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Jovem morre ao ser arremessada sem corda em salto de rope jump em SP

A auxiliar administrativa Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 23, morre neste sábado (13) após ser arremessada de um salto de rope jump sem corda de segurança em Limeira, no interior de São Paulo. O salto, promovido pela empresa Entre Cordas na ponte da cidade, tinha queda de cerca de 40 metros. Três responsáveis pela atividade são presos em flagrante por homicídio com dolo eventual.

Vídeo registra queda e fuga de responsáveis

O grupo se reúne sobre a Ponte de Limeira no fim da manhã, em clima de expectativa. Maria Eduarda veste capacete, cadeirinha e ouve instruções rápidas dos monitores. Em seguida, é posicionada na borda e, com a ajuda de três homens, é literalmente empurrada para o vazio.

O vídeo que circula nas redes sociais mostra que, no momento do salto, nenhuma corda está presa ao equipamento da jovem. Assim que ela despenca, gritos tomam a cena. Pessoas que aguardam na fila e curiosos às margens do rio se dão conta de que algo está errado e começam a chamar por socorro.

Segundo o boletim de ocorrência, dois dos envolvidos ainda permanecem próximos ao ponto de salto quando as primeiras equipes de resgate se aproximam. Um policial militar tenta ouvi-los e auxiliar na organização do atendimento. Enquanto o agente se desloca para apoiar o socorro, os homens correm em direção a uma área de vegetação e desaparecem.

A fuga leva a Polícia Militar a acionar reforço de outras viaturas e o helicóptero Águia para buscas na região. Os três acabam localizados e são levados à delegacia de Limeira. A Polícia Civil registra o caso como homicídio com dolo eventual, figura penal aplicada quando o suspeito assume o risco de provocar a morte.

Relatos colhidos no local apontam que Maria Eduarda cai de uma altura aproximada de 40 metros e bate no solo de terra batida sob a estrutura da ponte. Moradores e outros praticantes tentam manobras de reanimação cardiopulmonar por vários minutos até a chegada do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Os socorristas constatam o óbito ainda na área do salto, por politraumatismo.

Na manhã deste domingo (14), o corpo da jovem é velado no Cemitério Municipal de Jandira, na Grande São Paulo, onde mora a família. Amigos se despedem em silêncio, enquanto parentes evitam falar com a imprensa. Em grupos de mensagens, circulam desabafos e cobranças por responsabilização. “Ela confiou que estaria segura. Isso não é acidente, é crime”, escreve uma prima em uma das postagens.

Histórico de acidentes e brecha na fiscalização

O caso expõe a fragilidade da segurança em esportes radicais comercializados em diferentes regiões do país. Rope jump é uma modalidade em que o praticante salta preso a uma corda estática, ancorada em pontos fixos, o que cria um grande balanço após queda livre controlada. O conceito se populariza no Brasil nos últimos dez anos, impulsionado por vídeos nas redes.

Autoridades ouvidas pela reportagem afirmam que a prática, em geral, exige múltiplos pontos de ancoragem, dupla checagem dos mosquetões e redundância de cordas, justamente para impedir uma queda livre em caso de falha. No salto de Limeira, segundo a Polícia Civil, o procedimento básico não é seguido. “Os elementos indicam que os investigados assumiram o risco de produzir o resultado morte”, registra o boletim.

Investigadores também destacam que a ponte usada pela Entre Cordas tem histórico de ocorrências graves. A região acumula registros de quedas e outros acidentes, alguns com mortes, ligados a saltos radicais e tentativas de suicídio. Mesmo assim, a atividade segue sendo oferecida por empresas que se anunciam nas redes com pacotes de fim de semana.

Nas redes sociais, a página da Entre Cordas divulga o slogan “salto pro extraordinário” e vídeos de clientes se lançando da mesma ponte. Pacotes anunciados em publicações recentes variam de R$ 200 a R$ 400 por pessoa, conforme o número de saltos e filmagem incluída. Até a noite deste domingo, a empresa não se pronuncia publicamente sobre o caso. Procurada, não responde aos contatos da reportagem. O espaço segue aberto.

Especialistas em direito penal veem na prisão em flagrante por dolo eventual uma sinalização de mudança de postura das autoridades. “Quando há supressão de equipamentos essenciais, treinamento falho e local sabidamente perigoso, não se fala mais em mera imprudência. Fala-se em assumir o risco de matar”, afirma um criminalista ouvido sob reserva.

Profissionais do setor esportivo admitem que a regulamentação de atividades como rope jump ainda é fragmentada. Em muitos estados, não há norma específica sobre equipamentos mínimos, formação de instrutores ou limite de altura. A fiscalização costuma ficar diluída entre prefeituras, bombeiros e órgãos ambientais, sem coordenação clara. “Isso abre espaço para aventureiros”, resume um técnico de segurança em esportes de montanha.

Pressão por responsabilização e mudança de regras

A morte de Maria Eduarda reacende o debate sobre responsabilidade civil e criminal em esportes de risco. Familiares estudam processar a Entre Cordas por danos morais e materiais, além de acompanhar o andamento do inquérito criminal. A Defensoria Pública de São Paulo avalia oferecer apoio jurídico à família.

No campo penal, o inquérito deve detalhar qual função cada um dos três presos exerce na operação do rope jump, quem responde pela empresa e como se dá o treinamento da equipe. Laudos periciais vão indicar se havia cordas e ancoragens montadas no momento do acidente e se algum procedimento padrão é deliberadamente ignorado. O Ministério Público deve decidir nas próximas semanas se apresenta denúncia por homicídio com dolo eventual.

Entidades ligadas ao montanhismo e ao paraquedismo discutem a elaboração de um protocolo nacional de segurança para atividades de queda controlada. A proposta inclui exigência de dupla checagem obrigatória por dois instrutores independentes, certificação periódica de equipamentos e comunicação prévia às autoridades locais antes de cada evento. A ideia é pressionar governos estaduais a transformar as recomendações em norma.

Empresas sérias do setor temem reação em cadeia de cancelamentos e proibições amplas. Proprietários relatam aumento imediato de desistências desde a divulgação do vídeo da queda em Limeira. “Quem trabalha certo vai pagar a conta pela irresponsabilidade de quem negligencia o básico”, resume o dono de uma operadora de esportes de aventura no interior de Minas.

No poder público, a repercussão leva prefeituras e governos estaduais a revisarem autorizações para atividades radicais em pontes, viadutos e cânions. Técnicos de secretarias de Esporte e Turismo avaliam exigências adicionais, como seguro obrigatório, cadastro estadual de empresas e publicação de relatórios anuais de incidentes.

O caso de Limeira se junta a outras tragédias recentes e consolida a percepção de que a expansão dos esportes de aventura corre à frente da capacidade de regulação. Enquanto o inquérito avança e as famílias cobram respostas, a pergunta que permanece é se a morte de Maria Eduarda será tratada como ponto de virada ou apenas mais um número em uma estatística que segue sem rosto e sem controle.

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