Governo Lula corre para barrar tarifa de até 25% dos EUA
O governo Lula tenta, nesta semana, abrir um canal direto de negociação com Washington para evitar novas tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros. A investida ocorre em meio a acusações dos Estados Unidos de práticas comerciais desleais e falhas no combate ao trabalho forçado.
Videoconferência testa força do canal Lula-Trump
A movimentação se concentra em uma videoconferência aguardada para os próximos dias, pelo grupo de trabalho criado após o encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em 7 de maio, na Casa Branca. De um lado da tela estarão os ministros Marcio Elias Rosa, da Indústria e Comércio, e Mauro Vieira, das Relações Exteriores. Do outro, Jamieson Greer, representante de Comércio dos Estados Unidos e responsável por conduzir a ofensiva tarifária de Trump.
O grupo binacional nasce há menos de um mês para tratar de disputas comerciais e, agora, é acionado antes mesmo de as tarifas saírem do papel. Dois relatórios recentes do governo norte-americano, produzidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio, recomendam sobretaxas que podem redesenhar o fluxo de exportações brasileiras para o mercado americano. Brasília enxerga a reunião como uma espécie de prova de fogo da capacidade de diálogo entre os dois presidentes em um momento de tensão crescente.
A pressão aumenta desde a semana passada, quando Washington divulga o primeiro parecer, sugerindo uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros considerados beneficiados por práticas “irrazoáveis”. O texto cita o uso do Pix, disputas de propriedade intelectual, decisões judiciais e políticas ambientais, como o combate ao desmatamento, como fatores que, na visão americana, restringem ou oneram o comércio dos Estados Unidos com o Brasil.
No dia seguinte, um segundo relatório amplia o alcance da ofensiva e propõe uma tarifa de até 12,5% contra 60 países, sob o argumento de falhas no combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas globais. O Brasil entra nesse pacote pela interpretação de que não impediria a entrada de produtos fabricados com violações trabalhistas, além de supostas irregularidades em setores específicos da economia.
Mauro Vieira tenta medir o espaço para acordo ainda em Paris, à margem da reunião ministerial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE. “Conversamos, ele disse que estavam tendo ótimas conversas com o Brasil. Eu disse que é do nosso interesse manter conversas sobretudo depois dos anúncios, dos laudos, dos relatórios finais das duas investigações sobre a seção 301. Ele disse que estava pronto para continuar a conversa e que sempre o diálogo tinha sido muito bom”, relata o chanceler.
Exportadores contam o risco, Trump recompõe muro tarifário
No Planalto, a leitura é direta: se as tarifas avançarem, setores estratégicos da pauta exportadora podem perder competitividade de forma imediata. Uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros, somada a uma alíquota de até 12,5% associada ao trabalho forçado, tende a encarecer o acesso ao segundo maior parceiro comercial do país. Exportadores de manufaturados, bens de maior valor agregado e segmentos ligados a cadeias com maior escrutínio ambiental e trabalhista concentram as maiores preocupações.
Economistas especializados em comércio exterior enxergam na iniciativa de Trump uma tentativa de reconstruir o arsenal tarifário perdido em 2025. Naquele ano, a Suprema Corte dos EUA derruba parte das tarifas impostas pelo republicano, abrindo uma brecha jurídica e política. A combinação dos relatórios sobre práticas desleais e trabalho forçado aparece agora como uma nova arquitetura de barreiras, descrita em Brasília como a recomposição do “muro tarifário” do governo Trump.
No Itamaraty e no Ministério da Indústria e Comércio, técnicos veem diferenças importantes entre as duas frentes. A tarifa de 25% incide sobre produtos brasileiros de forma específica e, por isso, teria mais espaço para negociação caso o governo convença Washington de que mudanças regulatórias e transparência reduzem os riscos apontados. Já a cobrança de até 12,5% sobre o trabalho forçado atinge um bloco de 60 países, entre eles aliados políticos dos Estados Unidos, como a Argentina.
Essa abrangência torna qualquer exceção um movimento politicamente sensível na capital americana. Um acordo isolado para livrar apenas o Brasil poderia ser lido como privilégio em meio a uma ofensiva apresentada como cruzada global em defesa de direitos trabalhistas. Brasília, porém, pretende usar essa mesma lógica como argumento de defesa: se o país já estiver submetido a uma tarifa de 12,5% sob a justificativa trabalhista, não faria sentido, na avaliação de integrantes do governo, impor uma nova camada de 25% sobre os mesmos produtos.
Os impactos potenciais se espalham pela cadeia produtiva. Empresas que exportam com margens mais apertadas calculam que um aumento de preço de dois dígitos tende a fechar portas em um mercado altamente competitivo. Uma tarifa de 25% pode, na prática, inviabilizar contratos em setores que disputam espaço com fornecedores asiáticos e europeus. Em última instância, a conta chega ao emprego industrial e ao investimento, num momento em que o governo Lula tenta sustentar crescimento em torno de 2% a 3% ao ano.
Negociação em tempo real e incerteza sobre o desfecho
A reunião virtual com Jamieson Greer se torna, assim, a principal aposta de curto prazo para conter a escalada. A estratégia brasileira combina argumentos técnicos, diplomacia e pressão política. De um lado, o governo tenta demonstrar avanços em fiscalização trabalhista, combate ao desmatamento e segurança jurídica. De outro, busca mostrar que um choque tarifário agora pode atingir cadeias integradas que também interessam a empresas norte-americanas.
Interlocutores em Brasília avaliam que o melhor cenário seria ganhar tempo. Adiar a decisão final sobre a tarifa de 25% abriria espaço para novos relatórios, visitas técnicas e ajustes regulatórios negociados, reduzindo o ímpeto punitivo do governo Trump. O pior cenário, admitem, seria a confirmação simultânea das duas tarifas, somando pressões comerciais em um intervalo de poucos meses.
A tensão bilateral se desenrola enquanto o Brasil tenta reforçar sua posição em fóruns multilaterais, como a própria OCDE e a Organização Mundial do Comércio. A ofensiva americana sobre o trabalho forçado tende a reverberar nessas mesas, pressionando outros países emergentes a rever regras internas e sistemas de fiscalização. O caso brasileiro, pela dimensão da economia e pelo perfil das exportações, vira referência para o que pode ocorrer em negociações futuras.
O desfecho da videoconferência desta semana ajuda a definir o tom da relação Brasil-Estados Unidos nos próximos meses. Um acordo parcial que contenha a tarifa de 25% e limite o alcance das medidas ligadas ao trabalho forçado sinalizaria um canal de diálogo ainda funcional entre Lula e Trump. Uma ruptura, com a manutenção integral das propostas, empurraria o governo brasileiro para uma agenda de contenção de danos, revisão de mercados e possível reação nos organismos internacionais.
Brasília entra na conversa ciente de que a disputa vai além das cifras e porcentuais. A discussão sobre Pix, meio ambiente e direitos trabalhistas expõe modelos de desenvolvimento em choque e coloca em teste a capacidade do país de defender seus interesses sem romper pontes com um parceiro central. A resposta virá em decisões técnicas, mas a pergunta política permanece: até onde cada lado está disposto a ir antes que os custos de uma guerra tarifária superem os ganhos de curto prazo?
