Ultimas

Após ataques, Rubio prevê dias de negociação para acordo EUA-Irã

O senador republicano Marco Rubio afirma nesta terça-feira (26) que um possível acordo entre Estados Unidos e Irã para o Estreito de Ormuz ainda deve levar “alguns dias” para sair, após ataques de autodefesa dos EUA contra alvos iranianos na região estratégica. As declarações ocorrem enquanto diplomatas dos dois países se reúnem em Doha, no Catar, sob a pressão direta do presidente Donald Trump por um entendimento rápido — e sob a ameaça de novos bombardeios caso as conversas fracassem.

Tensão cresce após ataques no Estreito de Ormuz

Rubio fala a bordo de um avião militar, entre compromissos de uma viagem oficial à Índia, horas depois de o Pentágono confirmar novos ataques contra locais de lançamento de mísseis e embarcações iranianas ao redor do Estreito de Ormuz. A faixa de água, com pouco mais de 50 quilômetros em seu ponto mais estreito, concentra cerca de um quinto do petróleo negociado no mundo e se torna, mais uma vez, o epicentro da disputa entre Washington e Teerã.

O senador descreve um processo de negociação minucioso, com avanços lentos e disputas semânticas em cada parágrafo do documento. “Vai levar alguns dias para as coisas se acalmarem… até mesmo as divergências sobre uma palavra, uma frase”, diz a repórteres que o acompanham. “Vamos ter que resolver isso.”

Rubio reforça que a Casa Branca pretende esgotar a via diplomática antes de cogitar uma nova escalada militar. “Os estreitos precisam estar abertos, eles vão estar abertos de um jeito ou de outro, então precisam estar abertos”, afirma. A frase resume a posição americana: o fluxo de navios cargueiros e petroleiros não é negociável, mesmo em meio a um cessar-fogo frágil, em vigor há cerca de três meses de guerra.

Em Teerã, autoridades ainda evitam declarações formais sobre os ataques mais recentes. A imprensa estatal iraniana, porém, classifica as operações dos EUA como uma violação direta do cessar-fogo mediado por países do Golfo. Tropas americanas e iranianas já haviam trocado tiros em ao menos dois episódios anteriores desde o início da trégua, o que expõe a fragilidade do acordo.

No dia anterior, em 25 de maio, o Irã informa ter abatido um drone furtivo “hostil” usando um novo sistema de defesa aérea. As agências de notícias do país não detalham a origem da aeronave, mas a divulgação funciona como recado: o país se diz pronto para responder a novas incursões militares na região.

Diplomacia sob pressão em Doha e impacto global

Enquanto mísseis cruzam o céu de Ormuz, o centro da decisão se desloca para Doha. O principal negociador iraniano e o ministro das Relações Exteriores do país participam de reuniões com o primeiro-ministro do Catar em busca de um arranjo com os EUA para encerrar o conflito. A guerra já se estende por três meses e reconfigura rotas de navios, contratos de fornecimento e planos de investimento de grandes petrolíferas.

Rubio diz ver “algo bastante concreto em cima da mesa”, em referência às conversas conduzidas pelo Itamaraty americano e por diplomatas do Golfo. O pacote incluiria a reabertura plena do estreito ao tráfego comercial e uma “negociação muito real, significativa e com prazo determinado sobre a questão nuclear”. Em outras palavras, Washington quer atrelar a segurança marítima a um calendário rígido para discutir o programa atômico iraniano.

A estratégia mira dois alvos ao mesmo tempo. De um lado, tenta-se estabilizar o fluxo diário de barris de petróleo que deixam a região, pilar da economia energética global. Do outro, a Casa Branca busca retomar, com novas condições, o debate sobre enriquecimento de urânio e inspeções internacionais, tema que já provoca atritos há mais de uma década. Investidores acompanham cada sinal de avanço ou recuo, atentos à possibilidade de que o barril do tipo Brent, hoje na casa de dezenas de dólares, volte a disparar com qualquer interrupção prolongada nas exportações.

Trump, que disputa espaço político interno em ano de campanha permanente, usa a própria rede social para pressionar as partes. Em publicação no Truth Social, na segunda-feira (25), o presidente afirma que as negociações com o Irã vão “bem”, mas reforça a linha dura. “Só haverá um Grande Acordo para todos, ou nenhum acordo”, escreve. A mensagem ecoa nas delegações em Doha e funciona como lembrete de que o relógio político em Washington corre mais rápido que o cronograma de diplomatas no Golfo.

A visão iraniana ainda aparece de forma fragmentada. O governo tenta equilibrar o discurso interno de resistência com a necessidade de aliviar sanções, retomar exportações e reconstruir infraestrutura danificada pela guerra. Analistas regionais lembram que, sem acesso pleno ao Estreito de Ormuz, o Irã perde sua principal ferramenta de pressão, mas também compromete a própria arrecadação, em um país que depende fortemente da venda de hidrocarbonetos.

Risco de nova escalada e o que está em jogo

No campo militar, os Estados Unidos definem os ataques da última rodada como ações “de autodefesa”, voltadas a neutralizar mísseis apontados para navios mercantes. O Irã, por sua vez, enxerga agressão e colhe respaldo em parte do mundo árabe, que teme uma presença ainda maior de tropas americanas na região. Um incidente mal calculado, um radar que falha ou um disparo isolado podem transformar a atual guerra limitada em um conflito regional aberto, com impacto direto em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque.

O estreito funciona como gargalo da economia global. Se navios deixam de cruzar a via por alguns dias, seguradoras elevam prêmios, companhias de navegação repensam rotas e governos acionam reservas estratégicas de petróleo e gás. Em prazos mais longos, empresas podem adiar projetos bilionários, rever planos de transição energética e repassar custos para o consumidor final. O conflito entre EUA e Irã, antes visto como disputa localizada, transborda para bombas de combustível, contas de luz e inflação em capitais distantes, de São Paulo a Tóquio.

Rubio insiste que a diplomacia terá todas as chances antes que Washington “lidere com o Irã de outra maneira”. A formulação abre espaço para múltiplas leituras, de novas rodadas de sanções econômicas a operações militares mais amplas, caso as reuniões em Doha não produzam um texto aceitável para ambos os lados nos próximos dias. O prazo é impreciso, mas negociadores falam em janelas de 48 a 72 horas para transformar intenções em rascunhos e rascunhos em um acordo preliminar.

Os próximos movimentos de Teerã, Washington e Doha definem se o Estreito de Ormuz volta a uma normalidade relativa ou entra em um ciclo de fechamentos intermitentes, ataques cirúrgicos e contra-ataques. A diplomacia tenta ganhar tempo e escrever cada linha de um documento que precisa ser robusto o bastante para conter a pressão de falcões dos dois lados. A dúvida que permanece, a três meses do início da guerra, é se haverá vontade política para sustentar esse acordo quando o ruído das armas diminuir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *