Trump negocia extensão de cessar-fogo entre Israel e Líbano em meio a novos ataques
Donald Trump negocia nesta quinta-feira (23) a extensão do cessar-fogo entre Israel e Líbano, em Washington, um dia após ataques israelenses matarem ao menos cinco pessoas no sul libanês, entre elas a jornalista Amal Khalil. O movimento tenta conter a escalada com o Hezbollah e abrir caminho para um acordo de paz ainda em 2026.
Casa Branca vira palco de segunda rodada
No Salão Oval, Trump recebe o embaixador de Israel em Washington, Yechiel Leiter, e a embaixadora do Líbano nos EUA, Nada Moawad, para a segunda rodada de conversas mediadas pelos americanos em uma semana. A reunião ocorre a três dias do fim formal da trégua, prevista para expirar no domingo, dia 26, e tenta salvar um acordo que reduz a violência desde 16 de abril, mas não consegue silenciar os canhões no sul do Líbano.
Trump exibe otimismo diante das câmeras. Ao lado dos dois diplomatas, afirma a repórteres que vê “uma grande chance” de Israel e Líbano chegarem a um acordo de paz ainda neste ano. Diz esperar receber em breve o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Josef Aoun, em Washington, e torce para que os dois se encontrem durante o cessar-fogo de três semanas agora prorrogado.
Nas redes, o presidente americano envia recado direto a Beirute. “A reunião foi muito boa! Os Estados Unidos vão trabalhar com o Líbano para ajudá-lo a se proteger do Hezbollah”, escreve na Truth Social. O grupo xiita, apoiado pelo Irã, não participa das negociações, mas ocupa o centro de quase todas as frases ditas na sala.
Ao lado de Trump, compõem a mesa o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio, o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, e o embaixador dos EUA no Líbano, Michel Issa. A presença do núcleo duro da política externa de Washington reforça o recado: a Casa Branca vê a frente libanesa como teste decisivo de sua capacidade de frear o Irã sem romper o cessar-fogo mais amplo firmado em outras frentes da guerra regional.
Hezbollah fora da mesa, mas no centro da disputa
A trégua em vigor desde 16 de abril reduz de forma visível o volume de ataques, mas não encerra as operações de Israel em território libanês. Tropas israelenses mantêm uma faixa ocupada de 5 a 10 quilômetros dentro do sul do Líbano, classificada por Tel Aviv como “zona de segurança” para proteger o norte de Israel dos foguetes do Hezbollah. Quase 2.500 pessoas já morrem no Líbano desde o início da ofensiva, em 2 de março, segundo autoridades libanesas, número que inclui civis, combatentes e profissionais de imprensa.
O exército israelense informa nesta quinta-feira ter matado dois homens armados que se aproximam de suas tropas no sul do Líbano. Horas antes, o Ministério da Saúde libanês relata que um ataque aéreo israelense mata três pessoas, e um bombardeio de artilharia fere outras duas, entre elas uma criança. As autoridades ainda tentam esclarecer se os episódios se conectam. A véspera, quarta-feira 22, já entra para o registro como o dia mais mortal desde o início da trégua.
Entre os mortos está Amal Khalil, jornalista do diário libanês Al-Akhbar, atingida em um ataque israelense, segundo um alto funcionário militar e o próprio jornal. Israel diz analisar o episódio e afirma que seu alvo são veículos que deixam uma estrutura militar do Hezbollah. “O exército não tem como alvo jornalistas”, sustenta o comunicado militar. Organizações de imprensa cobram investigação independente.
O Hezbollah afirma ter realizado quatro operações no sul do Líbano na quarta-feira, em resposta aos bombardeios israelenses, e diz apoiar a continuidade do cessar-fogo, “mas com base no cumprimento integral por parte do inimigo israelense”, nas palavras do parlamentar Hassan Fadlallah. Em coletiva de imprensa televisionada, ele rejeita qualquer negociação direta com Israel e pressiona o governo libanês a encerrar todo contato público com o país vizinho.
Dentro da Casa Branca, o embaixador israelense Yechiel Leiter tenta fixar outra prioridade. Para ele, o foco das conversas não deve ser a retirada das forças de Israel, mas a “erradicação do Hezbollah”. “Se o Hezbollah e os agentes da Guarda Revolucionária continuarem a ser tratados com condescendência, um processo real para alcançar nosso objetivo mútuo permanecerá inatingível”, afirma, em nota divulgada pela embaixada israelense em Washington.
