Couto troca comando de Fazenda, Planejamento, Meio Ambiente e PGE no RJ
O governador Couto promove, nesta terça-feira (29), uma ampla troca no primeiro escalão do Rio de Janeiro. Exonera secretários de Fazenda, Planejamento, Meio Ambiente e o procurador-geral do Estado, e nomeia novos titulares para os cargos, em movimento que redesenha o núcleo duro da gestão.
Reforma silenciosa no coração do governo
As mudanças aparecem discretas no Diário Oficial do Estado, mas atingem o centro das decisões políticas e econômicas do Rio. Em uma mesma leva de atos, Couto afasta os responsáveis por três áreas estratégicas e troca o comando da Procuradoria-Geral do Estado, órgão que dá o aval jurídico às principais iniciativas do Palácio Guanabara.
O redesenho da equipe ocorre em um momento de pressão sobre as contas públicas e de cobrança por resultados concretos na área ambiental. O Rio ainda administra as amarras do Regime de Recuperação Fiscal, renegociado em 2023, e enfrenta disputas bilionárias sobre royalties de petróleo e dívidas com a União. Ao mesmo tempo, sofre com episódios recorrentes de enchentes, deslizamentos e ondas de calor, que exigem respostas rápidas e planejamento de longo prazo.
Nos bastidores, aliados do governador descrevem a mexida como um ajuste para “oxigenar” a máquina e acelerar decisões travadas em 2025. A avaliação é que algumas pastas perderam fôlego político e capacidade de entrega em projetos-chave, como a revisão de incentivos fiscais, a nova matriz de investimentos em infraestrutura e o pacote de concessões na área de saneamento.
Fazenda, Planejamento e Meio Ambiente ganham novos rumos
O comando da Fazenda é o mais sensível nessa engrenagem. A secretaria controla um orçamento que supera R$ 100 bilhões por ano e define, na prática, o ritmo de execução de programas sociais, obras e repasses para municípios. A troca de titular sinaliza, para o mercado e para o funcionalismo, uma tentativa de alinhar o caixa do Estado a um novo ciclo de prioridades políticas.
Interlocutores do governo afirmam que Couto cobra metas claras para reduzir o déficit estrutural e ampliar a capacidade de investimento já em 2027. A Fazenda passa a ter a missão de fechar acordos com credores, revisar gastos obrigatórios e avançar em medidas impopulares, como a revisão de benefícios fiscais concedidos nas últimas duas décadas. “Não há espaço para improviso nas contas públicas. O Rio precisa de previsibilidade”, diz um técnico próximo à equipe econômica.
O Planejamento, que organiza o orçamento plurianual e coordena obras e programas, também entra no pacote de mudanças. A secretaria lidera a elaboração das peças orçamentárias de 2027 e 2028, que devem ser enviadas à Assembleia Legislativa com projeções detalhadas de receitas, despesas e investimentos. A substituição no comando indica que o governador quer um desenho mais agressivo para destravar projetos em mobilidade, habitação e segurança, temas que dominam as pesquisas de opinião no Estado.
Na área ambiental, a troca vem em meio à pressão por respostas mais firmes às crises climáticas que atingem o Rio. Em 2024 e 2025, o Estado registra sucessivos alertas de risco máximo para chuvas intensas na região serrana e na Baixada Fluminense. Organizações da sociedade civil cobram metas concretas, com prazos definidos, para reduzir áreas de risco, recuperar mananciais e ampliar a fiscalização sobre desmatamento e ocupações irregulares. A mudança na pasta é lida como tentativa de aproximar governo, especialistas e municípios.
Procuradoria reforça blindagem jurídica do Palácio Guanabara
A nomeação de um novo procurador-geral do Estado completa o movimento. A PGE é responsável por defender o Rio em ações que envolvem cifras bilionárias, como disputas tributárias com grandes empresas, controvérsias sobre repasses federais e questões ligadas a concessões e parcerias público-privadas. A troca no comando ocorre enquanto o Estado discute, em Brasília, temas sensíveis, como a repartição de receitas do petróleo e o desenho de novos programas de ajuste fiscal.
Assessores próximos ao governador dizem que a orientação é reforçar a defesa jurídica das políticas prioritárias do governo, para reduzir o risco de derrotas em tribunais superiores. “A Procuradoria precisa estar preparada para sustentar decisões duras, mas necessárias, sobretudo nas áreas de orçamento e regulação ambiental”, afirma um integrante da cúpula jurídica, sob reserva. A expectativa é que o novo procurador-geral chegue com equipe afinada com o núcleo político e com experiência em contencioso complexo.
As mudanças tendem a repercutir na Assembleia Legislativa, onde deputados já cobram mais transparência nos dados fiscais e ambientais. Bancadas ligadas ao funcionalismo acompanham com atenção qualquer sinal de congelamento salarial ou cortes de benefícios, enquanto parlamentares da área ambiental pressionam por metas de redução de emissões e proteção de unidades de conservação até 2030. A forma como os novos titulares dialogam com a Alerj pode definir o ritmo de aprovação de projetos estruturantes nos próximos 12 meses.
No setor privado, empresários monitoram de perto a agenda da Fazenda e do Planejamento. Investidores querem clareza sobre regras tributárias, estabilidade regulatória e calendário de concessões. Consultores que atuam na área de infraestrutura estimam que o Rio pode destravar, até 2030, mais de R$ 40 bilhões em contratos de longo prazo, se conseguir alinhar planejamento, segurança jurídica e previsibilidade de receitas.
Pressão por resultados e expectativa por novas diretrizes
O governo trabalha com um horizonte de, no máximo, 90 dias para que os novos titulares apresentem planos detalhados de ação. A orientação é estabelecer metas mensuráveis, com prazos e indicadores públicos, para facilitar o acompanhamento pela sociedade e pelos órgãos de controle. Na Fazenda e no Planejamento, isso inclui cronogramas de ajuste fiscal, projeções de receita até 2030 e listas de projetos prioritários por região.
No Meio Ambiente, a cobrança recai sobre planos de prevenção a desastres e adaptação climática, especialmente em comunidades mais vulneráveis. Técnicos defendem que o Estado atualize, ainda em 2026, mapas de risco de deslizamentos e inundações, defina áreas que não podem mais receber novas construções e amplie a fiscalização sobre empreendimentos de alto impacto. O desafio é conciliar desenvolvimento econômico, pressão imobiliária e proteção de áreas verdes, em um território já marcado por ocupações históricas em zonas frágeis.
A forma como Couto conduz essa transição será um teste para a coesão política do governo. A recomposição do primeiro escalão mexe em espaços de poder ocupados por partidos, grupos empresariais e segmentos do funcionalismo. A reação desses atores, nas próximas semanas, indicará se a reforma administrativa fortalece ou tensiona a base de apoio do governador.
A publicação no Diário Oficial marca apenas o ponto de partida desse rearranjo. As próximas mensagens à Assembleia, os primeiros atos dos novos secretários e as decisões da PGE em casos de alto impacto vão revelar se a troca de nomes representa, de fato, uma mudança de rumo ou apenas uma reorganização de peças no mesmo tabuleiro.
