Gilmar cobra autocrítica da Globo e expõe caso Master em entrevista
O ministro Gilmar Mendes, decano do STF, usa entrevista ao Jornal da Globo na madrugada desta quinta-feira (23) para cobrar autocrítica da emissora e reagir à associação entre a Corte e o escândalo do Banco Master. Em tom direto, o ministro devolve as perguntas sobre a conduta de ministros e lembra o papel da mídia na Lava Jato e em eventos patrocinados pelo banco hoje no centro das denúncias.
Entrevista vira confronto sobre Lava Jato e Banco Master
A conversa com Renata Lo Prete, gravada para a edição de fim de noite do telejornal, começa como uma avaliação institucional do Supremo e rapidamente se transforma em um ajuste de contas com a imprensa. A jornalista traz à mesa a delação em negociação de Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, e a decisão do ministro Alexandre de Moraes de tirar da gaveta, em 2024, uma ação do PT protocolada em 2021 sobre as regras da delação premiada. A fórmula é conhecida: pergunta sobre coincidência de datas, suspeita de casuísmo, dúvida sobre a integridade da Corte.
Gilmar não recua. Ao ouvir que a retomada do caso pode parecer uma tentativa de blindar o tribunal diante de uma eventual colaboração de Vorcaro, reage com ironia ao clima de julgamento público permanente. “Nós tínhamos 150 ou 180 milhões de técnicos de futebol. Agora nós temos 180 ou 200 milhões de juristas, todos palpitando sobre coisas do Supremo”, diz. Ele evita comentar o mérito do processo, mas ataca a premissa de que o Supremo age para proteger ministros específicos. “Esse tipo de ilação, em princípio, é indevida”, afirma.
O ministro aproveita a brecha para recolocar a Lava Jato no centro da discussão e puxar a Globo para o mesmo banco dos réus. Lembra o conluio entre procuradores de Curitiba e setores da mídia, exposto pela Vaza Jato em 2019, e acusa os grandes veículos de terem alimentado a lógica da delação a qualquer custo. “Vocês acompanharam de perto e participaram da Lava Jato. Vocês sabem o que aconteceu em Curitiba, como se manipulou delação”, dispara. A crítica mira não só a cobertura, mas a ausência de revisão pública: “A imprensa, por exemplo, apoiou a Lava Jato. Não escutei depois autocrítica em relação à Lava Jato.”
O roteiro sofre um novo desvio quando Lo Prete insiste na imagem do Supremo, hoje desgastada nas pesquisas. A popularidade da Corte cai desde 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff, e sofre novo baque com as revelações sobre a relação de ministros com o Banco Master e seus produtos financeiros. Ao perguntar se o tribunal precisa de “autocrítica” diante das descobertas recentes sobre a conduta de magistrados, a âncora busca enquadrar Gilmar como porta-voz de um mea-culpa institucional.
Ele aceita a discussão, mas muda o alvo. “Autocrítica é crítica interna”, responde. Fala em aperfeiçoar o regimento, rever práticas, “fuga para frente” para preservar a longevidade do STF. Em seguida, emenda: “Espero que também a imprensa faça a sua autocrítica.” O movimento é calculado. Ao mesmo tempo em que admite a necessidade de correções dentro da Corte, o ministro recusa o papel de réu solitário no tribunal da opinião pública.
Globo, Vorcaro e o custo político de um ex-parceiro
O ponto mais sensível surge quando o nome do Banco Master entra na conversa. Desde 2023, a instituição e seu controlador, Daniel Vorcaro, enfrentam uma onda de denúncias sobre a venda agressiva de CDBs, o uso de estruturas financeiras opacas e a aproximação com figuras do mundo político e jurídico. No rastro do escândalo, fica exposta também a teia de patrocínios e eventos que aproximou o banco de grandes grupos de mídia, entre eles a própria Globo.
Gilmar explora essa zona de desconforto. Sem citar nomes, lembra que Vorcaro é tratado como estrela em seminários patrocinados por veículos de comunicação, incluindo encontros em Nova York em que o banqueiro aparece como “keynote speaker” diante de jornalistas e executivos brasileiros. Ressalta que apresentadores de TV, como Luciano Huck, estamparam campanhas do Will Bank, braço digital do Master, em ações iniciadas por volta de 2020, quando o banco acelerava sua expansão. “Várias empresas fizeram anúncios e divulgaram anúncios do Master. Daniel Vocaro era keynote speaker de vários seminários de várias instituições de imprensa. Agora, ter contato com o Vocaro virou algo satânico”, cutuca.
