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Gilmar diz que crise do Banco Master nasce na Faria Lima, não no STF

O ministro Gilmar Mendes afirma, em entrevista concedida em 2026, que a crise do Banco Master não nasce no Supremo Tribunal Federal, mas no sistema financeiro. Ele responsabiliza falhas de fiscalização da CVM, do Banco Central e de bancos que venderam títulos ligados à instituição. A fala busca deslocar o foco de pressão política sobre o STF para a engrenagem regulatória da Praça dos Três Poderes à Faria Lima, em São Paulo.

Da Praça dos Três Poderes à Faria Lima

Gilmar Mendes, decano do STF, reage à tentativa de colar a crise do Banco Master à imagem do tribunal. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele afirma que a origem do problema está fora da Praça dos Três Poderes. “A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”, diz, ao apontar o coração do mercado financeiro como palco das decisões que levaram ao rombo.

A fala vem após a revelação de ligações dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central na derrocada do banco. O movimento político tenta transformar essa proximidade em prova de interferência do Supremo no caso. Gilmar tenta desarmar essa narrativa. “Eventuais responsabilidades devem ser apuradas pelas autoridades competentes, mas me parece que você coloca o tribunal num corredor polonês”, afirma.

O ministro sustenta que o centro da crise está em falhas prolongadas de fiscalização. Cita diretamente a Comissão de Valores Mobiliários, que, segundo ele, fica por mais de um ano com três diretorias vagas, entre 2024 e 2025, reduzindo a capacidade de supervisão. Aponta também o Banco Central e os próprios bancos que estruturam e distribuem papéis ligados ao Master a investidores de varejo e institucionais.

Gilmar reforça que a relação de integrantes do Supremo com Vorcaro entra na rotina de apurações. “Certamente está sendo investigada, e as autoridades devem fazê-lo, estão fazendo”, diz. Não nega o desgaste, mas tenta enquadrar o episódio como parte de uma crise maior, que envolve a forma como o país fiscaliza operações complexas de crédito, fundos estruturados e lavagem de dinheiro.

Falhas regulatórias, ética e disputa política

O ministro descreve um cenário de fragilidade institucional no sistema de controle. Lembra que a CVM, responsável por vigiar o mercado de capitais, opera por mais de doze meses com apenas dois diretores em vez de cinco. A lacuna atinge justamente o período em que produtos ligados ao Banco Master circulam com promessas de rentabilidade acima de 110% do CDI, atraindo milhares de investidores pessoas físicas e fundos de investimento em grandes bancos.

“Quem vendeu títulos foram os bancos”, resume, ao insistir que o fluxo de dinheiro passa por instituições que, em tese, conhecem o risco e têm equipes de análise. Para ele, qualquer investigação séria sobre o caso precisa seguir a trilha de distribuição, registro e supervisão desses papéis, desde a sala de reunião na Faria Lima até a mesa do investidor de renda fixa em cidades do interior.

A entrevista também mergulha na crise de imagem do Supremo. O presidente da Corte, Edson Fachin, defende um código de ética para ministros, em meio ao desgaste provocado pela exposição de encontros e viagens com empresários e autoridades. Gilmar considera o momento inadequado. “O código de ética gerou um ambiente de certa desinteligência, porque pareceu lançado num momento de vulnerabilidade de alguns colegas”, afirma. Ele evita atribuir intenção a Fachin, mas classifica a iniciativa como “imprópria”.

O decano defende que qualquer mudança de conduta seja feita por consenso, e recorre à memória recente para justificar a resistência. Lembra o papel público do STF durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, em decisões que contêm ataques à urna eletrônica, barram medidas contra a pandemia e mantêm a integridade do processo eleitoral. Nesse relato, o tribunal assume um protagonismo político que, na visão de parte da sociedade, se confunde com ativismo e, agora, se vê sob escrutínio em meio à crise financeira.

Gilmar ainda comenta a articulação política do governo Lula. Relembra a rejeição, no fim de 2025, do nome de Jorge Messias, então advogado-geral da União, para uma vaga no STF. “Foi uma questão puramente política”, avalia. Ele aponta a minoria do governo no Congresso e fala em “grave falha de articulação política”, em recado direto ao Planalto e à base aliada.

No plano internacional, o ministro volta a defender o Fórum de Lisboa, apelidado de “Gilmarpalooza”, que reúne juristas, empresários e autoridades de vários países. A edição mais recente, segundo ele, soma mais de 470 palestrantes. As críticas miram encontros paralelos, realizados nos mesmos dias, que aproximam autoridades brasileiras de empresários depois investigados. “Não temos nenhum controle sobre isso”, diz. Afirma que alguns aproveitam a presença de ministros para agendas privadas, o que, na sua leitura, “não nos diz respeito”.

Investigações, fake news e o que muda com o caso Master

Ao olhar para o futuro imediato, Gilmar defende a manutenção do inquérito das fake news no Supremo. Ele vê o processo, aberto em 2019, como instrumento necessário diante de um ambiente de radicalização que persiste em 2026. “Mantido o ambiente de radicalismo, e tudo indica que vai ser mantido, dado o acirramento eleitoral, o inquérito das fake news é necessário”, afirma. O caso Master entra, nesse contexto, como novo combustível para campanhas de desinformação contra o tribunal nas redes sociais.

A avaliação do ministro repercute entre investidores, reguladores e políticos. Ao deslocar o foco para a Faria Lima, ele pressiona o Banco Central, a CVM e os grandes bancos a explicarem como operações de alto risco passam pelos filtros internos e externos. A crise já provoca, nos bastidores, discussão sobre reforço de quadros técnicos, exigência de capital mais alto para estruturas complexas e criação de prazos rígidos para preencher vagas em diretorias de órgãos de supervisão, especialmente quando mais de 50% das cadeiras ficam abertas.

No Congresso, o episódio alimenta embates sobre os limites de CPI e comissões de inquérito. Gilmar critica diretamente a CPI do Crime Organizado, instalada com a promessa de mirar o PCC e outras facções, mas que, na prática, desvia o foco para ministros do STF e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A crítica reforça a sensação de disputa entre Legislativo e Judiciário em torno do uso de investigações parlamentares como instrumento de pressão política.

Para a população que vê a crise à distância, a divisão de responsabilidades continua nebulosa. Os investidores afetados cobram respostas rápidas sobre quanto vão recuperar e em quanto tempo. O governo tenta evitar que o caso contamine a confiança no sistema financeiro, vital para manter o crédito às famílias e empresas. A narrativa de que o problema nasce na Faria Lima e não na Praça dos Três Poderes, se consolidada, pode reduzir o desgaste institucional do STF, mas aumenta a cobrança sobre reguladores e bancos.

As próximas semanas tendem a ser decisivas. Processos administrativos na CVM, apurações no Banco Central e eventuais inquéritos no Ministério Público devem apontar responsabilidades e falhas de procedimento. A forma como esses órgãos respondem, com punições, mudanças de regras ou simples notas de esclarecimento, vai mostrar se a crise do Banco Master se encerra como um caso isolado ou inaugura uma rodada de reformas na engrenagem de fiscalização do mercado financeiro brasileiro.

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