Esportes

Mancha Verde publica manifesto e pede saída de Abel Ferreira do Palmeiras

A principal torcida organizada do Palmeiras, a Mancha Verde, divulga nesta quinta-feira (21) um manifesto em que pede a saída do técnico Abel Ferreira. O texto, exibido no Allianz Parque, também ataca a presidente Leila Pereira e o diretor de futebol Anderson Barros, e acusa o clube de viver uma “miragem” esportiva nos últimos três anos.

Manifesto expõe ruptura com a era mais vitoriosa recente

O documento, intitulado “Obrigado, Abel. Já deu. Tchau”, marca uma ruptura simbólica com o treinador que lidera o clube desde 2020 e acumula títulos brasileiros, da Libertadores e da Copa do Brasil. A Mancha reconhece o passado vitorioso do português, mas descreve o presente como “vergonhoso dentro de campo” e afirma que o time “não joga bola há muito tempo”.

O texto é exibido no Allianz Parque com tom incomum até para os padrões de pressão de torcidas organizadas. A organizada afirma que o Palmeiras vive há três anos uma espécie de Fata Morgana, miragem clássica do deserto: “Você olha de longe, parece grandioso, parece real… mas quando chega perto, não existe nada”. Na visão do grupo, campanhas com liderança e invencibilidade escondem fracassos em momentos decisivos.

O manifesto cita vices, eliminações e a conquista “no máximo, de um Paulista” como exemplo de um cenário em que, segundo a torcida, a narrativa de sucesso supera o desempenho esportivo. A Mancha argumenta que os bons números recentes maquiam problemas estruturais, dentro e fora de campo, que agora aparecem com força em meio à oscilação da temporada 2026.

O Palmeiras lidera o Campeonato Brasileiro, mas perde a invencibilidade na Libertadores e adia a classificação às oitavas de final. O contraste entre a posição na tabela e o futebol apresentado alimenta o discurso da organizada, que fala em “time perdido há meses”. A crítica central recai sobre o modelo de jogo e sobre o comando técnico de Abel.

Alvo principal é Abel: de herói a treinador “arrogante e perdido”

O treinador é colocado no centro da crise. O texto afirma que “tudo isso cai diretamente na conta do treinador” e descreve Abel como “arrogante, desequilibrado e perdido”. A Mancha lista uma série de problemas que atribui ao trabalho do português: chutões para frente, cruzamentos sem sentido, jogadores fora de posição, time desorganizado, sem padrão tático, sem criatividade e sem reação.

O ataque extrapola o campo. A organizada reclama de expulsões consideradas “infantis”, que prejudicam o time, e de entrevistas em que o técnico reage com “coletivas agressivas, respostas debochadas e uma mania insuportável de procurar desculpas para tudo”. No manifesto, a torcida acusa Abel de reclamar da arbitragem, do calendário, do gramado e da imprensa, mas de assumir pouco a responsabilidade “pelo futebol ridículo que o Palmeiras apresenta”.

O elenco também entra na linha de tiro, embora em segundo plano. A Mancha chama o grupo de “caro, milionário” e diz que ele joga “um futebol pequeno”. Na avaliação da torcida, o time está “sem intensidade, sem jogada, sem alma e sem liderança”, o que reforça a tese de um trabalho mal conduzido no dia a dia da Academia de Futebol.

As críticas surgem após uma sequência de atuações abaixo do esperado em 2026, com desempenho irregular nas copas e dificuldade para controlar jogos, mesmo em casa. A quebra da invencibilidade na Libertadores pesa no clima interno, porque o torneio continental é tratado pela própria diretoria como prioridade esportiva e de imagem neste ciclo.

Diretoria é acusada de viver de marketing e planejamento falho

O manifesto não se limita ao treinador. A Mancha mira com força a presidente Leila Pereira, que cumpre o segundo mandato à frente do clube, e o diretor de futebol Anderson Barros, no cargo desde 2019. “O Palmeiras não pode viver só de marketing e entrevistas”, diz o texto ao se referir à dirigente. Segundo a organizada, “nos seus dois mandatos, os títulos grandes passaram longe”.

A torcida afirma que, em jogos decisivos, falta pulso e comando, e sobra discurso. A frase “o Palmeiras virou um clube que fala muito e joga pouco” sintetiza a avaliação sobre a atual gestão. Na prática, a crítica mira o contraste entre a força financeira construída nos últimos anos e a ausência de novas conquistas de Libertadores ou Mundial desde 2021.

Anderson Barros é responsabilizado pela montagem do elenco, classificada como “desequilibrada e sem peças de reposição”. O texto afirma que o time não tem laterais confiáveis, carece de um meia criativo e conta com um banco fraco para o tamanho do clube. A Mancha associa essa montagem deficiente à falta de planejamento para uma temporada longa, com calendário apertado e risco alto de lesões.

O manifesto cita ainda que “quem tem dinheiro precisa se preparar” para perdas por contusão, em referência indireta à capacidade de investimento do Palmeiras nos últimos anos. A crítica ganha peso num contexto em que o clube registra receitas altas, estabilidade financeira e contratos expressivos com patrocinadores, mas enfrenta desgaste esportivo e pressão da arquibancada.

Pressão aumenta sobre Abel e diretoria em ano de disputas decisivas

A posição da Mancha Verde não derruba treinador nem dirigente de forma automática, mas amplia a pressão política em um momento chave da temporada. O grupo é a organizada mais tradicional do Palmeiras, ocupa espaço relevante na arquibancada e costuma influenciar o ambiente em jogos no Allianz Parque, que recebe mais de 30 mil torcedores em partidas importantes.

Internamente, o manifesto tende a acender alertas sobre a relação entre Abel, elenco e diretoria. Uma ruptura aberta com parte da torcida organizada pode endurecer o clima em treinos abertos, aumentar vaias em caso de tropeços em casa e acelerar decisões sobre o comando técnico se a sequência de partidas não vier acompanhada de desempenho convincente.

A diretoria, que em outras ocasiões respalda publicamente o treinador, agora precisa calibrar o discurso. Um apoio irrestrito, diante de críticas tão duras, pode ser lido como distanciamento da arquibancada. Um sinal de dúvida, por outro lado, alimenta especulações sobre uma possível saída do técnico ainda em 2026, em pleno curso do Brasileirão e da Libertadores.

Abel, ídolo recente e símbolo de uma das fases mais vitoriosas dos mais de 100 anos de história palmeirense, se vê desafiado a responder com desempenho e resultado em campo. Cada jogo passa a ser exame público do modelo de jogo, das escolhas táticas e da relação com o elenco. A pergunta que se impõe no Allianz Parque é se o desgaste atual aponta para o fim de um ciclo ou para mais uma reinvenção sob o mesmo comando.

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