Corinthians expulsa Andrés Sanchez do quadro de sócios em votação aberta
O Corinthians expulsa o ex-presidente Andrés Sanchez do quadro de sócios em 25 de maio de 2026, no Parque São Jorge, após votação aberta e tumultuada. A decisão atende recomendação da Comissão de Ética do clube diante de suspeitas de uso indevido do cartão corporativo, com despesas pessoais que somam mais de R$ 480 mil.
Parque São Jorge transforma julgamento em ato político
O salão principal da sede social se transforma em uma arena política desde o início da noite. Conselheiros, sócios e torcedores ocupam o Parque São Jorge para acompanhar a sessão que decide o futuro de um dos dirigentes mais influentes da história recente do Corinthians. Faixas penduradas nas grades exigem uma resposta dura do clube: “Expulsão já”.
A reunião começa com a sustentação da legalidade do processo pela Comissão de Ética. Em seguida, cada lado tem 20 minutos para se manifestar. De um lado, a defesa de Sanchez tenta afastar a ideia de enriquecimento ilícito e fala em perseguição política. Do outro, conselheiros ligados à Comissão de Ética repetem que o caso expõe um padrão de gastos incompatível com a função de presidente de clube social e esportivo.
Cerca de 135 sócios se credenciam para votar. A presença é considerada alta para um tema interno, reflexo da pressão da torcida organizada e do peso simbólico de julgar um ex-presidente. Parte dos conselheiros relata que, nas últimas semanas, o clima nos corredores é de divisão, com grupos históricos do clube se reorganizando em torno da pauta ética.
Antes de a votação começar, uma alternativa intermediária chega a ser discutida. Um grupo de conselheiros defende a suspensão de Sanchez por seis meses, com perda de direitos políticos e afastamento do cotidiano do clube. A proposta não ganha tração. Em poucos minutos, a mesa diretora confirma que apenas a expulsão ou a manutenção do ex-presidente no quadro de sócios irão a voto.
O clima esquenta quando a Fiel, concentrada do lado de fora, percebe que o voto será aberto, nominal, com divulgação de cada posição. O canto ecoa pela Rua São Jorge: “Conselheiro, preste atenção, chegou o dia, queremos expulsão”. Fogos estouram a cada fala mais dura contra Sanchez. A sessão, pensada para ser um julgamento administrativo, assume contornos de acerto de contas político.
Gastos no cartão corporativo e pressão por transparência
O relatório da Comissão de Ética se baseia em documentos internos do clube e em investigações do Ministério Público de São Paulo. Segundo o promotor Cássio Conserino, Sanchez usa o cartão corporativo do Corinthians, entre 2018 e 2021, para despesas que ultrapassam R$ 480 mil, muitas ligadas a itens pessoais. O Ministério Público descreve compras de relógios importados, roupas e atendimentos médicos. As notas fiscais saem em nome do então presidente.
O ex-mandatário responde a denúncia por crime tributário, apropriação indébita e lavagem de dinheiro. A defesa de Sanchez insiste que parte dos gastos está ligada à representação institucional do clube e que eventuais excessos podem ser corrigidos com devolução dos valores. Nos bastidores, aliados reclamam que o ex-presidente é escolhido como símbolo de uma mudança de postura, enquanto outros casos de descontrole financeiro seguem sem apuração formal.
O placar, porém, revela pouca margem para negociação. Em votação aberta, 112 sócios votam pela expulsão, 49 pela permanência e seis se abstêm. O resultado é anunciado sob forte barulho de fogos e gritos das torcidas organizadas, que acompanham a apuração em tempo real pelas redes sociais. Conselheiros favoráveis à expulsão comemoram no próprio plenário, gesto incomum em votações internas.
A decisão encerra, ao menos no âmbito associativo, a trajetória de um personagem central na construção do Corinthians moderno. Sanchez participa diretamente da abertura da Neo Química Arena, negocia grandes contratos de televisão e se torna figura influente nos bastidores da CBF. Ao mesmo tempo, acumula críticas por endividamento, falta de transparência e relações pouco claras com investidores e empresários do futebol.
Para parte do conselho, a expulsão marca uma linha no tempo. Conselheiros próximos à atual gestão afirmam que o clube não pode mais aceitar que o cargo de presidente sirva para misturar contas pessoais e caixa social. “O recado é claro: o Corinthians não é cartão de crédito de ninguém”, resume um dirigente ouvido pela reportagem, sob condição de anonimato.
Efeito imediato na política interna e no futebol brasileiro
A saída de Sanchez do quadro de sócios redistribui forças na política do clube. Grupos que orbitavam em torno do ex-presidente perdem poder de barganha em futuras eleições. Nomes ligados à bandeira da transparência ganham espaço para se apresentar como herdeiros de uma nova ética corintiana. A próxima disputa presidencial, prevista para os próximos anos, tende a ser moldada pela promessa de controle rigoroso de gastos e auditorias independentes.
O impacto extrapola os muros do Parque São Jorge. A expulsão de um ex-presidente por uso indevido de cartão corporativo pressiona outros clubes brasileiros a revisar práticas internas. Conselhos deliberativos de grandes agremiações enfrentam, em silêncio, denúncias parecidas de gastos sem comprovação detalhada, viagens não justificadas e contratos com pouca transparência. O caso Corinthians oferece um roteiro: investigação interna, parecer de comissão de ética e voto aberto dos sócios.
A base social do clube também sente o efeito imediato. Sócios que defendem punições mais severas apostam que a decisão abre espaço para novas regras sobre reembolso de despesas e uso de cartões institucionais. A atual gestão estuda limitar valores mensais, exigir comprovantes detalhados e tornar públicos relatórios periódicos de gastos. O tema entra, de vez, na agenda da administração alvinegra.
No campo esportivo, a ruptura com Sanchez afeta alianças que se construíram em torno da Arena e de antigas parcerias comerciais. Dirigentes e empresários que atuavam em sintonia com o ex-presidente terão de negociar com uma diretoria pressionada por maior transparência. Contratos de patrocínio, acordos de intermediação de atletas e renovações de serviços podem ser revisitados, ainda que de forma silenciosa.
Próximos passos e um teste de coerência
O capítulo aberto nesta noite não termina com o resultado da votação. Sanchez ainda responde a processos na esfera criminal e tributária, que seguem seu curso no Ministério Público e na Justiça. A defesa deve recorrer internamente para tentar reverter a expulsão ou, ao menos, questionar pontos do procedimento adotado pelo conselho. A direção do Corinthians, por sua vez, terá de mostrar que a mesma disposição vale para outros casos que possam surgir.
O clube promete anunciar, nos próximos meses, um pacote de medidas de governança, com revisão de normas internas e criação de novos mecanismos de fiscalização. A pressão da torcida, que hoje comemora fogos e gritos no Parque São Jorge, tende a se deslocar para a cobrança por resultados concretos: balanços mais claros, punição a eventuais novos desvios e blindagem do caixa em meio a um calendário esportivo cada vez mais caro. A pergunta que fica é se a expulsão de Andrés Sanchez será um ponto fora da curva ou o início de uma mudança estrutural na forma de gerir o futebol brasileiro.
