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Kim Kataguiri defende escala 6×1 e acusa PEC de enganar trabalhador

O deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP) sai em defesa da escala 6×1 e ataca a proposta para pôr fim ao modelo durante sessão da CCJ nesta quinta-feira (23/4/2026). Ele acusa autores da PEC de usar o tema como palanque político e avisa que, se aprovada, a mudança “vai piorar” a vida do trabalhador.

Embate na CCJ em torno da jornada semanal

O embate ocorre na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados, primeira porta de entrada para mudanças na Constituição. A comissão aprova relatório favorável à tramitação da Proposta de Emenda à Constituição conhecida como “PEC da jornada 6×1”, que pretende rever o limite de horas semanais e, na prática, abrir caminho para o fim do regime em que o empregado trabalha seis dias seguidos e folga um.

Com a decisão, o texto avança e seguirá para uma comissão especial, responsável por discutir o mérito da proposta e desenhar o modelo final de jornada. É nesse ponto que Kataguiri concentra suas críticas. Ao longo da sessão, ele insiste que o discurso em defesa do fim da escala cria uma expectativa irreal para quem vive do próprio trabalho. “No futuro, após a aprovação dessa PEC, ou após a aprovação do Projeto de Lei do governo, o trabalhador vai enxergar que foi enganado. Que foi objeto de um palanque político populista, demagogo e mentiroso”, afirma.

O deputado mira especialmente os autores da PEC, entre eles a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Para ele, a proposta é mais uma peça na disputa política com o governo e com a base sindical, que desde 2023 pressiona pelo fim do 6×1 e pela ampliação de folgas. A discussão ganha força depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedir, em reuniões com centrais sindicais, mobilização pela mudança na jornada, e de o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, apoiar um projeto de lei paralelo sobre o tema.

Argumentos, contradições e impacto para o trabalhador

Em um dos momentos centrais do discurso, Kataguiri tropeça nas próprias palavras e afirma ser “contra a escala 6×1”. O contexto, porém, deixa claro que ele se refere à proposta que pretende extinguir o modelo. O deputado recorre a uma experiência pessoal para tentar aproximar o debate do cotidiano do eleitor. “Trabalhei no meu primeiro emprego na escala 6×1, em uma saga de quatro horas de condução. É absolutamente justo que o trabalhador tenha tempo pra estudo, lazer, descanso e com a família. Mas essa aprovação não mudaria em nada meu emprego, porque era informal”, diz.

É nesse ponto que o parlamentar sustenta seu argumento principal. Na visão dele, mexer na jornada formal não toca a realidade de boa parte do país. “O trabalhador vai ver que a sua situação de trabalho vai estar mais precarizada, mas só vai perceber depois da eleição”, afirma. Segundo Kataguiri, a maioria “esmagadora” dos trabalhadores brasileiros está na informalidade ou atua como pessoa jurídica, fora das amarras diretas da Consolidação das Leis do Trabalho.

Estudos recentes mostram uma tendência nessa direção. Dados do IBGE indicam que, em 2025, mais de 40% da força de trabalho atuava sem carteira assinada ou como autônomo, enquanto a pejotização se espalhava em setores como tecnologia, comércio e serviços. Nesse cenário, a disputa em torno da escala 6×1 atinge com mais força quem tem contrato formal, principalmente em redes de varejo, supermercados, shopping centers, serviços de alimentação e indústrias com operação contínua, como metalurgia e química.

Para sindicatos dessas categorias, o fim da escala significaria mais dias de descanso e melhor qualidade de vida, sem perda de salário. Para empresas, a mudança pode significar aumento de custos com contratações, reorganização de turnos e pressão sobre margens em um ambiente de juros altos. Kataguiri prefere outro caminho. “PEC não altera a realidade do trabalhador. O que faria que a população trabalhasse menos e ganhasse mais é, dentre outras coisas, cortar imposto. Só que essa discussão ninguém quer ter”, dispara.

A fala ecoa o discurso liberal defendido pelo deputado desde o primeiro mandato, com foco em desoneração da folha, simplificação tributária e flexibilização da legislação trabalhista. Ele tenta se posicionar como voz dissonante em meio a um ambiente que, segundo aliados, tende a ceder à pressão de categorias organizadas e às promessas do governo. A estratégia mira também a base conservadora que rejeita o que chama de “populismo trabalhista” e vê com desconfiança qualquer ampliação de obrigações para o empregador.

Divisão política, próximos passos e incertezas

A aprovação do relatório na CCJ não encerra o embate. A comissão especial que ainda será instalada terá prazo de até 40 sessões para discutir o texto, ouvir centrais sindicais, representantes de empresas e especialistas em direito do trabalho. Só depois dessa etapa a PEC poderá ir a plenário, onde precisará de 308 votos em dois turnos para ser incorporada à Constituição. Em paralelo, avança no Congresso um projeto de lei do Executivo sobre a jornada, o que amplia o espaço de manobra para negociações e eventuais recuos.

O governo Lula aposta que a bandeira do fim da escala 6×1 pode dialogar com uma base popular historicamente ligada ao PT e às centrais, em um momento de renda pressionada pela inflação e pelo endividamento. A oposição busca explorar o risco de frustração caso a mudança fique no papel para parte expressiva da população que circula entre bicos, aplicativos e serviços informais.

Kataguiri tenta se colocar nesse segundo campo. “Eu sei que isso me tira voto, sei que isso é impopular, mas eu tenho coragem de vir aqui defender a verdade e o que acredito, porque não troco minha convicção pela eleição”, afirma ao encerrar sua fala na CCJ. A frase resume o tom de confronto escolhido pelo deputado, que aposta em se diferenciar justamente ao nadar contra a corrente.

Os próximos meses devem mostrar se o alerta encontra eco no plenário ou se prevalece a agenda de expansão de direitos formais em um mercado de trabalho cada vez mais fragmentado. Enquanto a PEC avança e o projeto de lei do governo ganha corpo, a vida de quem enfrenta jornadas longas, transporte demorado e contratos precários segue à espera de soluções que, para além do palanque, cheguem efetivamente ao ponto de ônibus e ao chão da fábrica.

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