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Copa de 2026 começa com show indígena e pop no Estádio Azteca

A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11) com uma cerimônia grandiosa no Estádio Azteca, na Cidade do México. Bailarinos indígenas, estrelas da música latina e nomes globais dividem o palco diante de mais de 85 mil pessoas e marcam a abertura oficial do primeiro Mundial disputado em três países.

Estádio histórico, povos originários e música latina no centro

O relógio marca 11h30, a temperatura beira os 24 graus e o velho Azteca, rebatizado de Estádio Banorte, volta a ser o epicentro do futebol mundial. O palco que já abre as Copas de 1970 e 1986 ganha um tapete azul-claro sobre o gramado e se transforma em cenário para um encontro entre civilizações ancestrais e a indústria global do entretenimento.

Bailarinos vestidos como representantes das culturas asteca, maia, olmeca e tolteca circulam em torno de uma réplica gigante da taça da Copa do Mundo. A coreografia sugere um ritual, como se gerações anteriores de mexicanos reverenciassem o troféu que hoje simboliza o esporte mais popular do planeta. O estádio, lotado, responde com celulares apontados e gritos que misturam curiosidade, orgulho e expectativa.

No centro do gramado, uma escadaria leva até a base da taça cenográfica. A mexicana Lila Downs sobe os degraus, toma o microfone e resume o espírito que a Fifa tenta vender ao mundo. “Football unites all”, diz em inglês, antes de traduzir para o espanhol: “fútbol nos une a todos”. A frase ecoa entre arquibancadas que reúnem famílias, torcedores organizados e turistas de vários continentes.

A cerimônia acontece em um Mundial que insiste em falar de união, mas convive com fricções fora de campo. Nos últimos dias, a deportação de um árbitro somali, o longo interrogatório migratório de um jogador iraquiano, as restrições de hospedagem à delegação do Irã e a negativa de vistos para torcedores com destino aos Estados Unidos expõem as fronteiras que o torneio promete ultrapassar. O contraste não entra no roteiro oficial, mas paira sobre a festa.

O México, mais uma vez, assume papel central na história da Copa. Aos 85 mil presentes no Azteca, somam-se milhões de espectadores em transmissões ao vivo e plataformas digitais que amplificam cada gesto do gramado. A abertura inaugura também um formato inédito: além da festa na Cidade do México, outras duas cerimônias estão marcadas para esta sexta-feira (12), em Toronto, no Canadá, e em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Show global em azul, verde e vermelho

Depois da abertura coreográfica indígena, o espetáculo muda de ritmo. As luzes se concentram na banda Maná, que puxa o bloco pop e reforça o protagonismo da música latina. O som das guitarras se mistura às bandeiras nas arquibancadas e prepara o terreno para uma sequência de apresentações planejadas ao milímetro.

O venezuelano Danny Ocean entra em seguida e transforma parte do estádio em pista de dança, com refrões fáceis para um público que conhece cada batida. A espanhola Belinda surge logo depois, dividindo cena com os veteranos do Los Ángeles Azules, ícones da cumbia e da música popular latino-americana, em um encontro de gerações que funciona também como recado de mercado: a Copa quer falar com jovens, mas não abre mão da memória afetiva.

O colombiano J. Balvin, um dos artistas latinos mais vendidos do mundo, aparece a bordo de um carro cenográfico que cruza o tapete azul como se saísse de um videoclipe. A entrada teatral reforça a sensação de que a abertura se aproxima mais de um grande festival musical do que de uma solenidade esportiva tradicional.

A atmosfera muda quando Shakira pisa no gramado. A popstar colombiana, velha conhecida dos Mundiais desde “Waka Waka” em 2010, surge cercada por bailarinas e recebe o reforço do nigeriano Burna Boy. Juntos, apresentam “Dai Dai”, tema oficial da Copa de 2026 e aposta da Fifa para repetir a fórmula de sucesso que transforma música em marca registrada de um torneio inteiro.

Uma fumaça verde e vermelha invade o estádio e cobre a visão por alguns segundos. Quando o tapete azul é retirado, um globo terrestre surge no círculo central, cercado por porta-bandeiras. As 45 seleções que disputam a Copa são representadas em sequência, até a entrada dos estandartes de México, Canadá e Estados Unidos, sedes do torneio. A mensagem é literal: o Mundial se espalha por um continente inteiro.

O ponto mais solene da noite vem com a voz de Andrea Bocelli. O tenor italiano entra em cena para um dueto com a cantora coreana EJAE e conduz uma apresentação de tom quase litúrgico, desenhada para a transmissão internacional. O estádio silencia por alguns instantes, antes de explodir em aplausos que atravessam o gramado e reverberam nas arquibancadas superiores.

A ausência de Claudia Sheinbaum, presidente do México, também ajuda a moldar a narrativa da noite. Desde maio, ela avisa que não comparece como gesto de solidariedade aos mexicanos que não conseguem pagar pelos ingressos. O recado político contrasta com os preços elevados da festa, mas não impede que a cerimônia siga o protocolo. Coube ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, declarar oficialmente aberta a Copa, ao lado da atriz mexicana Salma Hayek, indicada ao Oscar por “Frida”.

Diplomacia em campo e próximos capítulos do Mundial triplo

Quando as seleções de México e África do Sul entram em campo, a temperatura emocional do estádio sobe mais um degrau. O hino sul-africano fica a cargo de Tyla, popstar de 22 anos, vencedora do Grammy em 2024 e 2026. A jovem segura a responsabilidade diante de um público que parece disposto a transformar qualquer pausa em coro.

O hino mexicano ganha voz de Alejandro Fernández, o “El Potrillo”, herdeiro de uma das famílias mais conhecidas da música ranchera. A melodia marcial, que descreve cada filho do solo mexicano como “un soldado” pronto para defender a pátria, encontra um estádio que responde de imediato. A ovação é automática, um grito coletivo que mistura orgulho nacional, memória de outras Copas e expectativa pelo que começa ali.

O apito inicial, aos cuidados do árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio, encerra a cerimônia e devolve o protagonismo à bola. A partir dali, a imagem que prevalece é a do gramado dividido em dois, com o México tentando aproveitar o ambiente favorável e a África do Sul disposta a estragar a festa. No entorno, o Mundial de 2026 testa um novo modelo de cooperação entre países-sede, aeroportos e sistemas migratórios.

As três cerimônias de abertura simbolizam esse arranjo inédito. O México assume a dianteira emocional, com um Azteca novamente no centro da história, enquanto Canadá e Estados Unidos se preparam para suas próprias festas no dia 12. Cada país quer imprimir sua marca, mas todos dependem de uma engrenagem comum de segurança, transporte e tecnologia que precisa funcionar de forma coordenada pelas próximas semanas.

As tensões registradas na chegada de delegações e torcedores indicam que o torneio se torna também um teste político e diplomático. A Copa pressiona governos a flexibilizar controles, mas eles respondem com filtros rígidos, principalmente em solo americano. O equilíbrio entre festa e restrição, vitrine global e fronteira fechada, segue como um dos fios condutores do torneio.

O impacto imediato da noite no Azteca é claro. A cerimônia coloca a cultura latina, os povos originários e a música da região no centro de uma audiência global, fortalece o México como sede histórica e alimenta uma narrativa de inclusão que a Fifa tenta associar ao torneio. Os próximos jogos vão dizer até que ponto essa imagem resiste à realidade de um Mundial espalhado por três países, com interesses distintos, e se a promessa de que “o futebol une a todos” consegue superar barreiras que não desaparecem quando as luzes do estádio se apagam.

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