Do lado libanês, a agenda é mais ampla. Um funcionário de Beirute antecipa que o governo pretende usar as próximas fases de negociação para exigir a retirada israelense, o retorno de libaneses detidos em Israel e a delimitação formal da fronteira terrestre. Nada Moawad, em público, prefere o tom de gratidão. “Acredito que com sua ajuda, com seu apoio, podemos tornar o Líbano grande novamente”, diz ela a Trump, ecoando o slogan que o levou à Casa Branca.
Pressão sobre leis internas e cálculo regional
Trump tenta ir além da linha de fronteira. Questionado sobre como ajudará o Líbano a enfrentar o Hezbollah, evita detalhes militares, mas fala em “ótima relação” com o país e cobra mudanças políticas internas. Ele se espanta ao ouvir de jornalistas sobre as leis antinormalização libanesas, que criminalizam o contato com Israel. “É crime conversar com Israel?”, reage. Em seguida, promete: “Tenho quase certeza de que isso será encerrado muito em breve. Vou garantir isso”.
A eventual revisão dessas normas mexe com a política doméstica de Beirute e com o equilíbrio entre facções pró e anti-Hezbollah. Um gesto nessa direção pode fortalecer o governo central, que tenta há pelo menos um ano desarmar o grupo de forma pacífica, mas também elevar a tensão nas ruas e no Parlamento, onde o Hezbollah e seus aliados mantêm influência decisiva.
Do outro lado, Israel busca aproximar-se formalmente do Estado libanês contra o inimigo comum. Ao enfatizar a ameaça representada pelo grupo apoiado pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, Tel Aviv tenta isolar o Hezbollah dentro de casa e, ao mesmo tempo, sinalizar ao Irã que qualquer nova escalada terá resposta coordenada com Washington. Nos bastidores, autoridades americanas elaboram planos de contingência para atacar alvos iranianos no Estreito de Ormuz caso a trégua no Líbano ruir, reforçando a ligação entre os diferentes tabuleiros da guerra regional.
A extensão do cessar-fogo reduz, por ora, o risco de uma ofensiva terrestre mais ampla e de novos deslocamentos em massa no sul do Líbano, região onde vilarejos inteiros já esvaziam desde o início de março. Também oferece uma janela para discussões mais técnicas sobre demarcação de fronteira e troca de prisioneiros, temas que historicamente travam qualquer tentativa de acordo de longo prazo entre os dois países.
Trégua ganha fôlego, mas paz segue distante
Os próximos dias testam a solidez da trégua ampliada. O Hezbollah promete respeitar o cessar-fogo, mas condiciona a boa vontade ao “cumprimento integral” por Israel. O governo libanês tenta equilibrar as exigências do grupo armado, a pressão americana e o clamor de uma população exausta, que assiste à escalada de mortes e teme uma nova onda de destruição em cidades como Tiro e Nabatieh.
Israel, por sua vez, insiste em manter a “zona de segurança” ao norte de sua fronteira enquanto houver disparos de foguetes. O exército reitera o alerta para que moradores do sul do Líbano não entrem na área ocupada e sinaliza que novas operações aéreas e de artilharia seguirão “contra alvos do Hezbollah”, ainda que, na prática, já tenham atingido civis e jornalistas.
Para Washington, cada morte registrada desde 16 de abril funciona como lembrete de que um cessar-fogo parcial não basta para estabilizar o front libanês. A Casa Branca tenta usar a atual trégua como laboratório de uma fórmula mais ampla: conter o avanço iraniano, preservar a segurança israelense e evitar uma guerra aberta que empurre mais potências para o campo de batalha.
Trump aposta que essa equação pode render um acordo de paz ainda em 2026 e um troféu diplomático em ano eleitoral. Os números em campo, porém, contam outra história: quase 2.500 mortos, centenas de foguetes lançados e uma fronteira redesenhada à força mantêm o Oriente Médio em estado de alerta. A nova rodada em Washington indica que a diplomacia ainda respira, mas deixa sem resposta a pergunta central da crise: quem, de fato, controla o fim da guerra quando as armas seguem tão perto da mesa de negociações?
