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Atlas da Violência expõe mapa extremo da criminalidade no Brasil

O novo Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) por Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, redesenha o mapa da criminalidade no país. O estudo mostra que 17 dos 20 municípios mais violentos estão no Nordeste e reforça um contraste cada vez mais agudo com cidades de São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais, que figuram entre as menos afetadas por homicídios.

Nordeste concentra extremos e amplia sensação de insegurança

A fotografia mais recente da violência no Brasil expõe um país em que o CEP ainda define drasticamente o risco de morrer de forma violenta. Em um recorte de municípios analisados, 17 dos 20 mais letais se espalham por estados nordestinos, com destaque para Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará, além do Amapá, que aparece fora do eixo principal, mas lidera taxas de homicídios estimados. A geografia da morte se concentra em áreas onde políticas públicas falham há décadas e onde o Estado costuma chegar tarde, quando chega.

O Atlas, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, combina dados oficiais de homicídios com levantamentos de percepção da população. Esse cruzamento ajuda a traduzir números frios em experiência cotidiana. Em média, 94% dos brasileiros dizem considerar suas cidades violentas, segundo o levantamento. A percepção não nasce do nada: pesquisas recentes mostram que 40% da população já sofreu algum tipo de violência ou crime, índice que reforça a erosão da confiança no espaço público.

Os pesquisadores destacam ainda um componente que costuma ficar à margem do debate político: o uso de álcool e drogas entre as vítimas. Em 53% das mortes violentas, há registro de consumo de substâncias antes do crime. O dado acende um alerta sobre a combinação de vulnerabilidade social, mercado ilegal e ausência de políticas de saúde voltadas à prevenção. Não se trata apenas de repressão policial, mas de um ambiente que multiplica riscos em bairros onde a presença do poder público é irregular.

A desigualdade regional aparece com clareza quando se observa o outro extremo do ranking. Os municípios com menores taxas de homicídios estimados se concentram no Sudeste e no Sul, sobretudo em São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais. São cidades que conseguiram, em ritmos diferentes, consolidar estruturas de segurança, redes de serviços públicos e algum grau de coordenação entre políticas sociais e policiamento. A violência não desaparece, mas se torna menos letal e menos presente na rotina dos moradores.

Dados transformam medo em pressão por políticas públicas

Os números divulgados agora chegam a um país em que metade da população declara não se sentir segura onde mora. Em bairros de grandes capitais nordestinas, o caminho até o ponto de ônibus exige cálculo de hora, trajeto e companhia. Em cidades médias do interior, o comércio antecipa o horário de fechamento quando circulam boatos de conflitos entre facções. O medo molda a rotina e distorce a economia local, afastando investimentos e restringindo a circulação de pessoas.

A nova edição do Atlas da Violência tende a alimentar a pressão sobre governos estaduais e prefeituras, sobretudo nas regiões mais afetadas. Gestores ouvidos por pesquisadores costumam apontar falta de recursos, legislação defasada e avanço do crime organizado como explicações para o cenário. O relatório, no entanto, insiste em outro ponto: onde há planejamento consistente, transparência de dados e continuidade de políticas, as curvas de homicídio cedem. A comparação entre municípios violentos e relativamente seguros sugere que improviso e descontinuidade cobram um preço alto.

O contraste entre Nordeste e estados como São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais amplia também o debate sobre desigualdade. Estados com maior arrecadação investem mais em tecnologia, inteligência policial e programas sociais de longo prazo. Nas áreas mais pobres, delegacias acumulam funções, perícias atrasam e a resolução de crimes permanece baixa. Quando a maioria das vítimas é jovem, negra e moradora de periferia, a sensação de abandono se torna estrutural. Para muitas famílias, o que a pesquisa registra como “homicídio” representa a interrupção de um projeto de ascensão que raramente passou da promessa.

Ao mesmo tempo, o dado de que 94% dos brasileiros enxergam suas cidades como violentas rompe qualquer ilusão de que se trata apenas de um problema localizado. A percepção generalizada de insegurança atinge também regiões com índices menores de homicídios. Mesmo em municípios considerados menos violentos, relatos de roubos, furtos e agressões alimentam a sensação de vulnerabilidade. A distância entre o número de assassinatos e o medo diário mostra como a violência, em suas diferentes formas, já faz parte da identidade do país.

Próximos movimentos e o desafio de transformar diagnóstico em ação

Os autores do Atlas da Violência defendem que os dados sirvam como base para planos específicos por município, e não apenas por estado. A leitura fina dos números permite identificar bairros críticos, faixas etárias mais expostas e fatores associados aos crimes, como disputas territoriais e ausência de equipamentos públicos. Em vez de ações genéricas, a aposta é em políticas de prevenção articuladas, que envolvam segurança, educação, saúde, assistência social e urbanismo. Sem esse tipo de coordenação, o risco é repetir ciclos de operações pontuais, seguidas por retornos rápidos da criminalidade.

O levantamento deve orientar também a destinação de verbas federais e estaduais para segurança pública e programas sociais. Municípios com taxas explosivas de homicídio tendem a entrar no radar de iniciativas emergenciais, mas especialistas alertam que respostas apressadas dificilmente mudam o quadro de forma duradoura. Investimentos em inteligência policial, proteção a testemunhas, combate à corrupção e reestruturação do sistema prisional aparecem como pontos sensíveis, ao lado de programas de reabilitação para usuários de álcool e drogas e atendimento psicológico para vítimas e familiares.

No plano político, o Atlas da Violência 2026 chega em um momento em que segurança pública domina pesquisas de opinião e campanhas eleitorais. Prefeitos, governadores e o governo federal são pressionados a apresentar resultados mensuráveis em prazos curtos, enquanto homicídios seguem concentrados em territórios historicamente negligenciados. O estudo coloca uma pergunta incômoda diante de autoridades e da sociedade: diante de um país em que 40% das pessoas já sofreram violência e 94% se sentem em cidades violentas, por quanto tempo ainda será possível tratar a segurança como resposta isolada da polícia, e não como política de Estado de longo prazo?

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