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Caso Henry: depoimentos de Monique e Jairinho mudam rumo do julgamento

No nono dia de julgamento do caso Henry, no Rio de Janeiro, em 3 de junho de 2026, Monique Medeiros atribui a Jairinho a responsabilidade pela morte do filho. O ex-vereador nega as agressões e contesta a investigação, em uma audiência marcada por tensão e versões opostas.

Virada no plenário e disputa de versões

O depoimento de Monique rompe o silêncio que cerca o caso desde a morte de Henry, em março de 2021. Pela primeira vez em plenário, diante do júri popular, ela afirma de forma direta que o então companheiro, o ex-vereador Jairo Souza Santos, o Jairinho, é o responsável pelas agressões que teriam levado o menino de 4 anos à morte.

Monique conta que, na madrugada em que o filho é levado ao hospital, recebe orientações de Jairinho sobre o que dizer aos médicos e à polícia. Relata pressão emocional, medo e controle constante. “Eu acreditava que ele era o homem que podia proteger a nossa família, mas ele destruiu a nossa vida”, afirma, em um dos trechos mais duros do depoimento.

O relato contrasta com as versões que ela apresenta nos primeiros meses após a morte de Henry, quando sustenta a hipótese de um acidente doméstico. A mudança, agora transformada em acusação explícita em juízo, altera o tom do julgamento e amplia a responsabilidade de Jairinho aos olhos dos jurados e da opinião pública.

Desautorizado por Monique, o ex-vereador tenta reconstruir sua imagem quando chega a vez de falar. Jairinho reafirma que nunca agride o menino, critica o trabalho da polícia e ataca o laudo pericial, que aponta múltiplas lesões incompatíveis com uma queda. “A investigação foi conduzida para me condenar desde o primeiro dia”, diz, ao contestar a linha adotada pelo Ministério Público.

Os dois depoimentos expõem fissuras de uma relação que, por anos, é apresentada em redes sociais como estável e afetuosa. No tribunal do júri, sob vigilância de câmeras de televisão e transmissões ao vivo em blogs e redes, o casal aparece agora como antagonistas centrais de um caso que comove o país há mais de cinco anos.

Pressão social, violência infantil e disputa por narrativas

O julgamento, que já chega ao nono dia de sessões, transforma o caso Henry em um dos processos criminais mais acompanhados da década no Rio de Janeiro. Desde a denúncia do Ministério Público, em 2021, o caso alimenta debates sobre violência contra crianças, responsabilidade parental e omissão de cuidadores. Dados do Disque 100, canal federal de denúncias, registram alta superior a 30% nos relatos de violência infantil entre 2020 e 2024, reflexo de maior exposição e também de mais atenção ao tema.

A presença maciça de equipes de TV, rádios, portais e influenciadores digitais no Fórum do Rio reforça a dimensão pública da disputa. Em intervalos de poucos minutos, trechos de falas de Monique e Jairinho circulam em redes como X, Instagram e TikTok, moldando percepções antes mesmo do fim de cada sessão. Em algumas transmissões, a audiência ultrapassa centenas de milhares de visualizações em tempo real.

Especialistas em direito penal apontam que o movimento de Monique, ao colocar o foco sobre Jairinho, não é apenas emocional. Ao deslocar para o ex-companheiro a responsabilidade pela morte de Henry, ela tenta reduzir o próprio grau de culpa e reforçar a tese de que também é vítima de um ciclo de violência e manipulação.

Para organizações que atuam na defesa de crianças, a audiência desta quarta-feira funciona como um espelho incômodo. O caso expõe falhas de vizinhos, escolas, serviços de saúde e da própria rede de proteção, que não conseguem interromper a escalada de violência descrita em mensagens, laudos e depoimentos. A discussão alcança o Congresso, onde parlamentares defendem penas mais duras para crimes contra menores de 12 anos e maior responsabilização de quem presencia sinais de abuso e não denuncia.

As consequências vão além do processo penal. Planos de saúde e hospitais privados revisam protocolos de atendimento diante de lesões em crianças, para garantir que todas as ocorrências suspeitas sejam comunicadas aos conselhos tutelares. Secretarias municipais e estaduais de Educação estudam ampliar a formação de professores para identificar, registrar e acionar a rede de proteção sempre que surgirem indícios de agressão, mesmo em ambientes de classe média alta, como o de Henry.

Desfecho, sentença e o que ainda permanece em aberto

O nono dia de julgamento aumenta a pressão sobre o júri, que precisa avaliar versões irreconciliáveis. De um lado, uma mãe que assume a omissão e transfere a autoria das agressões ao ex-companheiro. De outro, um ex-vereador que insiste na tese de inocência e tenta minar a credibilidade da perícia e da investigação policial.

O tribunal reserva os próximos dias para ouvir novas testemunhas, revisar provas materiais e ouvir a sustentação final da acusação e da defesa. A expectativa é que a sentença saia ainda em junho, mais de cinco anos após a morte do menino, que ocorre em 8 de março de 2021. Em caso de condenação pelos crimes de homicídio qualificado, tortura e fraude processual, as penas podem superar 30 anos de prisão.

O desfecho não se limita às partes envolvidas. A forma como o júri interpreta a responsabilidade de Monique e Jairinho tende a influenciar futuras decisões em casos de violência doméstica contra crianças, especialmente quando há indícios de omissão de um dos responsáveis legais. Operadores do direito acompanham o processo como um marco para a definição dos limites entre conivência, medo e participação efetiva no crime.

Enquanto o júri não se recolhe para votar, a pergunta que ecoa fora do fórum é direta: que tipo de rede o país precisa construir para evitar que outra criança, em um apartamento de classe média ou em uma periferia distante, morra sem que os alertas sejam levados a sério? A resposta passa pelo que acontece agora no plenário do Rio, mas também por políticas públicas que sobrevivam ao fim deste julgamento.

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