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Brasil disputa protagonismo em minerais críticos na transição verde

O Serviço Geológico do Brasil detalha, neste 25 de abril de 2026, como terras raras, minerais estratégicos e críticos colocam o país no centro da transição energética global. A riqueza em reservas contrasta com gargalos tecnológicos, pressões ambientais e desigualdade social nas regiões mineradas.

O que está em jogo na corrida por minerais do futuro

Os nomes soam parecidos, mas descrevem peças diferentes de um mesmo tabuleiro geopolítico. Terras raras formam um grupo específico de 17 elementos químicos, entre eles neodímio e disprósio, usados em ímãs potentes que movem turbinas eólicas e motores de carros elétricos. Minerais estratégicos são aqueles que um país considera fundamentais para seu desenvolvimento econômico e tecnológico. Minerais críticos são os que correm risco de faltar, seja por concentração da produção em poucos países, instabilidade política ou dificuldade de substituição.

Essa classificação, explicam técnicos do Serviço Geológico do Brasil (SGB), muda de acordo com o interesse de cada governo. O que é crítico para a União Europeia pode não ter o mesmo peso nos Estados Unidos ou na China. A lista também oscila com o tempo, conforme novas tecnologias surgem, reservas são descobertas e a demanda por energias limpas cresce. Na prática, porém, alguns nomes se repetem: lítio, cobalto, grafita, níquel, nióbio e as próprias terras raras aparecem no centro de quase todos os diagnósticos globais.

Apesar do nome, terras raras não são necessariamente raras na natureza. Elas costumam estar dispersas nas rochas, em concentrações baixas, o que encarece a extração e o refino. Essa combinação de abundância geológica e dificuldade tecnológica cria um paradoxo: há muito material no subsolo, mas poucos países dominam as etapas que transformam o minério bruto em insumo de alta tecnologia. Hoje, a China lidera o refino e responde pela maior parte da oferta mundial, situação que preocupa governos que tentam reduzir a dependência de um único fornecedor.

Brasil é potência em reservas, mas importa tecnologia

Os números ajudam a dimensionar a aposta brasileira. Segundo dados do SGB alinhados às estatísticas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, o equivalente a 23% do total mundial. É a segunda maior reserva do planeta. Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe concentram os principais depósitos com potencial econômico conhecido.

O protagonismo se repete em outros minerais considerados estratégicos pelas principais economias. O país abriga 94% das reservas conhecidas de nióbio no mundo, algo em torno de 16 milhões de toneladas. Também ocupa o segundo lugar em grafita, com 74 milhões de toneladas e 26% das reservas globais, e o terceiro em níquel, com 16 milhões de toneladas, cerca de 12% do total. Essa posição reforça a ideia de que a transição energética depende, em grande parte, do que está debaixo do solo brasileiro.

O próprio governo federal definiu, em 2021, uma lista de minerais considerados estratégicos para o desenvolvimento interno. A resolução do Ministério de Minas e Energia organiza esses recursos em três grupos. Um deles reúne matérias-primas que o país precisa importar, como enxofre, fosfato, potássio e molibdênio, essenciais para fertilizantes e para a indústria química. Outro abrange insumos de alta tecnologia, caso do lítio, cobalto, cobre, grafita, nióbio, níquel, terras raras, urânio e elementos do grupo da platina. Um terceiro segmento destaca minerais nos quais o Brasil tem vantagem comparativa e gera superávit externo, entre eles minério de ferro, alumínio, ouro, manganês e novamente nióbio e urânio.

Essa abundância, porém, não se traduz automaticamente em poder industrial. A maior parte da cadeia de valor ainda escapa do controle brasileiro. Beneficiamento químico, refino em larga escala e fabricação de componentes sofisticados, como baterias e ímãs permanentes, continuam concentrados em outros países. “O Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, passando pelo ferro e até o petróleo. Servindo para o mundo como um país primário-exportador. A gente exporta muitos minerais e os consome muito pouco no mercado nacional”, avalia o professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense, Luiz Jardim Wanderley.

