Advogado renuncia à defesa de Jairinho em solidariedade a colega
O advogado Sérgio Figueiredo renuncia, nesta terça-feira (26), à defesa de Jairo Souza Santos, o ex-vereador conhecido como Jairinho, no processo sobre a morte do menino Henry Borel. A decisão, anunciada no Rio de Janeiro, ocorre em solidariedade ao colega de defesa Fabiano Lopes, que sofre um infarto durante a preparação do júri popular e segue em recuperação. A saída de Figueiredo expõe a pressão sobre a equipe de defesa e adiciona uma nova camada de incerteza ao julgamento mais aguardado do Tribunal do Júri do Rio em 2026.
Renúncia em meio a tensão e disputa por calendário
A renúncia de Figueiredo acontece em conflito direto com a decisão de manter o julgamento na data prevista, apesar do problema de saúde de Lopes. A defesa vinha pressionando por um adiamento, sob o argumento de que a ausência de um dos principais advogados compromete o equilíbrio do júri e o direito de defesa de Jairinho. A negativa, ainda que não oficializada em todos os graus de recurso, pesa na decisão de Figueiredo de deixar o caso.
Nos bastidores, integrantes da defesa relatam um ambiente de exaustão e tensão crescente nas últimas semanas, com revisão de laudos, depoimentos e perícias que se acumulam desde 2021, quando o caso ganha dimensão nacional. A preparação para o júri envolve a leitura de milhares de páginas de processo e a reconstituição de uma madrugada de março de 2021, quando Henry, então com 4 anos, é levado já sem vida a um hospital da Zona Oeste. A acusação sustenta que o menino sofre agressões dentro do apartamento onde vivia com a mãe e com Jairinho; a defesa insiste em tese de morte acidental.
Defesa enfraquecida e pressão sobre o tribunal
A saída de Figueiredo, que atua em casos de grande repercussão há mais de 20 anos, deixa um vazio estratégico às vésperas do julgamento. O advogado vinha conduzindo parte central da linha de argumentação técnica da defesa, especialmente na contestação de laudos médicos e na tentativa de semear dúvidas sobre a dinâmica das lesões descritas pelos peritos. A renúncia obriga o tribunal a se debruçar outra vez sobre o calendário, sob risco de nulidades futuras se a defesa alegar prejuízo.
O gesto de solidariedade a Fabiano Lopes também tem peso simbólico. Ao se afastar, Figueiredo envia um recado sobre os limites da atuação em um caso submetido a forte escrutínio público e a uma agenda rígida do Judiciário. “Não é possível ignorar a saúde de quem está na linha de frente da defesa”, diz um interlocutor próximo à equipe, sob reserva. A avaliação é que manter o júri como se nada tivesse acontecido aprofundaria a narrativa de que a defesa enfrenta um terreno desigual em relação à acusação.
Risco de adiamento e disputa de narrativa
A renúncia deve alimentar pedidos formais de suspensão ou remarcação do júri, o que pode empurrar o julgamento para o segundo semestre de 2026 ou até para 2027, a depender da pauta do Tribunal do Júri. A legislação prevê a nomeação de um novo defensor, caso a defesa fique descoberta, mas a troca de advogado às vésperas do julgamento é vista por criminalistas como um fator de fragilidade. Um profissional que chega agora leva semanas para dominar autos que superam facilmente as 5 mil páginas, entre depoimentos, laudos complementares e decisões intermediárias.
O caso Henry Borel se transforma, desde 2021, em símbolo da cobrança por respostas mais rápidas em crimes contra crianças e em palco de disputa política. A prisão de Jairinho e da mãe de Henry, a professora Monique Medeiros, ocorre ainda naquele ano; o processo, porém, se arrasta por mais de cinco anos até a instalação do júri. Ao mesmo tempo, a defesa acusa o sistema de ceder à pressão das redes sociais e de movimentos de rua que pedem punição exemplar. A renúncia de Figueiredo reforça essa narrativa de desgaste e aponta para uma etapa ainda mais litigiosa.
Credibilidade do julgamento em jogo
A forma como o Tribunal de Justiça do Rio administra a saída do advogado passa a ser observada com lupa por entidades de defesa de direitos humanos e associações da magistratura. O desafio é manter o compromisso de dar uma resposta célere à família de Henry e à sociedade, sem atropelar garantias básicas da defesa. Se o tribunal insistir em seguir com o júri sem recompor plenamente a equipe de Jairinho, abre-se espaço para questionamentos futuros em instâncias superiores, inclusive nos tribunais de Brasília.
A repercussão nacional do caso, alimentada por transmissões ao vivo de cada audiência e por cobertura diária em telejornais e portais, amplia a pressão sobre todos os atores do processo. A renúncia de um advogado experiente, em solidariedade a um colega que sofre um infarto, cristaliza essa tensão. Nas próximas semanas, o tribunal terá de decidir se ajusta o calendário, se nomeia um defensor dativo ou se aguarda a indicação de um novo advogado particular por Jairinho. A resposta a essas escolhas definirá não apenas o ritmo do julgamento, mas a percepção pública sobre a integridade do caso Henry Borel.
