Colisão de helicópteros no Rio mata 6 e incendeia carros elétricos
Dois helicópteros colidem no ar e caem na manhã deste domingo (14) no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio, matando seis pessoas. Entre as vítimas estão o cantor americano Nickel Oliver Tree e o YouTuber argentino Gaspar Prim.
Choque no ar, fogo no chão e correria no Recreio
O silêncio de um domingo ainda em começo se rompe pouco depois das 9h, quando moradores próximos à Avenida das Américas ouvem um estrondo duplo no céu. Relatos colhidos pelo Corpo de Bombeiros indicam que dois helicópteros se chocam em pleno voo, perdem o controle e despencam em direção a um estacionamento de uma concessionária de veículos elétricos no Recreio dos Bandeirantes.
As aeronaves atingem o solo em pontos diferentes, separados por cerca de 100 metros. No impacto, explodem em chamas e espalham destroços pela área. O fogo alcança pelo menos 15 carros elétricos, cujas baterias de íon de lítio alimentam um incêndio de alta temperatura e difícil controle. A fumaça espessa domina o trecho lateral da avenida, que logo é bloqueado para o trabalho de resgate.
O Corpo de Bombeiros aciona um efetivo de 50 militares para a ocorrência. Quando as equipes chegam, encontram os dois helicópteros completamente em chamas. “A gente observou que o incêndio poderia se propagar para as edificações ao lado justamente pelo potencial que um veículo elétrico, pelas suas baterias de íons de lítio, tem”, afirma o tenente-coronel Fábio Contreiras, porta-voz da corporação. O trabalho passa a ser, antes de tudo, conter o fogo e evitar novas vítimas.
Os seis ocupantes das aeronaves morrem no local. A Polícia Civil do Rio informa que os corpos estão carbonizados e que, por isso, ainda não há identificação oficial. A BBC News Brasil recebe, porém, a lista de passageiros com os nomes de Nickel Oliver Tree, 32, cantor e produtor americano, e de Gaspar Prim, 23, criador de conteúdo argentino conhecido como Gaspi. Também constam como passageiros Lucas Brito Chaves, brasileiro, Lucas Vignale, argentino e diretor de audiovisual, e o piloto Alexandre Souza. No outro helicóptero está apenas o piloto Charles Marsillac.
Os investigadores recolhem peças das aeronaves espalhadas ao longo do trajeto provável da colisão, próximo ao ponto onde testemunhas dizem ver o choque no ar. Equipes da perícia da Polícia Civil são acionadas para reconstituir o voo, analisar registros de manutenção e checar eventuais falhas mecânicas ou humanas. A Aeronáutica deve ser comunicada para abrir inquérito específico sobre a ocorrência.
Fãs em choque, risco ampliado e debate sobre segurança
A notícia da morte de Oliver Tree e Gaspar Prim se espalha em minutos pelas redes sociais e transforma um acidente aéreo grave em episódio de repercussão global. O cantor americano, que tem 2,3 milhões de seguidores no Instagram, publica há poucos dias um vídeo intitulado “Gringo 24 horas no Brasil”. No registro bem-humorado, ele veste camisa da seleção, corta o cabelo, joga bola, participa de churrasco e cruza a cidade em uma moto, sempre cercado por fãs.
Entre os brasileiros ao lado de Oliver Tree no vídeo está o influenciador Thiago Alcântara, conhecido como Iae Break. Neste domingo, ele publica uma foto com o artista e escreve: “Não acredito que vocês se foram”. O produtor musical Victor WAO, que posa com o cantor em outro registro recente, revela nos stories que quase embarca no helicóptero. Diz que desiste “no último segundo” e pede ajuda para localizar os empresários e a família do músico. “RIP my brother you were a genius!”, escreve, em inglês.
Gaspar Prim, que acumula quase 3 milhões de inscritos no YouTube com vídeos de humor e entrevistas nas ruas, também está no Brasil desde o início de junho. Seu público se organiza em vigílias digitais, com homenagens em espanhol e português. Amigos lembram do argentino Lucas Vignale, diretor de audiovisual, que na última publicação em seu perfil aparece com o Cristo Redentor ao fundo e a legenda simples: “#dios”.
A morte de jovens figuras públicas amplia o alcance da tragédia, mas o impacto local também é imediato. Comerciantes vizinhos relatam pânico e correria na hora do acidente. Famílias que vivem em prédios colados à concessionária deixam os apartamentos às pressas quando percebem que o fogo ganha altura e se aproxima dos muros. O temor se concentra na possibilidade de sucessivas explosões das baterias de íon de lítio, que suportam altas temperaturas e podem reativar focos de incêndio mesmo após o resfriamento inicial.
O tenente-coronel Contreiras explica que o combate segue protocolo específico. Os bombeiros cercam a área, isolam os veículos mais ameaçados e usam grande volume de água para reduzir a temperatura das baterias. “Então foi um trabalho de cercar o incêndio, resfriar, justamente para que a gente não tivesse outras vítimas aqui”, diz. A ação, que se estende por horas, evita que o fogo atinja prédios residenciais e comerciais vizinhos.
A colisão reacende discussões recorrentes sobre o uso intensivo de helicópteros em áreas urbanas densas como o Rio de Janeiro. A cidade registra, ao longo das últimas décadas, uma das maiores frotas de aeronaves privadas do país, usadas para deslocamento rápido entre bairros e cidades próximas. Em 2019, um helicóptero cai na zona oeste e deixa dois mortos após tocar em fios de alta tensão, episódio que também gera cobrança por regras mais rígidas de operação.
Investigações em curso e pressão por respostas
A Polícia Civil abre inquérito para apurar as causas da colisão deste domingo. Peritos avaliam se há indícios de falha de equipamento, erro de pilotagem, problema de comunicação entre as aeronaves ou eventuais irregularidades na documentação. A Agência Nacional de Aviação Civil deve ser chamada a fornecer histórico de manutenção, dados de voo e informações sobre as empresas responsáveis pelos helicópteros.
O processo de identificação das vítimas, dificultado pelo estado dos corpos, pode levar dias. Exames de DNA e comparação de registros odontológicos entram na rotina dos legistas. Só depois dessa etapa as autoridades devem confirmar oficialmente os nomes e liberar os corpos para velório e traslado internacional, no caso de Oliver Tree e Gaspar Prim.
No meio artístico, equipes e empresários monitoram as informações oficiais enquanto fãs organizam homenagens. Oliver Tree tem shows marcados para o início de julho em Lisboa, Madri, Barcelona e Roma, na etapa europeia de sua turnê. Produtores locais aguardam posicionamento formal da gravadora e da equipe do artista. Na Argentina, veículos de imprensa destacam a trajetória meteórica de Gaspar Prim e cobram detalhes sobre as circunstâncias do acidente.
Especialistas em segurança de voo ouvidos ao longo do dia defendem revisão de procedimentos para operações de helicóptero em corredores aéreos movimentados, como o eixo da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes. A pressão recai sobre órgãos reguladores e empresas privadas, que podem enfrentar novas exigências de treinamento, controle de tráfego e checagem prévia de rotas compartilhadas.
As próximas semanas devem ser marcadas por laudos preliminares, notas de pesar e tributos virtuais, mas também por uma pergunta incômoda. Em uma cidade que se acostuma a ver helicópteros cruzando o céu como se fossem carros, quantas colisões ainda serão necessárias até que o risco desse tipo de transporte seja revisto com a urgência que o incêndio deste domingo expõe de forma brutal?
