Brasil tem o maior juro real do mundo e taxa sobe para 9,49% após decisão do Copom
País lidera ranking de 40 economias, à frente de Turquia, Argentina e Rússia, mesmo com a Selic mantida em 13,75% ao ano; indicador considera a inflação esperada e os juros de mercado.

O Brasil continua com a maior taxa de juros reais do mundo após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidir manter a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4). Segundo levantamento elaborado pelo Portal MoneYou e pela Lev Intelligence, os juros reais brasileiros chegaram a 9,49% ao ano, colocando o país à frente de outras 39 economias analisadas.
O indicador brasileiro subiu em relação a setembro, quando estava em 8,45%. Os juros reais representam o rendimento ou custo do dinheiro após considerar a inflação esperada. Na prática, ajudam a mostrar quanto os juros efetivamente pesam sobre a economia, além da simples comparação entre as taxas básicas de diferentes países.
Leia também: Itaú lucra R$ 12,6 bilhões em três meses e amplia carteira de crédito
A liderança brasileira acontece mesmo após cinco cortes consecutivos da Selic ao longo de 2026. A decisão desta quarta-feira interrompeu a sequência de reduções, em um cenário de inflação acima da meta, incertezas fiscais e oscilações no mercado financeiro.
Copom mantém Selic em 13,75% e interrompe sequência de cinco cortes nos juros
Brasil supera Turquia, Argentina e Rússia nos juros reais
O levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence reúne 40 economias e considera as expectativas de inflação e as taxas de juros projetadas para os próximos 12 meses.
Com juros reais de 9,49% ao ano, o Brasil ocupa a primeira posição do ranking.
A Turquia aparece em segundo lugar, com 7,77%, seguida pela Argentina, com 6,80%.
A Rússia registra 6,57%, enquanto a Colômbia apresenta 4,05%.
Confira os cinco países com as maiores taxas de juros reais do levantamento:
1º Brasil: 9,49% ao ano.
2º Turquia: 7,77% ao ano.
3º Argentina: 6,80% ao ano.
4º Rússia: 6,57% ao ano.
5º Colômbia: 4,05% ao ano.
A média das 40 economias analisadas é de 1,28% ao ano, bem abaixo do indicador brasileiro.
Isso significa que, dentro da metodologia utilizada pelas consultorias, o Brasil apresenta uma das políticas monetárias mais restritivas entre os países comparados.
Por que os juros reais brasileiros aumentaram?
Embora a Selic permaneça em 13,75%, o cálculo dos juros reais considera outros fatores além da taxa básica atualmente definida pelo Banco Central.
O levantamento utiliza a inflação projetada para os próximos 12 meses e as taxas de juros negociadas no mercado financeiro para o mesmo horizonte.
A expectativa de inflação considerada no estudo é de 4,99%, conforme as projeções do Boletim Focus.
Com a mudança nos juros futuros e nas expectativas econômicas, a taxa real brasileira passou de 8,45% em setembro para 9,49% em novembro.
Por isso, não basta subtrair a inflação projetada da Selic atual para reproduzir exatamente o resultado do ranking.
A diferença está na metodologia, que utiliza os juros de mercado esperados para os próximos 12 meses, e não apenas a taxa básica vigente nesta quarta-feira.
Brasil ocupa quarta posição nos juros nominais
A classificação muda quando a comparação considera apenas os juros nominais, sem descontar a inflação.
Nesse caso, o Brasil aparece na quarta posição, com a Selic de 13,75% ao ano.
A Turquia lidera esse indicador, com juros de 36%, seguida pela Argentina, com 29%, e pela Rússia, com 14%.
A Colômbia aparece logo depois do Brasil, com taxa nominal de 12,25%.
A média dos juros nominais entre os 40 países analisados é de 5,51% ao ano.
A diferença entre as duas classificações ocorre porque países com taxas nominais muito elevadas também podem apresentar expectativas de inflação mais altas.
Assim, quando o efeito da inflação é considerado, a posição de cada economia no ranking pode mudar.
O que são juros reais e por que eles importam?
