao longo do torneio. “O Brasil ainda está um pouco espaçado, com o meio de campo um pouco solto”, avalia. “Nós não começamos como favoritos.”
O comentário não é apenas técnico. Mano enxerga um ambiente em que o treinador precisa se adaptar a uma cultura que naturaliza o excesso. Em novembro de 2023, ainda no Brasil, ele se define como “juvenil” diante do comportamento à beira do campo de alguns colegas estrangeiros. Volta ao tema agora. “Eles passaram de todos os limites. O Brasil obriga a gente a ser umas coisas que a gente nem gostaria de ser. Mas para sobreviver a gente tem que rezar a missa”, afirma, em referência indireta a Abel Ferreira, multicampeão no Palmeiras. “Nós não somos um país tão bem educado quanto a gente gostaria que fosse.”
A imagem de técnico duro, chamado com frequência para “botar ordem na casa”, acompanha Mano desde os tempos de Grêmio e Corinthians. Ele próprio reconhece esse papel de bombeiro em vestiários em crise. “Não são muitos os treinadores da atualidade que seguram a bronca. Quando os dirigentes perdem o controle, vêm atrás de gente como eu.” A fase peruana, no entanto, oferece um tipo de desafio menos emergencial e mais estratégico, com margem para planejar quatro anos de trabalho.
O projeto inclui uma comissão técnica robusta, com profissionais experientes em seleção e futebol internacional. Ao lado de Mano estão o auxiliar e velho parceiro Sydney Lobo, o ex-assistente de Tite Fernando Lázaro, o preparador físico Guilherme Rodrigues, com passagem recente pela seleção do Uruguai, o fisiologista e dirigente do Valladolid Bruno Mazziotti, hoje uma espécie de diretor científico da seleção peruana, e Thiago Kozlowski, responsável pela equipe sub-20. “Conhecer futebol é básico para qualquer pessoa que trabalhe com futebol. O desafio de hoje em dia é gerenciar muita coisa”, diz Mano. “As equipes de trabalho são grandes, são muitas informações e os jogadores precisam ser tratados de forma individualizada.”
O idioma aparece como obstáculo menor. O treinador brinca que um espanhol perfeito não garante emprego. “Não adianta falar um espanhol perfeito se não ganhar. Antes, precisamos ganhar jogos. Depois eu vou aprendendo.” O raciocínio lembra, em escala sul-americana, a aposta da CBF em Carlo Ancelotti. Mano vê o italiano como treinador de peso, mas ressalta o risco do pouco tempo para conhecer um elenco espalhado por pelo menos dez ligas europeias e grandes clubes do Brasil. “É o tempo que nós treinadores precisamos e raramente temos”, afirma.
Um olho em 2026, outro em 2030
O calendário aponta duas linhas de disputa para Mano Menezes. De um lado, a Copa de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, que ele acompanha como observador interessado e concorrente indireto, já que os protagonistas de hoje estarão envelhecendo em 2030. De outro, o início de um ciclo de Eliminatórias mais curto e comprimido, em que o Peru briga em igualdade formal com Colômbia, Chile, Equador, Venezuela, Bolívia e Paraguai por três vagas diretas e uma repescagem internacional.
O técnico sabe que cada amistoso contra seleções como Espanha, França ou mesmo Haiti ajuda a calibrar o grupo e medir o nível real de competitividade. Ao mesmo tempo, entende que a reconstrução passa por decisões impopulares, cortes de veteranos e aposta em jogadores que hoje ainda lutam por espaço em clubes médios da América do Sul e da Europa. Se o projeto peruano vingar, Mano volta a uma Copa do Mundo em 2030 com status de protagonista tardio. Se fracassar, reforça a leitura de que nem mesmo treinadores experientes escapam das limitações econômicas e estruturais do continente. A resposta começa a ser escrita nas Eliminatórias que se aproximam e no campo empoeirado onde o futebol continua sendo, para muitos peruanos, a forma mais barata de sonhar.