Essa estrutura se reflete na balança comercial. O país exporta toneladas de minério de ferro, nióbio e outros metais, mas importa produtos de maior valor agregado, como células de bateria, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. A cada elo perdido na cadeia, a economia abre mão de empregos qualificados, arrecadação de impostos e capacidade tecnológica. Na corrida por veículos elétricos, turbinas eólicas e painéis solares, essa distância pesa.

Entre riqueza mineral e custo socioambiental

A expansão da mineração de minerais críticos reacende um debate antigo no Brasil: quem paga a conta dos buracos abertos no solo. Os principais projetos se instalam em regiões que já enfrentam desafios estruturais, como falta de saneamento, serviços públicos precários e dependência de poucos empregadores. Grandes obras alteram a paisagem, pressionam serviços locais e atraem trabalhadores em busca de oportunidade rápida.

Luiz Jardim é direto ao avaliar esse modelo. “Não existe mineração sustentável. Toda mineração causa impactos ambientais pesados, como o comprometimento de recursos hídricos. Também causa pressão econômica nos municípios em que ocorre: aumento da pobreza, desigualdade e violência urbana. O que temos hoje é um modelo completamente insustentável de mineração”, afirma. Ele lembra que barragens de rejeitos, estradas internas e pilhas de estéril modificam rios, nascentes e comunidades inteiras.

O geógrafo não descarta avanços em práticas e tecnologias, mas considera insuficientes diante da escala dos projetos. “É possível fazer um modelo um pouco menos degradante. Mas, ainda assim, continuariam sendo feitos grandes buracos para extrair esses minérios. Continuariam a desmontar montanhas e a afetar cursos de água. Precisamos pensar com muita calma se realmente vale a pena, já que perdemos muitos recursos naturais e os efeitos socioambientais são significativos”, reforça. A crítica ganha peso em um país que ainda contabiliza os impactos de desastres recentes ligados à mineração de ferro em Minas Gerais.

Comunidades locais cobram mais participação nas decisões sobre novos empreendimentos. Povos indígenas, quilombolas e moradores de áreas rurais pressionam órgãos ambientais e o Congresso por regras mais rígidas, compensações financeiras mais altas e fiscalização efetiva. A disputa por terras se intensifica em áreas da Amazônia e do Cerrado, onde jazidas de terras raras, níquel e grafita se sobrepõem a territórios tradicionais e zonas de proteção de biodiversidade.

No plano internacional, o Brasil tenta equilibrar interesses. De um lado, governos e empresas estrangeiras buscam contratos de longo prazo para garantir acesso a minerais considerados vitais para suas indústrias até 2050. De outro, cresce a cobrança interna por agregar valor à produção, diversificar a base industrial e evitar que a transição energética repita a lógica de exploração do ciclo do ouro ou da borracha na Amazônia. A janela de oportunidade é ampla, mas não permanece aberta para sempre.

Janela estratégica e decisões que definem o futuro

O avanço da transição energética até 2030 deve multiplicar a demanda global por lítio, níquel, cobalto, grafita e terras raras. Estimativas de consultorias internacionais apontam para crescimentos de dois dígitos ao ano em alguns desses mercados. Nesse cenário, o Brasil entra na mira de investidores em busca de novas fronteiras de exploração e de governos que querem diversificar fornecedores para reduzir a dependência da China.

Especialistas em política mineral defendem que o país precisa agir em três frentes. A primeira é fortalecer o SGB e as agências reguladoras para mapear com precisão as reservas, reduzir incertezas e negociar melhores condições com empresas. A segunda é investir em tecnologia de beneficiamento e refino, seja por meio de centros de pesquisa públicos, seja por meio de parcerias com a indústria. A terceira envolve políticas claras de repartição de benefícios, para que municípios minerados e populações atingidas não fiquem com apenas os impactos.

O desenho dessas políticas vai definir se o Brasil seguirá como fornecedor de matéria-prima barata ou se conseguirá disputar espaço em cadeias de maior valor agregado. A resposta envolve decisões de longo prazo em educação, pesquisa, infraestrutura e proteção ambiental. Enquanto o mundo corre para descarbonizar a economia, o país se vê diante de uma pergunta incontornável: quanto vale transformar sua vantagem mineral em riqueza duradoura, e a que preço para os territórios onde essa riqueza está enterrada.

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