Ataque israelense mira novo líder militar do Hamas e mata civis em Gaza
Israel ataca nesta terça-feira (26) o palestino Mohammad Odeh, apontado como novo chefe militar do Hamas, em um bombardeio que atinge um prédio residencial em Gaza. O ataque mata ao menos três civis e fere mais de 20 pessoas, em meio à escalada da pressão militar israelense na Faixa e à expansão das operações no Líbano.
Bombardeio em área residencial eleva tensão em Gaza
O alvo da ofensiva é Mohammad Odeh, descrito por autoridades israelenses como novo comandante do braço armado do Hamas. O ataque destrói o andar superior de um edifício no bairro de Rimal, na Cidade de Gaza, região que ainda concentra parte da infraestrutura administrativa e comercial do enclave.
Autoridades de saúde locais informam que três pessoas morrem, entre elas uma mulher, e mais de 20 ficam feridas. Equipes de resgate trabalham entre escombros de concreto e ferragens retorcidas em busca de sobreviventes, enquanto moradores tentam retirar pertences em meio à fumaça e ao cheiro de queimado.
O Exército de Israel confirma a operação e afirma ter atacado Odeh, mas não diz se ele está entre as vítimas. O Hamas não se pronuncia até o fim da tarde, mantendo o grau de incerteza sobre o destino do dirigente e alimentando especulações em Jerusalém, Gaza e capitais árabes.
O bombardeio ocorre no fim de um dia marcado por anúncios de expansão das operações terrestres israelenses no sul do Líbano. Tanques e artilharia avançam posições na fronteira, em resposta a disparos de foguetes e drones de grupos aliados ao Hamas, o que reforça a percepção de que Israel abre várias frentes de pressão simultânea.
Liderança do Hamas sob ataque e impasse na trégua
O governo de Binyamin Netanyahu apresenta Odeh como peça-chave da máquina militar do Hamas desde antes da guerra atual. Segundo o premiê, o palestino chefiava a divisão de inteligência do grupo no ataque de 7 de outubro de 2023, quando milicianos invadem o sul de Israel e matam cerca de 1.200 pessoas, de acordo com contagem israelense.
Netanyahu afirma que Odeh assume a chefia militar do Hamas “há cerca de uma semana”, após a morte de Izz al-Din al-Haddad, comandante do braço armado, morto por Israel em 15 de maio. Pessoas próximas ao Hamas, porém, não confirmam a nomeação, embora reconheçam que ele é visto como um dos principais sucessores possíveis de al-Haddad e, possivelmente, o último integrante vivo do conselho superior de liderança militar.
O ataque desta terça insere-se em uma campanha contínua contra a cúpula do grupo. Israel tenta, assim, mostrar capacidade de atingir a cadeia de comando mesmo sob a trégua firmada em outubro de 2023, que reduz o ritmo dos combates, mas não os encerra. Desde então, Israel mantém o controle de mais da metade da Faixa de Gaza, enquanto o Hamas retém uma estreita faixa costeira densamente povoada.
O cessar-fogo parcial prevê uma segunda fase, ainda travada, que inclui o desarmamento gradual do Hamas e a retirada do Exército israelense de zonas urbanas de Gaza. Negociações indiretas mediadas por potências regionais patinam há meses. Israel acusa o grupo de arrastar as conversas para ganhar tempo e se rearmar; o Hamas afirma que a proposta atual mantém a ocupação e não garante segurança para a população palestina.
Enquanto diplomatas discutem, a guerra segue em ritmo mais baixo, mas constante. Autoridades de saúde de Gaza calculam que cerca de 900 palestinos morrem em ataques israelenses desde a entrada em vigor da trégua, número que não distingue civis de combatentes. Israel registra, no mesmo período, a morte de quatro soldados em ações de grupos armados, segundo o Exército.
Escalada em múltiplas frentes e riscos futuros
A ofensiva contra Odeh reforça a estratégia israelense de atacar quadros de comando em áreas civis, mesmo sob risco de danos colaterais significativos. Israel diz que suas operações após o cessar-fogo têm como objetivo impedir novos ataques e manter afastados civis e militantes da chamada linha amarela, o limite interno que separa, dentro da Faixa, as regiões sob controle de Israel e do Hamas.
O custo humano, porém, se acumula. Desde o início da guerra, em 2023, mais de 72 mil habitantes de Gaza morrem em consequência de ataques israelenses, a maioria civis, segundo autoridades de saúde locais. Hospitais operam acima da capacidade e dependem de geradores para manter equipamentos básicos, enquanto bairros inteiros são reduzidos a ruínas e tendas.
O ataque desta terça também envia recado político. Ao mirar quem Israel diz ser o novo chefe militar do Hamas sem confirmar o resultado da operação, Netanyahu sinaliza que não reconhece segurança alguma à liderança do grupo, nem sob trégua. “Qualquer um que participe da máquina de terror será um alvo”, tem repetido o premiê em declarações recentes, reforçando a ideia de guerra prolongada.
Analistas na região avaliam que uma eventual morte de Odeh pode desorganizar temporariamente a estrutura militar do grupo, mas dificilmente encerra a capacidade de resposta. Experiências anteriores mostram que o Hamas costuma repor lideranças com rapidez e dispersar seus quadros para reduzir o impacto de ataques seletivos.
Negociadores alertam para o risco de represálias. Um ataque bem-sucedido contra a cúpula do Hamas tende a levar a novos disparos contra cidades israelenses próximas a Gaza e a ações de grupos aliados no Líbano e na Síria. Isso pode empurrar o conflito para um novo ciclo de escalada, com impacto direto sobre civis em ambos os lados da fronteira.
Em Gaza, moradores aguardam notícias sobre o paradeiro de Odeh sob o som de drones e aviões que continuam a sobrevoar a Faixa. Em Tel Aviv, o governo aposta na pressão militar combinada a negociações duras para arrancar um acordo que enfraqueça de forma duradoura o Hamas. A resposta do grupo e o desfecho do ataque de hoje ajudarão a definir se a trégua cambaleante sobrevive ou se a região entra em uma nova fase da guerra.