Os juros reais representam a taxa de juros ajustada pela inflação.
Imagine uma aplicação financeira que ofereça rendimento de 10% ao ano. Se a inflação no mesmo período for de 5%, parte do ganho será consumida pelo aumento dos preços.
O rendimento real será menor que os 10% anunciados, porque é necessário considerar a perda do poder de compra do dinheiro.
O mesmo raciocínio ajuda a analisar os juros cobrados em operações de crédito.
No caso dos países, a comparação dos juros reais permite avaliar quanto a política monetária está restringindo a atividade econômica, considerando as diferenças nas perspectivas de inflação.
Taxas elevadas podem contribuir para reduzir pressões inflacionárias, pois tendem a desestimular o consumo financiado e determinadas decisões de investimento.
Por outro lado, também aumentam o custo do crédito e podem dificultar a expansão dos negócios.
Como os juros elevados afetam o bolso dos brasileiros?
A manutenção da Selic em 13,75% influencia diretamente o custo de empréstimos, financiamentos e outras operações bancárias.
Quando os juros básicos estão elevados, os bancos tendem a cobrar taxas maiores para emprestar dinheiro, embora também considerem o risco de inadimplência e os custos de cada operação.
Para os consumidores, isso pode significar parcelas mais caras na compra de veículos, imóveis e produtos financiados.
Empresas também podem enfrentar dificuldades para contratar crédito destinado à aquisição de equipamentos, abertura de unidades e ampliação da produção.
Outro efeito possível é a desaceleração do consumo, já que famílias e empresas passam a comprometer uma parcela maior de seus recursos com o pagamento de dívidas.
Em contrapartida, os juros elevados favorecem a rentabilidade de determinadas aplicações de renda fixa, como o Tesouro Selic e os CDBs vinculados ao CDI.
Isso pode aumentar a atratividade desses investimentos em comparação com alternativas de maior risco.
Copom interrompe sequência de cinco cortes da Selic
A decisão desta quarta-feira representa uma mudança no ritmo da política monetária brasileira.
O Banco Central havia iniciado a redução dos juros em março de 2026, quando a Selic passou de 15% para 14,75% ao ano.
Novos cortes ocorreram em abril, junho, agosto e setembro, levando a taxa para 13,75%.
Na reunião de novembro, os integrantes do Copom decidiram manter o percentual.
A interrupção acontece após a piora das expectativas de inflação e o aumento das incertezas sobre a economia brasileira.
Entre os fatores acompanhados pelo mercado estão a situação das contas públicas, a cotação do dólar, o comportamento dos preços e as perspectivas para a atividade econômica.
No cenário internacional, os conflitos no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços de energia também influenciam as projeções de inflação.
Maioria dos países também manteve os juros
O levantamento internacional aponta que a manutenção das taxas de juros tem sido a decisão predominante entre os bancos centrais.
Em uma amostra mais ampla de 164 países, aproximadamente 86% mantiveram os juros em suas reuniões mais recentes.
Outros 9,1% elevaram suas taxas, enquanto cerca de 4,9% promoveram cortes.
Segundo as consultorias responsáveis pelo estudo, as perspectivas de inflação foram revisadas para cima em diferentes economias, em um ambiente de incerteza internacional.
Esse movimento contribuiu para modificar os resultados do ranking de juros reais, já que expectativas inflacionárias maiores podem reduzir as taxas reais calculadas.
A posição brasileira, portanto, depende tanto das condições econômicas internas quanto das mudanças nas projeções de outros países.
Próximos passos
O Banco Central voltará a discutir a Selic em dezembro, na última reunião do Copom de 2026, marcada para os dias 8 e 9.
Até lá, a instituição deverá acompanhar os indicadores de inflação, atividade econômica e mercado de trabalho, além das expectativas para as contas públicas.
A ata da reunião desta quarta-feira será divulgada em 10 de novembro e deverá detalhar os argumentos que levaram à interrupção dos cortes.
Enquanto isso, o Brasil permanece na primeira posição do ranking de juros reais elaborado pela MoneYou e pela Lev Intelligence, com taxa de 9,49% ao ano.


