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Mancha Verde publica manifesto e pede a saída de Abel Ferreira

A principal torcida organizada do Palmeiras, a Mancha Verde, publica nesta quinta-feira (21) um manifesto em que pede a saída do técnico Abel Ferreira. O texto, divulgado em tom duro, responsabiliza o treinador, o elenco e a diretoria pela queda de desempenho do time na temporada. A cobrança amplia a pressão sobre o comando do futebol alviverde em pleno Allianz Parque.

Manifesto mira Abel, elenco e cúpula do clube

O documento, intitulado “Obrigado, Abel. Já deu. Tchau”, circula entre torcedores e nas redes sociais ao longo do dia e escancara o desgaste da relação com o treinador português, no comando do clube desde 2020. A organizada afirma que o Palmeiras vive uma “miragem” nos últimos três anos, com campanhas consistentes em números, mas desempenho decepcionante nos momentos decisivos. “Os números mostram liderança, invencibilidade, campanhas ‘históricas’. Mas quando chega a hora da verdade, sobra vice, eliminação e, no máximo, um Paulista”, escreve a torcida.

A Mancha Verde acusa Abel de ter se transformado em um técnico “arrogante, desequilibrado e perdido” e aponta que o time “não joga bola há muito tempo”. O texto descreve um Palmeiras sem criatividade, taticamente desorganizado, dependente de cruzamentos e sem reação em campo. “O time é mal treinado. Sem intensidade, sem jogada, sem alma e sem liderança. Um elenco caro, milionário, e joga um futebol pequeno”, diz o manifesto.

As críticas se estendem ao comportamento de Abel fora de campo. A organizada cita expulsões em sequência, entrevistas consideradas agressivas e o que chama de “mania insuportável de procurar desculpas para tudo”. Segundo o texto, o treinador reclama de arbitragem, calendário, gramado e imprensa, mas “assume raramente a responsabilidade pelo futebol ridículo que o Palmeiras apresenta”. O movimento marca uma virada de tom em relação a anos anteriores, quando o trabalho do português era blindado pela maior parte da arquibancada.

Time oscila em campo e torcida vê ‘miragem’ de resultados

O manifesto vem à tona em um momento de forte contraste entre números e desempenho. O Palmeiras lidera o Campeonato Brasileiro, após as primeiras rodadas, e mantém campanha sólida na temporada. Ao mesmo tempo, perde a invencibilidade na Libertadores e adia a classificação às oitavas de final, algo que parecia encaminhado até o início de maio de 2026. A torcida organizada lê essa oscilação como sintoma de um problema mais profundo e antigo.

No texto, a Mancha Verde afirma que “os resultados escondiam a bagunça” e sustenta que o time já se mostra “perdido há meses”. A crítica mira escolhas táticas de Abel, como a insistência em lançamentos longos e cruzamentos, além da utilização de jogadores fora de posição. Para a organizada, a falta de um padrão visível em campo expõe falhas de planejamento e acende um alerta para a sequência do ano, que ainda reserva fases decisivas de Libertadores, Copa do Brasil e reta final do Brasileiro.

A pressão da arquibancada se soma a episódios recentes que aumentam o ruído no ambiente. A diretoria responde a questionamentos públicos sobre o futuro de Abel, enquanto jogadores demonstram incômodo com cobranças e perguntas em entrevistas. Em uma das últimas partidas no Allianz Parque, um dos goleiros se irrita com uma questão sobre desempenho e abandona a zona mista, gesto que simboliza o desgaste interno. O clima contrasta com o cenário de 2021 e 2022, anos de títulos continentais e estabilidade, quando a relação entre elenco, comissão e torcedores parecia à prova de crises.

Críticas a Leila Pereira e Anderson Barros elevam pressão política

O texto também atinge a presidente Leila Pereira e o diretor de futebol Anderson Barros. “O Palmeiras virou um clube que fala muito e joga pouco”, afirma a Mancha Verde ao se referir à gestão. A organizada acusa a dirigente de viver de “marketing e entrevistas” e sustenta que, em dois mandatos, “os títulos grandes passaram longe”. A cobrança aponta falta de pulso em jogos decisivos e excesso de discurso em comparação ao desempenho esportivo.

Sobre Anderson Barros, o tom é ainda mais agressivo. O manifesto afirma que “a incompetência continua pesada” e responsabiliza o dirigente pela montagem de um elenco “desequilibrado e sem peças de reposição”. A torcida cita carência de laterais confiáveis, ausência de um meia criativo e um banco considerado fraco para as ambições de um clube que disputa títulos nacionais e internacionais todo ano. A crítica vai além do momento e atinge o planejamento de uma temporada longa, que exige respostas rápidas a lesões, suspensões e queda física natural ao longo de mais de 60 jogos.

A ação da Mancha Verde pressiona diretamente o comando político em pleno segundo mandato de Leila, que administra também a relação com investidores, patrocinadores e conselheiros influentes. O manifesto ganha peso por vir da principal organizada, com histórico de mobilização nas arquibancadas e presença constante no entorno do Allianz Parque. A leitura interna é de que, quando esse tipo de torcida rompe o apoio público ao treinador, o espaço para erros diminui e as margens de negociação da diretoria ficam mais estreitas.

O que pode mudar no Palmeiras após o manifesto

A publicação não derruba treinador nem provoca demissões de imediato, mas altera o tabuleiro político e esportivo do Palmeiras. A partir de agora, cada tropeço tende a ser lido sob a lente da cobrança pública e da ruptura com parte da torcida organizada. Se a equipe confirma a vaga em primeiro lugar no grupo da Libertadores e mantém a liderança do Brasileiro, a diretoria ganha fôlego. Em caso de nova eliminação precoce ou queda brusca de desempenho, a pressão por mudanças no comando técnico deve se intensificar.

Abel Ferreira, por sua vez, entra em uma fase em que o discurso precisa caminhar junto com o desempenho. As coletivas, antes espaço para explicações detalhadas sobre escolhas táticas, passam a ser examinadas também como sinais de estabilidade ou desgaste. A diretoria avalia, nos bastidores, o custo esportivo e financeiro de qualquer ruptura, enquanto Leila Pereira tenta equilibrar a defesa pública do treinador com a necessidade de responder à base política que a sustenta no clube.

No gramado, o elenco sente o efeito direto do manifesto. Jogadores lidam com cobrança maior a cada atuação em casa e com o risco de vaias rápidas diante de qualquer oscilação. A temporada de 2026 segue aberta, com títulos ainda ao alcance e margem real de recuperação. A pergunta que passa a orientar o ambiente no Allianz Parque é se o clube conseguirá ajustar rota mantendo Abel à frente do projeto ou se a pressão da arquibancada vai acelerar um fim de ciclo que, até pouco tempo atrás, parecia intocável.

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