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Israel amplia ofensiva no Líbano e tem dia mais letal desde trégua

Israel intensifica ataques aéreos e operações terrestres contra o Hezbollah no sul e no leste do Líbano nesta terça-feira (26). O Ministério da Saúde libanês registra 31 mortos e 40 feridos em poucas horas, no dia mais violento desde o início da atual ofensiva.

Trégua fragilizada e avanço além da Linha Amarela

Os bombardeios atingem cidades e áreas rurais em diferentes pontos do território libanês, enquanto tropas israelenses avançam além da chamada Linha Amarela, no sul do país. A movimentação marca uma expansão da operação terrestre para fora da zona de segurança que Israel declara manter a poucos quilômetros da fronteira.

Fontes de segurança libanesas ouvidas pela agência Reuters relatam ataques no sul e no leste do Líbano ao longo do dia. A Agência Nacional de Notícias do país informa que 14 pessoas morrem em Burj al-Shamali, no sul, entre elas duas crianças e três mulheres. Casas são destruídas, e moradores, impedidos pelo Exército israelense de retornar a dezenas de vilarejos.

O Ministério da Saúde do Líbano eleva o balanço da ofensiva israelense para 3.213 mortos e 9.737 feridos desde 2 de março, quando o Hezbollah lança projéteis contra Israel após o início da guerra com o Irã. A Organização Mundial da Saúde fala em pelo menos 608 mortos em ataques israelenses apenas desde o cessar-fogo de 16 de abril.

A trégua anunciada em abril já chega fragilizada à terça-feira. Os novos ataques israelenses ocorrem no mesmo dia em que o Irã acusa os Estados Unidos de violarem uma trégua separada ao atacar o sul do país. O entrelaçamento dos conflitos pressiona tanto as negociações entre Washington e Teerã quanto qualquer tentativa de estabilizar a fronteira entre Israel e o Líbano.

Netanyahu promete ampliar pressão e Hezbollah reage

Em comunicado divulgado na noite de terça-feira, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, diz que as forças armadas “estão operando com grande contingente em campo, capturando e controlando áreas” no sul do Líbano. Segundo ele, o objetivo é “reforçar a faixa de segurança para proteger as comunidades do norte” de Israel, referência à zona tampão autodeclarada do outro lado da fronteira.

Um oficial militar israelense afirma que o Exército está “operando de forma direcionada além da Linha de Defesa Avançada, a fim de eliminar ameaças diretas aos cidadãos do Estado de Israel” e aos soldados, “em conformidade com as diretrizes da cúpula política”. As forças israelenses não detalham até onde avançam além da Linha Amarela, distinta da Linha Azul demarcada pela ONU em 2000, após a retirada israelense do sul do Líbano.

Do outro lado, o Hezbollah anuncia que ataca tanques e forças israelenses que avançam na direção de Zawtar al-Sharqiya, no sul libanês. O grupo diz usar drones explosivos, foguetes e artilharia contra as tropas em campo. O movimento se soma a uma campanha contínua de lançamentos de projéteis contra o norte de Israel desde março, em apoio declarado ao Irã.

Netanyahu já havia sinalizado, na segunda-feira, que iria intensificar os ataques ao Hezbollah. Um oficial americano afirma que o grupo, apoiado por Teerã, ignora alertas de Washington para reduzir suas ações, sob risco de prejudicar as negociações para encerrar a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. A avaliação em capitais ocidentais é que o sul do Líbano volta a se tornar um dos principais pontos de fricção regional.

O Exército israelense informa que 10 soldados são mortos desde a entrada em vigor do cessar-fogo de 16 de abril, seis deles atingidos por drones explosivos do Hezbollah. O grupo não divulga números sobre suas próprias baixas, mas admite perdas sucessivas em comunicados anteriores.

Alvos civis, patrimônio histórico e risco de escalada regional

Os ataques desta terça-feira atingem também áreas próximas a locais simbólicos e estratégicos do Líbano. Explosões são registradas nas imediações do Castelo de Beaufort, fortaleza com quase 900 anos descrita pela Unesco como um dos castelos medievais mais bem preservados da região. Em outro ponto do país, ao menos três ataques atingem as proximidades da represa de Qaraoun, maior reservatório de água do Líbano, segundo a agência estatal NNA.

A destruição de casas e a ordem para que moradores não retornem a dezenas de vilarejos aprofundam a crise humanitária em uma região já fragilizada por anos de instabilidade econômica e política. O avanço militar para além da Linha Amarela pressiona comunidades rurais e desloca famílias que, desde abril, esperavam uma redução gradual dos combates após o anúncio do cessar-fogo.

Analistas ouvidos por diplomatas na ONU avaliam que a expansão da operação terrestre reabre memórias da ocupação israelense do sul do Líbano, encerrada em 2000. A nova zona de segurança proposta, que pode se estender de 5 a 10 quilômetros dentro do território libanês, é vista por autoridades locais como uma redefinição de fato da fronteira, sem acordo formal.

O impacto vai além da linha de contato. A acusação iraniana de que os Estados Unidos violam uma trégua ao atacar o sul do país cria um elo direto entre a guerra com o Irã e o confronto com o Hezbollah. O risco, apontam especialistas, é de que uma escalada no sul do Líbano arraste outros atores regionais e complique ainda mais qualquer tentativa de negociação ampla.

Pressão internacional e incerteza sobre saída diplomática

Governos na Europa e organismos multilaterais discutem novas iniciativas para conter a escalada, em meio a apelos públicos por cessar-fogo e por proteção a civis. A Organização Mundial da Saúde e agências humanitárias alertam para o aumento rápido do número de mortos e feridos desde meados de abril, com hospitais libaneses operando sob forte pressão.

As próximas semanas tendem a testar a disposição de Israel, Hezbollah, Irã e Estados Unidos de manter algum tipo de canal diplomático aberto. Uma ofensiva prolongada no sul do Líbano, com avanço terrestre além da Linha Amarela e ataques próximos a infraestrutura crítica como a represa de Qaraoun, pode estreitar ainda mais o espaço para concessões. A principal dúvida em capitais estrangeiras é se os atores em campo ainda enxergam um limite claro para essa escalada.

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