Corinthians perde do Platense com falhas de Hugo e vaias na Neo Química
Já classificado e líder do grupo, o Corinthians perde por 2 a 0 para o Platense nesta quarta-feira (27), na Neo Química Arena, pela Libertadores. Com duas falhas diretas de Hugo Souza e atuação segura do time argentino, o jogo termina sob vaias da torcida alvinegra.
Corinthians tropeça em noite de segurança argentina
O placar não altera a liderança do Corinthians no grupo, mas expõe fragilidades em um time que chega às oitavas sob desconfiança. Diante de 39.996 torcedores e renda de R$ 2,9 milhões, o Platense encara o jogo como decisão, segura a pressão ambiente e volta para a Argentina com a classificação confirmada e moral em alta.
O roteiro se desenha desde o início. O Corinthians tem mais posse de bola, mas roda sem profundidade e esbarra em um Platense compactado, que recua linhas, protege a área e espera o erro. O erro vem aos 20 minutos do primeiro tempo, em uma bola parada inofensiva. Hugo sai mal em escanteio, a sobra fica viva na área, e Rodrigo Garro, ao tentar afastar, toca com a mão. O árbitro venezuelano Alexis Herrera aponta o pênalti sem hesitar.
Franco Zapiola, meia de 23 anos, assume a responsabilidade. Bate com calma, desloca Hugo e abre o placar. O 1 a 0 muda o cenário psicológico do jogo. O Platense ganha tranquilidade, segura ainda mais a bola quando precisa respirar e faz o tempo correr. O Corinthians, que já parecia ansioso, passa a acelerar escolhas, forçar cruzamentos e se desorganiza por inteiro.
Fernando Diniz tenta responder à sua maneira. O time adianta a marcação, Gabriel Paulista e Gustavo Henrique ficam expostos no mano a mano, e os contra-ataques argentinos começam a aparecer. A melhor chance corintiana surge aos 43 minutos, quando Memphis Depay tabela com Raniele e finaliza forte. Borgogno voa no canto esquerdo e salva, em lance que resume a diferença de eficiência entre as áreas.
Falhas individuais, vaias e classificação sob questionamento
O intervalo traz mudanças e um recado claro do treinador. Memphis não volta para o segundo tempo, substituído por Kaio César. Raniele sai para a entrada de Zakaria Labyad, e o Corinthians passa a atacar com ainda mais gente. A ideia é pressionar o Platense no campo de defesa e transformar posse em volume real de finalizações. Na prática, o plano desaba em 11 minutos.
Depois de recuo simples de Matheuzinho, Hugo tenta iniciar a construção com os pés. Erra o passe curto na entrada da área, entrega nos pés de Zapiola e fica vendido. O meia argentino domina, percebe o goleiro adiantado e toca por cobertura, com categoria. A bola entra suave, o 2 a 0 silencia o estádio por alguns segundos e, na sequência, acende a irritação nas arquibancadas.
A partir dali, o jogo vira teste de paciência. O Corinthians tenta empurrar o Platense para trás, mas esbarra em cruzamentos previsíveis e em um Borgogno seguro pelo alto. Diniz mexe de novo, chama Pedro Raul, Carrillo e Lingard, e tira Yuri Alberto, que recentemente manifesta o desejo de deixar o clube. O atacante sai sob vaias, acompanhado por protestos direcionados a Allan. As reações mostram um ambiente mais tenso do que a campanha na tabela sugere.
Aos 43 minutos do segundo tempo, o clima esquenta de vez. Breno Bidon cai na área após contato com Tomás Silva, e Herrera marca pênalti. O VAR, comandado por Reyes Soto, chama para revisão longa à beira do gramado. A penalidade é anulada, e a Neo Química Arena explode em reclamações, com jogadores cercando a arbitragem e torcedores apontando para o telão. A sensação entre corintianos é de que, mesmo em noite ruim, o time perde a chance de pelo menos recolocar pressão no fim.
O apito final vem sem reação efetiva. O Corinthians fecha a fase de grupos com 11 pontos, três vitórias, dois empates e uma derrota, oito gols marcados e quatro sofridos. O Platense, que precisa vencer para avançar, chega a 10 pontos e também carimba a vaga nas oitavas. O Santa Fe termina com oito pontos e cai para a Sul-Americana, enquanto o Peñarol, com três, se despede da competição.
Problemas expostos e incertezas para o mata-mata
O resultado não derruba a campanha do Corinthians, mas muda o tom da classificação. A equipe chega ao mata-mata líder, porém pressionada por falhas defensivas em jogo de maior visibilidade. Hugo Souza, até aqui seguro na temporada, sai da arena como personagem negativo da noite. Erra na origem do pênalti, vacila de forma decisiva no segundo gol e sai alvo de críticas de arquibancada e redes sociais.
O desempenho coletivo também acende alerta. O time tem dificuldade para criar chances claras contra adversário fechado, depende de lampejos individuais e não traduz posse em finalizações perigosas. As trocas ofensivas de Diniz, com mais meias e atacantes, aumentam a presença no campo adversário, mas não resolvem o problema de circulação lenta e previsível. Em duelo eliminatório, um roteiro semelhante pode ser fatal.
Do outro lado, o Platense vive noite histórica. A equipe argentina chega a São Paulo precisando pontuar para não depender de combinação de resultados e volta com a classificação garantida e um protagonista. Zapiola, autor dos dois gols, transforma pressão em calma e escreve o tipo de atuação que marca carreira. A imprensa argentina tende a destacar a solidez defensiva, a leitura correta de jogo de Walter Zunino e a eficiência rara fora de casa.
O Corinthians, que transforma a Neo Química Arena em fortaleza desde a inauguração em 2014, vê um rival sul-americano impor duas bolas na rede sem ser realmente sufocado. Em anos recentes, derrotas em casa na Libertadores costumam funcionar como gatilho para cobrança interna e ajustes de rota. A tendência é que a comissão técnica use o jogo diante do Platense como material de análise minuciosa, especialmente no trabalho de saída de bola e na proteção ao goleiro.
Retoques urgentes e um mata-mata sob pressão
O calendário não oferece muito tempo para luto. O Corinthians volta as atenções ao Brasileirão enquanto aguarda o sorteio das oitavas da Libertadores. A diretoria, que já convive com ruídos sobre o futuro de peças como Yuri Alberto, precisa administrar o ambiente para evitar que a derrota se transforme em crise antes da fase decisiva.
Fernando Diniz ganha dias importantes para redimensionar o papel de Hugo Souza, revisar a hierarquia do elenco e ajustar a estratégia em jogos de maior risco. A derrota para o Platense não apaga a campanha de classificação com antecedência, mas altera a maneira como o time se enxerga diante do continente. A partir de agora, a pergunta que ronda o vestiário é simples e incômoda: o Corinthians que chega às oitavas é o líder sólido da tabela ou o time vulnerável que viu o Platense ditar o jogo em Itaquera?