A crítica não se limita à imprensa. O ministro aponta falhas de regulação e dedica um recado direto ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários. “Eu acho que há um grave problema que envolveu o Banco Central, envolveu o CVM”, diz. Ele cita o crescimento explosivo de fintechs, fundos e bancos médios nos últimos cinco anos e afirma aguardar explicações para o que chama de “crescimento tecnológico” pouco supervisionado. A mensagem sublinha que o Master não é um problema isolado do Supremo, mas de todo o sistema financeiro e de quem deveria fiscalizá-lo.
Ao reconstituir o caminho que levou o Master ao horário nobre, Gilmar atinge o ponto em que a Globo parece mais vulnerável. Em 2022 e 2023, quando o banco patrocina eventos com ingressos na casa de milhares de dólares e presença de autoridades em Nova York, a emissora exibe seus executivos dividindo palco com Vorcaro e tratando-o como parceiro estratégico. Hoje, a mesma empresa se apresenta como fiscal implacável da relação entre o banqueiro e ministros do STF. “Vamos olhar isso de uma forma crítica e madura. É preciso ter adultos na sala”, provoca o ministro, ao afastar a tese de que o caso seja “um escândalo do Supremo Tribunal Federal”.
O embate ocorre em um momento em que pesquisas de opinião mostram a confiança no STF em queda livre, com índices abaixo de 30% em alguns levantamentos nacionais. A própria Globo também enfrenta desgaste, com queda de audiência em horários tradicionais e pressão crescente das redes sociais, onde vídeos curtos extraem trechos da entrevista e viralizam. As provocações de Gilmar a Romeu Zema, governador de Minas, colam na linguagem dos memes, mas o alvo estrutural é outro: a simbiose entre Justiça, mercado financeiro e cobertura jornalística.
Pressão por códigos de conduta e revisão da cobertura
O impacto imediato da entrevista recai sobre três frentes. No Supremo, reforça a cobrança por um código de conduta claro para ministros, com regras objetivas sobre participação em eventos privados, vínculos financeiros e transparência patrimonial. A discussão ganha força desde 2020, quando casos envolvendo palestras pagas e encontros fechados com empresários entram na mira de órgãos de controle e de parlamentares. A fala de Gilmar, ao admitir necessidade de revisão interna, alimenta a expectativa de mudança, ainda que sem prazo definido.
Na mídia, sobretudo na Globo, a pressão é por explicações públicas. O silêncio sobre valores de patrocínios, contratos com o Banco Master e convites a Vorcaro em seminários de alto perfil se torna mais difícil de sustentar depois que um ministro do STF expõe, em rede nacional, a proximidade anterior entre as partes. A cobrança por uma autocrítica explícita, semelhante à exigida do Supremo, tende a crescer entre jornalistas, concorrentes e audiência. Sem transparência, o discurso de vigilância sobre o Judiciário corre o risco de soar seletivo.
No campo político, a entrevista alimenta projetos de reforma do Judiciário e propostas de limitar decisões monocráticas, ampliar a transparência de processos e redefinir o papel do STF em investigações sensíveis, como as ligadas à Lava Jato. A lembrança de que “todos nós sabemos o que aconteceu em Curitiba” recoloca a operação no centro do debate, quase dez anos depois de seu auge, e reabre a disputa sobre quem se beneficiou do modelo de delação que agora volta ao plenário.
Os próximos movimentos devem ocorrer em ritmo diferente em cada arena. No Supremo, a tendência é de negociação silenciosa de ajustes regimentais e códigos internos, longe dos holofotes, com custo político alto para qualquer recuo. Na mídia, a disputa se trava a céu aberto, no tempo real do noticiário e das redes, com risco de novas revelações sobre relações comerciais passadas. No Congresso, partidos tentam capitalizar o desgaste das instituições, de olho nas eleições municipais de 2026 e na narrativa de combate aos “abusos do sistema”.
A entrevista de madrugada deixa uma certeza: a fronteira entre quem questiona e quem é questionado se torna cada vez mais porosa. Quando um ministro pede “adultos na sala” e devolve à Globo a cobrança de autocrítica que a emissora dirige ao Supremo, a plateia ganha mais elementos para desconfiar de todos os lados. A resposta sobre quem fará primeiro esse exame de consciência continua em aberto — e tende a definir o peso de cada instituição na próxima grande crise política do país.
