Mulher é presa em SP por gravar e vender vídeos de tortura a animais
Uma empresária é presa na região da Bela Vista, no centro de São Paulo, após confessar que grava e vende vídeos de tortura a coelhos e pintinhos. A prisão ocorre nesta semana, depois de uma denúncia feita por uma ONG da Bulgária à Polícia Civil paulista.
Da denúncia na Europa à prisão em São Paulo
A investigação ganha corpo quando uma organização não governamental da Bulgária envia às autoridades brasileiras vídeos que mostram a mulher, identificada como Daiane, pisando em filhotes de coelhos e pintinhos. As imagens circulam em grupos fechados no Discord e em plataformas semelhantes, frequentados por compradores europeus de conteúdo violento. Segundo a Polícia Civil, cada gravação é vendida por valores entre 20 e 50 euros, algo entre R$ 120 e R$ 320 na cotação atual.
Os investigadores do DPPC, o departamento especializado em crimes contra o meio ambiente, cruzam dados digitais, registros de pagamento e detalhes físicos das gravações. Uma tatuagem na perna e marcas características na pele permitem a identificação de Daiane. Com essas informações, a polícia pede e obtém um mandado judicial de prisão preventiva, cumprido nesta semana, em data próxima a 28 de maio de 2026, em um imóvel na Bela Vista.
No momento da prisão, conforme fontes da Polícia Civil ouvidas pela reportagem, Daiane admite que é a mulher dos vídeos e confirma que produz o material. Afirma, porém, que se trata de conteúdo antigo. Questionada sobre o paradeiro dos animais usados nas gravações e sobre possíveis novas vítimas, ela se cala e invoca o direito de não responder. A atitude reforça, entre os investigadores, a necessidade de aprofundar a apuração sobre a existência de uma rede maior de exploração.
Na residência, policiais localizam pares de sapatos que aparecem nas imagens. São saltos altos e tênis de plataforma, usados para pisotear os animais até a morte, de acordo com o relato de agentes que tiveram acesso ao material. A CNN Brasil opta por não divulgar as gravações nem quadros isolados, por se tratarem de cenas de extrema violência e sofrimento animal.
Zoosadismo, internet e cooperação internacional
O caso escancara um tipo de crime pouco visível ao grande público, mas em crescimento silencioso nas redes: o zoosadismo, prática que envolve prazer em infligir dor e humilhação a animais. No Brasil, maus-tratos já são punidos pela Lei de Crimes Ambientais. Desde 2020, quando o Congresso endurece a legislação, a pena para violência contra cães e gatos, por exemplo, chega a cinco anos de prisão. Especialistas apontam que casos como o de Daiane pressionam por uma equiparação do tratamento dado a outros animais.
As gravações obtidas pela ONG búlgara mostram Daiane nua, pisando em filhotes com sapatos de sola rígida, até que os corpos deixam de se mexer. Os vídeos são vendidos de forma direcionada a compradores na Europa, o que revela uma cadeia internacional de demanda. A ONG aciona autoridades locais, que por sua vez compartilham os elementos com a polícia brasileira por meio de canais de cooperação. O caminho ilustra como denúncias transnacionais se tornam essenciais para rastrear crimes que atravessam fronteiras digitais.
Em nota enviada à reportagem, o Discord afirma manter “políticas rigorosas que proíbem o abuso de animais e outros conteúdos prejudiciais”, e diz contar com “sistemas robustos de fiscalização e moderação”. Plataformas desse tipo passam a ser pressionadas a explicar como grupos conseguem operar em ambientes supostamente monitorados, com vendas em moeda estrangeira e circulação de material ilegal por meses ou anos antes de qualquer bloqueio efetivo.
A empresária responderá por maus-tratos, zoosadismo e comercialização de vídeos de violência. A investigação tramita na 3ª Delegacia de Crimes Contra o Meio Ambiente, do DPPC. A reportagem tenta contato com a defesa de Daiane, mas não obtém resposta até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
Pressão por leis mais duras e vigilância nas redes
A prisão em São Paulo alimenta um debate que se arrasta há pelo menos uma década no Congresso e em assembleias estaduais: como enquadrar o zoosadismo de forma mais clara e severa na lei penal. Projetos em discussão pedem aumento de pena para quem produz, distribui ou consome conteúdo de tortura animal, com foco especial em ambientes virtuais. O caso de Daiane oferece um exemplo concreto para parlamentares que defendem punição agravada quando há lucro com a crueldade.
Organizações de proteção animal reforçam que o problema não se restringe aos vídeos. Para essas entidades, o sofrimento imposto a filhotes em cenas repetidas indica um ciclo contínuo de violência, muitas vezes associado a outros crimes, como tráfico de animais, lavagem de dinheiro e exploração sexual. Investigações recentes em diferentes estados já identificam lives de tortura transmitidas em tempo real e cobradas em dólar ou euro, o que coloca o Brasil no radar de redes internacionais.
As autoridades paulistas veem o episódio como um alerta sobre a necessidade de vigilância permanente em plataformas fechadas e criptografadas. Delegados ouvidos reservadamente apontam que a estrutura atual de monitoramento digital ainda é insuficiente para rastrear grupos pequenos, que operam por convites, usam apelidos e mudam de servidor com frequência. Sem denúncias externas consistentes, casos semelhantes tendem a permanecer invisíveis.
Na prática, o caso de Bela Vista mostra que parte da resposta depende da disposição de terceiros em denunciar. A ONG da Bulgária reúne, classifica e envia o material, assumindo riscos jurídicos e de exposição. A partir daí, a polícia brasileira consegue vincular imagens e identidade, mas o tempo de reação ainda é longo. Enquanto as gravações continuam circulando em cópias e reenvios, as vítimas não podem mais ser salvas.
O que ainda falta explicar
A investigação tenta agora responder a perguntas centrais: Daiane age sozinha ou integra uma rede organizada? Há intermediários brasileiros responsáveis por captar clientes na Europa? Quantos animais são mortos nas gravações já identificadas? A Polícia Civil evita cravar números, mas admite trabalhar com a hipótese de mais vítimas e de novos vídeos ainda não rastreados.
Os próximos passos incluem a perícia completa nos equipamentos eletrônicos apreendidos, a quebra de sigilos telemáticos autorizada pela Justiça e pedidos formais de cooperação a autoridades estrangeiras. Eventuais compradores identificados no exterior podem responder em seus países por posse e financiamento de material criminoso. O desfecho desse caso tende a influenciar discussões legislativas, políticas de plataformas digitais e a própria percepção social sobre o que acontece longe das câmeras, antes que um arquivo de poucos minutos chegue a um grupo fechado. A dúvida que permanece é se o avanço da tecnologia servirá mais para dar alcance à crueldade ou para identificá-la e interrompê-la a tempo.
