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Atritos de Trump com líderes do G7 expõem dilema da cúpula de 2026

Às vésperas do encontro do G7 de junho de 2026, Donald Trump chega cercado por uma sequência de choques públicos com quase todos os outros líderes do grupo. Ataques pessoais, provocações históricas e ameaças diplomáticas recentes colocam à prova a capacidade das maiores potências ocidentais de agir de forma coordenada em meio à guerra no Irã.

Choques em série antes da cúpula

O clima de tensão se forma muito antes das fotos oficiais na cúpula. Em pouco mais de um ano, Trump acumula rusgas com França, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Itália e Japão, em episódios que misturam bravatas, ironias e recados geopolíticos. O histórico recente ajuda a explicar por que, mesmo com a vitrine do G7, aliados tratam com cautela qualquer compromisso que dependa de alinhamento pessoal com o ex-presidente dos Estados Unidos.

A relação com o francês Emmanuel Macron simboliza essa deterioração gradual. Os dois cultivam proximidade no primeiro mandato de Trump, quando o presidente francês se vende como o dirigente capaz de “falar ao ouvido” do republicano. O tom muda quando, há pouco mais de um ano, um gesto de Brigitte Macron ao desembarcar do avião presidencial francês vira combustível para chacota. Trump comenta em público que “essa esposa dele o trata extremamente mal”, abrindo uma frente de constrangimento que extrapola a política externa e atinge a vida privada do casal presidencial francês.

O canadense Mark Carney sente o ataque em escala ainda mais direta. Em meio às discussões sobre o apoio à campanha militar no Irã e o uso de bases e rotas logísticas no território canadense, Trump ameaça anexar o Canadá como o 51º Estado americano. Passa a se referir a Carney não como líder de um país soberano, mas como “futuro governador do Canadá”. O recado agride um vizinho que há décadas se apoia na parceria com Washington para segurança, comércio e energia.

No Reino Unido, a fissura se abre em torno de um ponto sensível: o uso de instalações militares britânicas para operações ligadas à guerra no Irã. O premiê Mark Starmer resiste a dar um sinal imediato, adota tom prudente e evita endossar de forma entusiasmada a estratégia americana. O atraso irrita Trump, que evoca a Segunda Guerra Mundial para desqualificar o aliado: “Infelizmente, ele não é nenhum Winston Churchill”. A comparação pública reforça a percepção de que o republicano mede a lealdade dos parceiros por sua disposição de seguir a linha de Washington sem hesitar.

Com a Alemanha, a correnteza também corre contra. Ao comentar a condução americana diante do Irã, o chanceler Friedrich Merz afirma que os Estados Unidos estão sendo “humilhados pelos iranianos”. Trump reage em bloco, atinge o país inteiro e descreve a Alemanha como um “país quebrado”. A troca de farpas expõe fraturas na frente que deveria discutir sanções, rota de fornecimento de energia e segurança no Oriente Médio com mínimo de unidade.

A italiana Giorgia Meloni entra no raio de ação de Trump após a intervenção do Papa Leão XIV, que critica duramente a guerra no Irã. O ex-presidente reage atacando o pontífice e tenta deslegitimar o Vaticano. Meloni chama as declarações de “inaceitáveis” e paga o preço. “Pensei que ela tivesse coragem. Estava errado”, devolve Trump, num movimento que empurra a líder italiana para um labirinto político interno entre fidelidade ao eleitorado conservador e respeito à autoridade do Papa.

No Japão, o ruído tem peso histórico. Em discussão sobre apoio japonês nas tensões no Estreito de Ormuz, peça-chave para o fluxo de petróleo global, Trump resgata o trauma de Pearl Harbor. Com ironia, pergunta: “Por que vocês não me contaram sobre Pearl Harbor? Foi um ataque surpresa”. A frase ecoa em Tóquio como lembrança incômoda da Segunda Guerra Mundial e reforça a imagem de um aliado imprevisível em um momento de maior pressão chinesa na região.

Diplomacia sob teste em plena guerra no Irã

Os episódios se acumulam enquanto o G7 tenta responder à escalada da guerra no Irã e às tensões no Oriente Médio. Entre 2024 e 2026, o grupo se reúne ao menos três vezes para discutir sanções econômicas, segurança marítima no Golfo Pérsico e limites para o uso de bases militares europeias e asiáticas. Trump contesta hesitações, cobra mais engajamento e usa a vitrine pública para constranger quem considera tímido.

A ofensiva verbal afeta diretamente a confiança entre os parceiros. Governos que dependem de aprovação parlamentar para enviar tropas, liberar bases ou ampliar orçamentos de defesa precisam explicar a eleitores por que seguem um líder que, em público, trata aliados como adversários. Em um cenário em que cada ponto percentual de apoio interno pesa, as falas de Trump ganham impacto concreto nas capitais do G7.

Especialistas veem um paradoxo. O G7 continua central para discutir temas que movem trilhões de dólares, como inflação global, transição energética e regulação de tecnologia. Ao mesmo tempo, a coesão política do grupo parece cada vez mais frágil. Ao atacar Macron, Carney, Starmer, Merz, Meloni e Sanae Takaichi em sequência, Trump reforça sua base doméstica, mas arrisca desgastar a mesma rede de alianças que sustenta a influência americana desde o pós-guerra.

As críticas se estendem também ao debate sobre o Irã. Quando líderes falam em conversas “francas” sobre o acordo em discussão e sobre o uso de bombardeiros estratégicos como o B-52, tentam sinalizar firmeza sem escalar o conflito. Trump prefere a retórica do confronto. Ao descrever a Alemanha como “país quebrado” ou sugerir que o Canadá pode virar “51º Estado”, embaralha linhas entre pressão diplomática e humilhação pública.

O resultado é um G7 que opera sob tensão permanente. Reuniões formais seguem, comunicados conjuntos saem, mas bastidores relatam alertas constantes para evitar temas que possam disparar novas reações em rede social ou em comícios. Nesse ambiente, cada sinal público de harmonia precisa ser lido também como esforço calculado de contenção.

G7 tenta mostrar unidade, mas feridas ficam abertas

Apesar do histórico de choques, o encontro do G7 em junho de 2026 transcorre com aparência de normalidade. Segundo o analista Diego Pavão, “tudo parecia correr mais ou menos em harmonia” até o momento de sua avaliação. Fotos protocolares, reuniões bilaterais discretas e declarações cuidadosamente redigidas procuram blindar a cúpula de novos incidentes.

O esforço revela o tamanho da aposta dos demais líderes. Macron, Carney, Starmer, Merz, Meloni e Sanae Takaichi sabem que, sem algum grau de coordenação, perdem espaço em negociações econômicas multilaterais, na discussão sobre metas ambientais até 2030 e na definição de pacotes de ajuda militar e humanitária para o Oriente Médio. A cooperação com Washington continua essencial, mesmo quando ela vem acompanhada de ataques pessoais.

A dúvida é quanto tempo esse arranjo se sustenta. Se novos conflitos exigirem decisões em prazos de dias, ou se o cenário no Irã mudar de forma brusca, a capacidade de reação conjunta dependerá menos dos comunicados oficiais e mais da confiança entre governantes. Por ora, o G7 escolhe administrar as divergências e seguir em frente. O teste real será a próxima crise que não der espaço para fotos cordiais antes de decisões difíceis.

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