Irã mantém negociações com EUA e cobra garantias por acordo de paz
Irã e Estados Unidos mantêm, neste domingo (31), negociações delicadas para um acordo abrangente que envolva cessar-fogo, reparações e limites ao programa nuclear iraniano. As conversas avançam em meio a pressões internas nos dois países e a novas exigências apresentadas pelo presidente americano, Donald Trump.
Diplomacia em marcha sob desconfiança mútua
O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, evita cravar um desfecho e procura conter a expectativa criada nas últimas semanas. Em entrevista à mídia estatal, ele afirma que ainda não é possível medir o rumo das tratativas e pede cautela diante de rumores sobre um acordo iminente.
“Não devemos dar importância a especulações e não podemos julgar as negociações até que cheguemos a um resultado claro”, declara Araqchi, numa tentativa de disciplinar o discurso interno enquanto as equipes técnicas seguem trabalhando em propostas e contrapropostas.
As declarações ocorrem dois dias depois de Trump devolver a Teerã, com alterações, um rascunho de entendimento que vinha sendo costurado desde meados de maio. Segundo a CNN, o presidente americano toma a decisão após uma reunião com conselheiros na sexta-feira (29), movimento que estende as conversas por pelo menos mais uma semana.
O conteúdo exato das mudanças não é divulgado, mas fontes do governo dos EUA relatam que Trump exige linguagem mais rígida sobre os compromissos nucleares iranianos e a promessa de reabertura do Estreito de Ormuz, corredor por onde circula cerca de 20% do petróleo transportado por mar no mundo. O presidente também manifesta preocupação com o alcance do possível alívio financeiro previsto para o Irã.
As revisões aparecem poucos dias após o próprio Trump afirmar que o entendimento estava “praticamente finalizado” e sugerir, em declarações públicas e postagens em redes sociais, que o fim do conflito estaria próximo. Desde então, integrantes do governo americano falam em avanços para consolidar o cessar-fogo em vigor e transformar o atual arranjo militar em uma solução mais estável.
O encontro de sexta-feira, apresentado pela Casa Branca como momento de “decisão final”, termina sem anúncio concreto. Entre os pontos de atrito, Trump diz que os Estados Unidos confiscariam e destruiriam o estoque de urânio altamente enriquecido do Irã. Teerã reage e insiste que não discute detalhes do programa nuclear nas conversas em curso, que teriam foco imediato no cessar-fogo, nas reparações de guerra e na liberação de ativos congelados.
Reparações, sanções e o controle de Ormuz em jogo
As negociações envolvem mais do que a redução de arsenais e inspeções internacionais. O Irã coloca na mesa a exigência de reparações pelos danos causados pela guerra recente e pelo efeito de anos de sanções, que comprimem a economia do país, derrubam receitas de petróleo e afetam importações de bens básicos.
O tema financeiro torna-se um dos principais nós do processo. Trump afirma publicamente que não há discussão sobre transferência de recursos como parte do acordo. Para Teerã, qualquer pacto sem compensação econômica e sem descongelamento de ativos mantidos no exterior é politicamente inviável. Em meio à pressão de setores conservadores, o governo tenta mostrar firmeza ao eleitorado interno e ao mesmo tempo preservar a porta aberta para um entendimento.
No campo militar e estratégico, os Estados Unidos pressionam por garantias de reabertura plena e segura do Estreito de Ormuz, fechado parcial ou totalmente em diferentes momentos da escalada. A via marítima, com cerca de 40 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, é vital para exportadores do Golfo Pérsico e consumidores de petróleo na Europa e na Ásia. Qualquer incerteza sobre o tráfego eleva prêmios de seguro, encarece o frete e alimenta volatilidade nos preços internacionais.
Washington também tenta amarrar compromissos adicionais sobre o programa nuclear iraniano, em paralelo às normas já previstas pelo Tratado de Não Proliferação. A menção de Trump a um possível confisco de urânio altamente enriquecido acende alertas em Teerã, que lê a proposta como tentativa de impor termos mais duros que os de acordos passados, como o firmado em 2015 e abandonado pelos EUA três anos depois.
No Irã, a cautela oficial ganha voz firme no Parlamento. O presidente da Casa e principal negociador, Mohammad Baqer Qalibaf, afirma que nenhum entendimento será aprovado sem garantias concretas aos interesses iranianos. “Os soldados do campo de batalha diplomático não confiam nas palavras e promessas do inimigo”, diz. “O que importa para nós são as conquistas tangíveis que devemos obter, em troca das quais cumpriremos nossos compromissos.”
Risco de impasse e disputa por narrativa
As diferenças entre Washington e Teerã mantêm em aberto a possibilidade de um impasse prolongado. Autoridades americanas ouvidas pela CNN falam em um entendimento provisório para transformar o cessar-fogo atual em solução mais duradoura, mas as novas exigências apresentadas por Trump sobre Ormuz, o programa nuclear e os ativos congelados geram reação imediata no lado iraniano.
O resultado é um clima de ambiguidade calculada. Os dois governos sinalizam disposição para continuar negociando, mas preservam margem para culpar o outro em caso de fracasso. Para o Irã, a insistência dos EUA em ampliar o escopo do texto fortalece o discurso de que Washington busca humilhar o país e repetir erros de acordos anteriores. Para Trump, recuos em temas sensíveis podem ser explorados por adversários internos em um ano em que cada gesto de política externa tem peso eleitoral.
Um acordo bem-sucedido teria impacto imediato na região. A consolidação de um cessar-fogo duradouro reduziria o risco de incidentes militares no Golfo, estabilizaria o fluxo de navios por Ormuz e ajudaria a segurar choques de oferta no mercado de petróleo, que reage a qualquer sinal de bloqueio com alta rápida de preços. Também poderia abrir caminho para o alívio gradual de sanções, permitindo a retomada de exportações iranianas e novas receitas para reconstrução de áreas atingidas pela guerra.
O fracasso das tratativas, por outro lado, reabre o cenário de escalada. Um colapso das conversas pode estimular ações de grupos alinhados ao Irã na região, provocar respostas americanas e de aliados e reacender debates sobre programas nucleares militares. Para países dependentes do petróleo do Golfo, cada míssil disparado perto do estreito se traduz em incerteza no abastecimento e pressão adicional sobre a inflação.
As próximas semanas devem mostrar se o esforço diplomático é suficiente para superar décadas de desconfiança. A redação final do acordo segue em disputa linha a linha, enquanto diplomatas tentam transformar um cessar-fogo frágil em pacto mais amplo, com reparações, garantias de acesso a Ormuz e salvaguardas sobre o programa nuclear.
Entre as capitais, a percepção é de que nenhuma das partes quer ser responsabilizada por um rompimento agora. O cálculo, porém, é arriscado: quanto mais tempo durar a indefinição, maior o espaço para incidentes militares, tensões internas e mudanças de humor político que podem, de uma hora para outra, fechar a janela para um acordo que hoje ainda parece possível.
