Jardim rebate críticas no Flamengo e pede reforços após vitória na Libertadores
Leonardo Jardim usa a coletiva desta terça-feira (27), após a vitória por 3 a 0 sobre o Cusco, no Rio, para responder às críticas pela goleada sofrida diante do Palmeiras e detalhar o plano do Flamengo para reforçar o elenco e encarar uma maratona de desfalques.
Após 3 a 0 para o Palmeiras, treinador fala em responsabilidade e foco
O técnico chega à sala de imprensa ainda com o placar elástico sobre o clube peruano na memória recente da torcida, mas é o 3 a 0 do último sábado, no Allianz Parque, que guia as primeiras perguntas. Derrotado pelo Palmeiras e alvo de críticas por não mexer na equipe depois da expulsão de Carrascal, aos 21 minutos do primeiro tempo, Jardim não tenta suavizar o resultado.
“As críticas devem acontecer, porque perder de 3 a 0 é um péssimo resultado, e o treinador é totalmente responsável”, afirma, em tom direto. A frase resume a estratégia do português para atravessar o momento: admitir a falha, blindar o vestiário e seguir o planejamento. Ele insiste que não se deixa consumir pelo debate externo. “Eu não tenho tempo para ficar vendo críticas nem elogios. Acaba o jogo, vou para casa e amanhã de manhã já tenho que montar o planejamento, ver quem está disponível, analisar o próximo adversário.”
O discurso tenta reposicionar o Flamengo depois de quatro dias intensos. A goleada sofrida para um rival direto no Brasileirão reacende dúvidas sobre o comando, mesmo em um cenário de campanha consistente na Libertadores. A vitória por 3 a 0 sobre o Cusco mantém o time em rota de classificação, mas não esvazia a pressão. Jardim se apoia na rotina de trabalho e no controle do ambiente interno. “Não deixo a parte exterior entrar na minha casa”, diz.
Busca por reforços e gestão do elenco em meio a desfalques
O treinador aproveita a noite de Libertadores para deixar um recado sobre o mercado. Sem citar nomes, admite que o clube segue atento a oportunidades, inclusive para reagir ao desgaste de um calendário que empilha viagens, jogos decisivos e convocações para seleções nacionais. “O Flamengo é uma equipe que procura aumentar o leque de seus jogadores em todos os mercados”, explica.
Jardim define o perfil dos reforços que gostaria de ver no elenco. “Características que eu acho importantes para jogar no Flamengo: técnica, velocidade e saúde física. São três elementos importantes, porque sabemos o desgaste do campeonato, sabemos a importância de ter jogadores saudáveis e com intensidade, a importância de ter jogadores técnicos para termos a bola.” A fala surge após um jogo em que o Flamengo, apesar do 3 a 0 no placar final, demora a transformar volume em gols e exibe erros técnicos na construção das jogadas.
O time só deslancha na reta final, com Bruno Henrique e companhia explorando o cansaço do Cusco. Jardim admite a influência direta da queda física do adversário no resultado e explica a opção por escalar o que chama de “time de copas”, base utilizada na Libertadores e na Copa do Brasil. “O futebol é um jogo que se joga contra um adversário. Criamos algumas situações no primeiro tempo e não fomos capazes de finalizar”, analisa. “No segundo tempo, o adversário diminuiu o ritmo pelo cansaço, e nós avançamos alguns jogadores importantes, conseguimos dar outro impacto no jogo.”
O planejamento já considera o próximo capítulo da maratona. No fim de semana, o Flamengo recebe o Coritiba pelo Brasileirão, em um Maracanã que deve cobrar resposta pelo 3 a 0 sofrido diante do Palmeiras. O técnico calcula ter apenas 13 atletas da equipe principal à disposição, por causa de convocações e lesões, e se antecipa com minutos para reservas e promessas. “Não queria que fossem para o jogo de sábado sem minutagem”, justifica, ao comentar as mudanças na etapa final contra o Cusco.
A solução passa pela base. “Vamos aproveitar também a base, já temos cinco ou seis jogadores do sub-20 que vão iniciar os treinos amanhã conosco. Podem entrar no jogo devido às seleções e à lesão do Jorginho”, afirma. A projeção reforça a ideia de um elenco em transição, em que a hierarquia entre titulares, reservas e jovens precisa se adaptar às ausências frequentes.
Fantasma de Jorge Jesus, disputa por confiança e tempo de trabalho
O nome de Jorge Jesus, campeão da Libertadores e do Brasileiro de 2019 pelo Flamengo, volta a circular entre torcedores assim que o Al-Nassr anuncia a saída do português. Livre no mercado e com viagem marcada ao Brasil para férias, o treinador vira personagem paralelo ao momento do clube. A pergunta sobre o “fantasma” é inevitável na coletiva, e Jardim trata de esvaziar a especulação.
“O Jorge é uma pessoa das minhas relações, ainda bem que ele vem, já me informou e o convidei para almoçar”, conta, em tom de normalidade. Na sequência, expõe a leitura que faz da própria carreira. “Eu já não vejo fantasmas no futebol, porque sei o que acontece. Quando temos êxito no clube, somos queridos. Se for ao Al-Hilal, o último campeão da Liga dos Campeões fui eu, em 2021. Os torcedores vão me pedir no Mônaco — nos últimos 40 anos, o único campeão fui eu.”
O relato mira a opinião pública, mas também o vestiário. Ao lembrar os títulos recentes, o técnico tenta reforçar a imagem de profissional acostumado a ambientes de alta pressão. “Sou uma pessoa muito desligada desse tipo de estresse. No futebol, temos um contrato, quando o presidente quiser mudar, muda, não há estresse. O futebol é tão simples, não vale a pena criar fantasmas ou situações que possam acontecer”, resume.
O elenco observa como o treinador administra casos individuais. Jardim cita o atacante Gonzalo Plata como exemplo de comprometimento, ao destacar a sequência de treinos com dor no joelho e a decisão de atuar mesmo às vésperas da apresentação à seleção. “Além de um jogador intenso, está no espírito de equipe e tentou ajudar, mesmo indo para a seleção. Não se preocupou em dar o seu máximo, poderia ter um problema hoje e não ir mais à seleção. Isso é fundamental para mim.”
O debate sobre tempo de treino expõe outra tensão do calendário de 2026. A pausa parcial para datas Fifa parece, no papel, oportunidade para ajustar o time. Jardim enxerga uma armadilha. “É uma falsa questão. Se eu fosse o treinador do Coritiba, esse tempo ia ser vantajoso porque eu ia ter os jogadores. Talvez vamos ter apenas metade do elenco. Os jogadores de seleção, que são importantes para nós, não vão estar”, explica. A previsão joga mais peso sobre os treinos dos próximos dias, preenchidos por reservas e garotos promovidos da base.
O Flamengo deixa o Maracanã com um 3 a 0 que vale moral na Libertadores e algum respiro para o treinador, mas o roteiro da temporada segue apertado. Entre críticas pela goleada sofrida, pressão pelo desempenho no Brasileiro, expectativa por reforços e a sombra constante de comparações com 2019, Jardim tenta se ancorar em números, disciplina e um discurso de serenidade. A reação concreta, porém, volta ao gramado já no fim de semana, em um jogo que pode medir até onde a estabilidade pregada na coletiva resiste à realidade de um elenco desfalcado e de uma torcida pouco disposta a esperar.
