Alcolumbre segura PEC do fim da escala 6×1 e testa força de Lula
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, passa a concentrar em sua mesa, a partir de 1º de junho de 2026, a agenda mais sensível do governo Lula no Congresso. Depois de aprovada na Câmara, a PEC que põe fim à escala 6×1 para servidores públicos chega ao Senado em meio ao maior desgaste na relação entre o Planalto e o comando da Casa desde o início do mandato.
Alcolumbre vira fiador (ou travador) da pauta de Lula
A votação da PEC na Câmara, concluída às pressas na noite anterior, abre uma nova etapa da disputa de poder em Brasília. Projetos estratégicos do governo, que somam dezenas de bilhões de reais em impacto orçamentário nos próximos anos, passam a depender diretamente da disposição de Alcolumbre em pautar, negociar e colocar em votação cada texto. No centro desse pacote está a proposta que derruba a lógica da escala 6×1, que obriga o servidor a trabalhar seis dias seguidos para folgar apenas um.
Assessores do Planalto admitem, em conversas reservadas, que a relação com o presidente do Senado vive “o pior momento” desde 2023. A leitura é que Alcolumbre usa o acúmulo de projetos sensíveis como instrumento de pressão política. “O Senado virou o gargalo da agenda”, resume um interlocutor do governo, sob condição de anonimato. Alcolumbre evita confronto público, mas dá sinais de que não pretende correr com as votações sem contrapartidas claras.
O que muda com o fim da escala 6×1
A PEC aprovada na Câmara altera de forma profunda a rotina de trabalho de milhares de servidores em áreas como saúde, segurança, fiscalização e atendimento direto à população. Hoje, em muitos hospitais públicos e unidades de pronto-atendimento, médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem cumprem jornadas que podem chegar a 60 horas semanais, distribuídas em seis dias de trabalho para um de descanso. Com a mudança, a regra passa a exigir mais dias de folga proporcionais à carga horária, aproximando o regime público do padrão de 40 horas semanais com dois dias de descanso adotado na maior parte da iniciativa privada.
Entidades de servidores calculam que, nos setores mais pressionados, a redução efetiva da exposição contínua ao trabalho pode chegar a 20% em plantões noturnos e fins de semana. “É uma mudança civilizatória. Ninguém presta um serviço de qualidade trabalhando exausto, mês após mês”, diz um dirigente sindical ouvido pela reportagem. Governadores e prefeitos, porém, alertam para o risco de aumento de custos. Em nota recente, um fórum de gestores estaduais estimou que a substituição da escala 6×1 por escalas mais amplas de descanso pode exigir, em alguns estados, a contratação adicional de até 15% de pessoal em áreas críticas para manter o mesmo nível de atendimento.
Pressão orçamentária e sinal político
No governo federal, a equipe econômica acompanha a tramitação com calculadora na mão. Técnicos falam em impacto potencial bilionário ao longo de cinco anos, somando a necessidade de mais contratações, pagamento de adicionais e reorganização de turnos. O Planalto, porém, vê um ganho político simbólico relevante. Em ano pré-eleitoral, a mensagem é de valorização do servidor que enfrenta jornadas extenuantes em hospitais, delegacias, aeroportos e fronteiras. “Estamos falando de quem mantém o Estado de pé, muitas vezes na madrugada, em condições duríssimas”, afirma um auxiliar de Lula.
A aprovação na Câmara, por larga margem, é lida na Esplanada como demonstração de que a base governista ainda se articula quando há prioridade clara. O recado, agora, é endereçado diretamente a Alcolumbre. Ao concentrar em suas mãos a PEC da escala 6×1 e outros textos estratégicos, o presidente do Senado ganha poder para redesenhar o ritmo da agenda legislativa e cobrar espaço político, cargos e influência regional. A relação com Lula, já desgastada por desacordos na distribuição de emendas e na ocupação de postos-chave em estatais, entra em um ponto de tensão maior.
Negociações, riscos e próximos capítulos
No plenário do Senado, a PEC precisa passar por dois turnos de votação, com apoio de ao menos 49 dos 81 senadores em cada etapa. Líderes estimam que, se Alcolumbre decidir acelerar, o texto pode ser concluído em até 30 dias, com promulgação ainda no segundo semestre de 2026. Se optar por segurar, a proposta pode ser fatiada, alterada ou simplesmente esquecida na gaveta da Comissão de Constituição e Justiça, que ele controla com mão firme.
Para o governo, o calendário é crucial. Cada mês de atraso reduz a margem para implementar a nova regra e organizar concursos, reposições de quadro e ajustes na prestação de serviços antes de 2027. Sindicatos já preparam campanhas de pressão sobre senadores, com atos em Brasília e nas bases eleitorais, para tentar evitar que a PEC se transforme em moeda de troca nas negociações políticas. Alcolumbre, por sua vez, mede o tempo, atento ao custo de ser visto como obstáculo a uma mudança que beneficia diretamente uma parcela numerosa e organizada do funcionalismo. A resposta definitiva sobre o rumo da PEC e dos demais projetos estratégicos do governo, no entanto, só virá quando ele decidir o que entra ou não na pauta do Senado.
