Lula diz que extrema-direita teme universidades e anuncia 2,6 mil bolsas a africanos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende nesta segunda-feira (25), em Brasília, a educação como arma central contra a extrema-direita e anuncia 2,6 mil bolsas para estudantes africanos. O compromisso é firmado na abertura do 1º Fórum de Reitores Brasil-África, ao reforçar universidades e cooperação científica como pilares da relação com o continente.
Educação no centro da disputa política e global
Em um auditório tomado por reitores brasileiros e africanos, Lula sobe ao púlpito e faz da educação o eixo de uma agenda política e geopolítica mais ampla. Ele afirma que a extrema-direita reage com hostilidade às universidades porque nelas floresce a crítica ao autoritarismo e às desigualdades históricas. “A extrema-direita teme a educação, porque sabe que é onde nasce a consciência”, diz, em tom de alerta.
O presidente conecta o discurso ao cenário internacional. Lembra que, na Cúpula de Líderes Celac-África, em março, apresentou cinco eixos para aproximar América Latina e continente africano. Entre eles, o combate à fome, as mudanças climáticas, a transição energética, a democratização da inteligência artificial e a integração de cadeias produtivas. Em todos, insiste, a chave está nas salas de aula e nos laboratórios.
“A educação é ferramenta para a superação de todos esses desafios”, afirma. Ele acusa setores conservadores de tentar controlar o que se ensina nas universidades, de negar a ciência e de censurar artes. “Querem calar professores e estudantes e coibir a diversidade”, diz ao público, que reage com aplausos discretos, típicos de encontros acadêmicos, mas contínuos ao longo do discurso.
Lula amarra a defesa do pensamento crítico às pautas anticoloniais. Diz que universidades não podem se limitar à formação técnica e precisam enfrentar as heranças do racismo, da misoginia e da xenofobia. “O pensamento crítico caminha lado a lado com a luta anticolonial e o combate ao racismo, à misoginia, à xenofobia e a todas as formas de discriminação”, afirma.
Ao citar Nelson Mandela, o presidente tenta dar densidade histórica ao argumento e se alinha a uma tradição de líderes que enxergam na escola um instrumento de emancipação. “As universidades seguirão como bastiões da resistência aos horrores cometidos em todas as guerras. Nelson Mandela afirmava que essa é a arma mais poderosa para mudar o mundo”, diz.
Brasil-África: bolsas, acordos e disputa por influência
O anúncio de 2,6 mil bolsas para mestrandos e doutorandos africanos, a serem concedidas pela Capes por períodos de até dez meses, é o principal gesto concreto do encontro. O governo aposta que, ao receber pesquisadores de 38 países africanos, cria uma rede de vínculos duradouros, que atravessa governos e ciclos eleitorais. Na prática, abre caminho para parcerias em pesquisa aplicada, inovação tecnológica e políticas públicas.
Lula lembra que hoje existem 235 acordos em vigor entre universidades brasileiras e africanas. A estratégia agora, explica, é ir além de convênios genéricos e avançar para o conceito de “universidades irmãs”, com programas conjuntos, currículos compartilhados e mobilidade regular de estudantes e professores. A expectativa no Planalto é que essa integração gere projetos em áreas como agricultura sustentável, energias renováveis, saúde pública e inteligência artificial.
O discurso também recupera o balanço dos três mandatos de Lula e dos governos da ex-presidenta Dilma Rousseff na educação superior. Ele destaca a criação de 20 universidades federais, 192 novos campi e 564 institutos tecnológicos, além da obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira na educação básica. “Triplicamos o número de brasileiros com diploma universitário. Hoje este número chega a quase 22% da nossa população”, afirma, creditando o resultado a programas de expansão e às políticas de cotas.
Ao se dirigir aos reitores africanos, Lula recorre a um dado que considera emblemático: apenas 9% dos jovens africanos chegam à universidade hoje. Ele compara o cenário ao Brasil do início dos anos 2000, quando menos de 7% dos brasileiros tinham diploma de curso superior. “Foi preciso que um metalúrgico sem diploma universitário chegasse ao poder para mudar esse cenário de esquecimento”, diz, numa mistura de autobiografia e recado político.
A menção à Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, criada em 2010, funciona como símbolo dessa aproximação. Lula a define como “uma verdadeira ponte viva sobre o Atlântico” e tenta marcar distância de políticas externas centradas apenas em comércio e infraestrutura. Ao apostar na cooperação educacional do Sul Global, o governo busca também reposicionar o Brasil como interlocutor privilegiado de países africanos num momento em que China, União Europeia e Estados Unidos disputam influência no continente.
Nos bastidores, auxiliares admitem que a agenda acadêmica vem acompanhada de cálculo estratégico. Formar quadros africanos em universidades brasileiras tende a aproximar governos futuros e empresas de países que hoje ainda têm pouca relação com o Brasil. A aposta é que a circulação de pesquisadores produza novos negócios em áreas como biocombustíveis, mineração de baixo impacto e infraestrutura verde, além de reforçar posições conjuntas em fóruns multilaterais sobre clima e regulação da inteligência artificial.
Desafios, tecnologia e o que vem pela frente
Apesar da celebração em torno das novas bolsas, Lula reconhece que as barreiras de acesso à educação seguem altas em ambos os lados do Atlântico. Ele cita a falta de internet de qualidade, de energia elétrica estável e de equipamentos digitais como fatores que aprofundam a exclusão de milhões de crianças e jovens em um mundo cada vez mais orientado pelo conhecimento. O diagnóstico vale tanto para periferias brasileiras quanto para áreas rurais e urbanas em países africanos.
Nesse cenário, o presidente aponta o ensino a distância como atalho possível para acelerar a cooperação acadêmica. Ele diz que o Brasil tem hoje um dos maiores sistemas de EAD do mundo e pode compartilhar know-how tecnológico e pedagógico com parceiros africanos. A ideia é oferecer cursos conjuntos, colaborações entre laboratórios e aulas remotas de professores brasileiros para turmas em universidades do continente, sem que o custo de passagem aérea e moradia limite quem participa.
O desafio imediato é transformar o entusiasmo retórico do fórum em programas sustentáveis no tempo. As 2,6 mil bolsas anunciadas abrem portas, mas dependem da capacidade das universidades em receber estudantes estrangeiros com estrutura, orientação acadêmica e apoio financeiro complementar. Na África, reitores presentes em Brasília calculam que será preciso adaptar currículos, fortalecer centros de pesquisa e garantir que o conhecimento produzido em parceria não fique restrito a teses e artigos.
Para o governo, o fórum marca um reposicionamento da educação como política externa, e não apenas política social interna. Se a aposta funcionar, o Brasil pode ganhar relevância em negociações globais sobre clima, energia e tecnologia ao falar em bloco com países africanos e latino-americanos. Se falhar, o risco é que o encontro entre reitores fique na memória apenas como uma fotografia de ocasião, sem impacto concreto na vida de estudantes e professores.
O balanço desse movimento virá nos próximos anos, à medida que as primeiras turmas de bolsistas africanos retornem aos seus países e ocupem cargos em universidades, governos e empresas. A partir daí, ficará mais claro se a “arma mais poderosa para mudar o mundo”, como citou Lula ao lembrar Mandela, consegue de fato atravessar o Atlântico em mão dupla ou se esbarra, outra vez, nas velhas fronteiras da desigualdade.
