Brasil rompe consenso no G7 e evita textos moldados aos EUA
O governo Lula encerra neste 16 de junho de 2026 sua participação no G7, em Évian, rompendo o consenso esperado pelo grupo. O Brasil assina apenas dois dos cinco documentos oficiais, critica a acomodação à Casa Branca e expõe, em pleno palco das grandes potências, o distanciamento em relação à agenda defendida pelos Estados Unidos.
Documentos moldados para não desagradar Washington
O embate se dá no coração da cúpula, à beira do lago Léman, onde se reúnem as sete maiores economias do mundo. A presidência francesa divulga cinco textos para coroar dois dias de discussões, mas Brasília considera que três deles foram esvaziados para garantir a permanência de Donald Trump no jogo, sem vetos constrangedores.
No relato de integrantes da delegação brasileira, os documentos omitem temas que o Planalto trata como inegociáveis: mudança climática, reforma das instituições multilaterais e fortalecimento da Organização Mundial da Saúde. “Os textos foram limpos para não contrariar Washington”, resume um assessor, em conversa reservada, após o fim das sessões desta terça-feira.
O contraste aparece logo na primeira leva de declarações. De três textos divulgados pela manhã, o Brasil endossa apenas um: o compromisso de combate ao câncer. O governo Lula aponta prioridade clara para a agenda oncológica, com planos de ampliar, até 2030, o acesso a diagnósticos e tratamentos na rede pública, diante de um país que registra cerca de 700 mil novos casos por ano.
A declaração sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento, que serve de base para a sessão da tarde em que Lula discursa, é rejeitada. O documento propõe mobilizar capital privado, com garantias e seguros, como saída para a queda drástica na ajuda oficial dos países ricos. Na avaliação brasileira, a fórmula transforma desenvolvimento em produto financeiro e varre para baixo do tapete as escolhas políticas.
Para Brasília, a peça ignora crise climática, peso da dívida externa e combate à fome, além de não mencionar uma única vez a expressão “mudança climática”. No Planalto, a ausência não é acidente, mas cálculo para evitar novo choque entre Trump e aliados europeus, depois de anos de atritos sobre o tema.
O Brasil também se afasta da declaração sobre o surto de ebola na República Democrática do Congo e em Uganda. O texto não cita a OMS, que perde bilhões de dólares em repasses americanos nos últimos anos. O Itamaraty lê a omissão como gesto direto à Casa Branca e, em vez de assinar o documento, Lula envia carta ao diretor-geral da agência, Tedros Adhanom, pedindo apoio explícito do G20 e do próprio G7 à organização.
Agenda autônoma e fricção com os EUA
Na outra ponta, o Brasil escolhe em quais trincheiras quer estar. O país assina a declaração sobre combate ao narcotráfico, depois de garantir uma mudança-chave na redação final: a inclusão de lavagem de dinheiro como foco central, sem equiparar organizações criminosas a grupos terroristas. Essa linha tem peso especial num momento em que Washington decide classificar facções brasileiras como organizações terroristas.
O governo brasileiro também sinaliza adesão ao texto sobre proteção de crianças nas redes sociais, área em que o país exibe legislação própria e decisões judiciais que cobram mais responsabilidade de grandes plataformas. O Planalto enxerga espaço para usar a experiência local como vitrine em meio à corrida global por regras para o mundo digital.
Dois outros documentos ficam de fora. A declaração sobre desequilíbrios macroeconômicos, na visão de Brasília, mira de forma quase exclusiva a China, sem mencionar os efeitos do unilateralismo comercial e dos conflitos armados sobre cadeias produtivas globais. A leitura no entorno de Lula é que o G7 tenta construir, por escrito, um consenso contra Pequim, poupando o papel dos Estados Unidos em sucessivas guerras tarifárias.
Também não prospera a proposta sobre minerais críticos, área em que o Brasil busca se impor como fornecedor de peso em lítio, cobre, níquel e terras raras. O texto, descrevem negociadores, trata o tema sob prisma extrativista e geopolítico, voltado a construir uma espécie de clube ocidental para reduzir dependência da China, sem reconhecer o direito dos países produtores de agregar valor às cadeias antes da exportação.
No plenário, as diferenças se tornam explícitas. Emmanuel Macron insiste em mecanismos de garantia para atrair fundos privados. Trump usa o microfone para exaltar contribuições americanas à África, sem se ater ao documento em debate. Lula responde com outra chave: “O problema não é falta de dinheiro, é escolha política sobre como usá-lo”, diz, segundo interlocutores que acompanham a sessão. A frase resume a crítica brasileira à moldura financeira, considerada despolitizada, adotada pelo G7.
Nenhum líder contesta Lula de forma direta. A intervenção que mais se aproxima da posição brasileira vem da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que admite erros históricos dos países ricos e reconhece que políticas das últimas décadas alimentaram dependência no Sul global. O gesto reforça a leitura do Planalto de que há fissuras dentro do próprio G7 sobre como lidar com países em desenvolvimento.
Clima frio com Trump e próximos lances diplomáticos
O distanciamento político ganha contorno de novela paralela nas redes sociais, que passam o dia repetindo a mesma pergunta: Lula e Trump se cumprimentam ou se evitam em Évian? Imagens da tradicional foto de família mostram o presidente americano passando pelo brasileiro sem troca de gestos ou olhares. O episódio alimenta especulações sobre um boicote silencioso.
No Planalto, o assunto é tratado como irrelevante. Assessores dizem que não há registro de interação entre os dois até agora, mas também nenhum indício de combinação prévia para evitar encontros casuais. O governo afirma que não pediu reunião bilateral e sustenta que, neste momento, “não há agenda concreta” que justifique conversa formal. Um aperto de mão de corredor, admitem auxiliares, continua possível até o fim da cúpula.
O último dia em Évian reserva nova vitrine para as divergências. Lula participa de sessão sobre crescimento econômico equilibrado e de almoço com líderes das maiores empresas de tecnologia do mundo, dedicado a inteligência artificial. A pauta inclui regulação de algoritmos, risco de concentração de poder digital e impactos sobre emprego, temas em que o Brasil tenta se colocar como voz do Sul global em meio à disputa regulatória entre EUA, Europa e China.
Há ainda espaço para negociações bilaterais sensíveis. O Planalto trabalha com a possibilidade de reunião com o presidente do Egito, Abdel Fattah Al-Sisi, e com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a pedido de Kiev. Em Genebra, na sequência da viagem, Lula se encontra com Valdecy Urquiza, primeiro brasileiro a comandar a Interpol, ao lado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O encontro ocorre sob a sombra de uma nova irritação com Washington, depois que os Estados Unidos decidem classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, mexendo com a sensibilidade da área de segurança em Brasília. A combinação de atritos na agenda de segurança, desacordo sobre reforma da governança global e impasse sobre clima e saúde pública ajuda a explicar o tom duro da posição brasileira no G7.
Ao deixar Évian rumo à Suíça, Lula tenta consolidar a imagem de um Brasil que não assina textos que considera diluídos para agradar à Casa Branca, mesmo diante do risco de novos choques com a maior potência do planeta. As próximas cúpulas do G20 e das Nações Unidas vão mostrar se essa aposta em autonomia rende mais espaço de negociação ou cobra um preço alto nas relações com Washington e com os próprios parceiros do G7.
