Ataques a Rodrigo Constantino expõem racha na base bolsonarista
Rodrigo Constantino vira alvo de uma ofensiva bolsonarista nas redes nesta sexta-feira (22), após criticar Flávio Bolsonaro em meio à crise do Banco Master. O racha, antes contido nos bastidores, ganha nomes, datas e endereços. A troca de acusações expõe fissuras profundas num dos núcleos mais influentes da direita brasileira.
Crise do Banco Master detona reação em cadeia
A faísca aparece quando vêm a público os vínculos de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, instituição hoje no centro de investigações e questionamentos. Constantino, ex-comentarista da Jovem Pan e antigo aliado fiel do bolsonarismo, decide criticar o senador nas redes. O gesto, pontual em aparência, vira senha para uma reação organizada.
O jornalista começa a questionar a relação de Flávio com o empresário e o círculo financeiro que se forma em torno do banco. A crítica contrasta com anos de defesa automática do clã Bolsonaro e chama a atenção de militantes e influenciadores. Em poucas horas, a linha que separava divergência e hostilidade se rompe.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), um dos principais articuladores da direita bolsonarista e atualmente nos Estados Unidos, assume a linha de frente dos ataques. No X, responde a Constantino depois de ser chamado de imaturo, adjetivo que o jornalista atribui a uma mensagem privada de Jair Bolsonaro em um grupo familiar. Eduardo devolve em público: “Você é um frouxo incoerente”. Em outra postagem, ironiza: “Só estou perguntando. Achei que você estivesse gostando da brincadeira, mas pelo visto é um frouxo incoerente”.
A troca de acusações rompe o verniz de unidade mantido desde 2018. Desta vez, a divergência não trata de estratégia eleitoral ou de pauta ideológica, mas de dinheiro, influência e suspeitas ligadas ao sistema financeiro. É nesse ponto que a crise do Banco Master deixa de ser apenas um escândalo setorial e passa a afetar diretamente a hierarquia do bolsonarismo.
De aliado orgânico a “traidor” em 280 caracteres
A guinada de Constantino alimenta uma disputa de narrativas. Em poucos dias, o comentarista que apoiou Jair Bolsonaro, defendeu o governo em crises sucessivas e atacou adversários de esquerda vira alvo dos mesmos rótulos que ajudou a consolidar. Nas respostas às suas postagens, ele passa a ser chamado de “esquerdista”, “lulista”, “comunista” e “traidor”.
Marcelo Brigadeiro, influenciador e lutador ligado ao bolsonarismo, sintetiza a cobrança. “O Constantino está, nos últimos dias, fazendo críticas certeiras ao bolsonarismo. O único detalhe é que ele está criticando TUDO aquilo que ele defendia até semana passada”, escreve. A frase encontra eco entre perfis que veem na mudança de tom uma tentativa tardia de reposicionamento político.
Constantino responde em linha direta: “Não tinha caso Master”. A frase, seca, tenta marcar um divisor de águas. Segundo ele, o limite não está nas polêmicas conhecidas de Flávio Bolsonaro, mas na nova crise financeira. Usuários lembram, porém, que o senador já encara, há anos, acusações de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio, a compra de cerca de 60 imóveis e a participação na “melhor loja de chocolate do Rio de Janeiro”, caso que virou símbolo do suposto enriquecimento imobiliário da família.
A crítica, desta vez, não vem apenas da esquerda. Perfis contrários ao bolsonarismo ironizam o que veem como “conversão tardia”. À direita, influenciadores reclamam de “ingratidão” e “oportunismo”. O resultado é um campo de batalha digital em que antigos aliados deixam de se proteger e passam a expor detalhes de conversas privadas, bastidores de campanhas e disputas por espaço em veículos de comunicação.
Porciúncula, Paulo Figueiredo e o dinheiro nos Estados Unidos
O conflito não se limita aos filhos de Bolsonaro e chega ao entorno financeiro e cultural do grupo. André Porciúncula, ex-secretário da Cultura no governo Jair Bolsonaro e aliado de Eduardo, entra na linha de tiro. Seu nome aparece associado a um fundo no Texas, administrado por Paulo Calixto, que teria recebido recursos ligados ao filme “Dark Horse”. O episódio adiciona dólares e títulos de investimento a uma disputa que já parecia explosiva.
Porciúncula declarou R$ 164 mil em patrimônio ao Tribunal Superior Eleitoral em 2024, quando concorreu a vereador em Salvador. Hoje se apresenta como proprietário da casa onde Eduardo Bolsonaro mora nos Estados Unidos, avaliada em quase R$ 4 milhões, segundo críticos nas redes. Um perfil afirma: “Incrível a ascensão financeira dele né… ele havia declarado pro TSE pouco mais de 150 mil em patrimônio e da noite pro dia ele compra uma casa de quase 4 milhões… tá estranho demais”.
O ex-secretário reage e responsabiliza Constantino pelo desgaste. “Gostaria de agradecer ao Rodrigo Constantino por me difamar gratuitamente nas redes sociais e contribuir para que o regime de exceção mais uma vez se voltasse contra mim”, escreve. A fala tenta enquadrar as críticas como perseguição política e não como suspeita legítima sobre evolução patrimonial.
Paulo Figueiredo, influenciador de direita e parceiro político de Eduardo, entra em defesa de Porciúncula e ataca o jornalista. “Impressionante ver a decadência! Conheço o André Porciúncula. Já estive nesta casa. Vive uma vida muito mais modesta que a do seu detrator. Não há limites? Difamar um inocente e colocá-lo sob investigação criminal por mera divergência política? Chamá-lo de laranja? Que feio”, afirma. A disputa, que nasce na crítica a Flávio e ao Banco Master, agora envolve acusações de “laranja” e pressões por investigação criminal.
Racha da direita testa força eleitoral do bolsonarismo
A crise ocorre a pouco mais de dois anos das eleições municipais de 2028 e em meio à tentativa do bolsonarismo de preservar capital político após derrotas e investigações. O grupo depende de uma imagem de coesão para manter influência em pautas como segurança pública, costumes e contestação ao governo federal. A briga pública em torno de dinheiro, imóveis e vínculos com o Banco Master ameaça essa narrativa.
O desgaste tem efeito imediato na militância digital, principal ativo da família Bolsonaro. Influenciadores divididos enfraquecem campanhas coordenadas, reduzem o alcance de hashtags e confundem eleitores que acompanham a política pelas redes. A reação a Constantino funciona como mensagem interna: desviar do discurso oficial pode ter custo pessoal alto, inclusive para quem ajudou a construir o projeto.
O outro lado vê oportunidade. Partidos de oposição e grupos de esquerda tentam explorar o racha para reforçar suspeitas sobre a origem de recursos que financiam viagens, imóveis e estruturas de comunicação da direita radical. A ligação com o Banco Master, que já mobiliza órgãos de controle, ganha peso simbólico ao envolver um senador da República, ex-integrantes do governo e influenciadores com audiência de milhões.
As próximas semanas devem combinar investigações formais e guerra de versões nas redes. Constantino, agora rotulado como “traidor” por antigos aliados, tenta se reposicionar como crítico de um sistema que ajudou a legitimar. A família Bolsonaro, pressionada por denúncias simultâneas no Brasil e por suspeitas sobre negócios no exterior, corre para conter danos e reordenar a tropa. A pergunta que fica é se esse racha marca apenas um desentendimento passageiro ou o início de uma reconfiguração mais profunda na direita brasileira.
