Durigan vê risco ao Pix após EUA rotularem PCC e CV como terroristas
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, alerta nesta segunda-feira (1º/6/2026) para o risco de a decisão dos Estados Unidos sobre o PCC e o Comando Vermelho contaminar a imagem do Pix. Ele teme sanções a bancos brasileiros e pressões sobre o sistema de pagamentos instantâneos, hoje peça central da soberania financeira do país.
Pressão externa sobre o coração dos pagamentos no Brasil
Durigan reage à decisão do governo norte-americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. A leitura no Ministério da Fazenda é que o rótulo, ainda que dirigido às facções, abre espaço para suspeitas de que o crime organizado se vale do Pix de forma estruturada, o que colocaria o sistema brasileiro sob desconfiança no exterior.
Em entrevista à rádio CBN, o ministro descreve o Pix, lançado em novembro de 2020 e hoje com centenas de milhões de chaves ativas, como “o maior símbolo de soberania financeira do Brasil”. A preocupação dele é que a nova ofensiva dos EUA contra o crime transnacional se traduza em sanções a bancos e bloqueios financeiros, mesmo sem provas robustas de uso sistemático da ferramenta pelas facções. “Não podemos ficar presos ao risco de uma intervenção ou subserviência que nos tira do caminho da inovação e da geração de uma infraestrutura segura de pagamento às nossas empresas e famílias”, afirma.
Risco de sanções a bancos e efeito em cadeia no sistema
O alerta de Durigan se apoia em precedentes recentes. Ele cita o caso do México, onde o Departamento de Justiça dos Estados Unidos move ações contra instituições financeiras e leva ao fechamento de três bancos após identificar supostas ligações com grupos apontados como terroristas. Para o ministro, basta uma acusação mal calibrada para que o Tesouro norte-americano decida restringir operações de um banco brasileiro.
“Se houver uma alegação dizendo que determinado banco brasileiro tem contas de membros do PCC, a autoridade norte-americana pode sancionar esse banco pelo Tesouro norte-americano e impedir ele de operar com o Pix”, explica. Embora o Pix seja um sistema doméstico, controlado pelo Banco Central, a maior parte dos grandes bancos trabalha com financiamento externo, captações em dólar e operações de comércio internacional. Um bloqueio nos Estados Unidos, mesmo que parcial, tem potencial de contaminar a liquidez, encarecer o crédito e afetar diretamente milhões de clientes que usam o Pix todos os dias para pagar salário, aluguel, contas básicas e compras de pequeno valor.
Decisão sob suspeita política e disputa de narrativa
As declarações de Durigan se inserem em um ambiente mais amplo de atrito entre Brasília e Washington. O governo brasileiro enfrenta uma investigação aberta pelos Estados Unidos com base na chamada Seção 301, dispositivo da legislação de comércio norte-americana usado para apurar supostas práticas desleais. No pacote de questionamentos, entram o Pix, o comércio popular na Rua 25 de Março, o desmatamento e condições de trabalho no país.
Para o ministro, o inquérito tem menos a ver com padrões técnicos e mais com pressões políticas internas nos EUA. “Ela tem um caráter político, muito mais do que técnico. Temos prestado esclarecimentos e participado de conferências e audiências com os técnicos norte-americanos, que reconhecem que essas questões já foram esclarecidas em outras ocasiões”, diz. Durigan vê uma costura entre a ofensiva comercial, a designação de facções como terroristas e a movimentação de grupos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro junto a parlamentares e autoridades estrangeiras.
“A Seção 301 aponta supostas questões comerciais envolvendo a Rua 25 de Março, o Pix, o desmatamento e condições precárias de trabalho no Brasil. São argumentos forçados. Em paralelo a isso, a gente vê a movimentação da família Bolsonaro com relação à designação de organizações que causam terror no Brasil. É uma forçação de barra sem fim”, acusa o ministro, ao tentar enquadrar o episódio como parte de uma disputa de narrativa sobre o país e seu sistema financeiro.
Incerteza para bancos, usuários e relações bilaterais
A tensão cria um cenário de incerteza para bancos e empresas de meios de pagamento. A simples perspectiva de que instituições brasileiras possam enfrentar barreiras em operações em dólar já preocupa o mercado. Executivos ouvidos reservadamente por integrantes da equipe econômica apontam o risco de instituições estrangeiras reverem linhas de financiamento e parcerias tecnológicas, caso o Brasil seja visto como ambiente vulnerável ao financiamento de terrorismo, ainda que essa leitura não encontre respaldo em dados oficiais.
O temor do governo é que a desconfiança contamine o Pix, responsável por uma fatia crescente das transações no varejo e por substituir, na prática, operações de TED, DOC e até parte dos pagamentos em espécie. Em pouco mais de cinco anos, o sistema se torna o principal canal de circulação de dinheiro entre pessoas físicas e pequenas empresas, reduz custos para o comércio e amplia a bancarização. Uma eventual restrição que afaste bancos internacionais ou provoque sobrecarga regulatória sem coordenação com o Banco Central pode travar inovações em curso e atrasar a agenda de inclusão financeira.
Governo aposta em diálogo direto com Washington
Para tentar conter danos, o Planalto e o Ministério da Fazenda planejam uma ofensiva diplomática. Durigan afirma que deve entrar em contato nesta semana com autoridades dos Estados Unidos para “esclarecer o que está acontecendo” e reforçar o discurso de que o Brasil não tolera facções criminosas. Ele lembra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se apresenta, desde o início do mandato, como defensor de uma cooperação mais dura no combate ao crime organizado e ao fluxo internacional de armas e dinheiro ilícito.
O governo aposta em reuniões técnicas e políticas para evitar que a classificação de PCC e CV como terroristas se converta em restrições automáticas a bancos brasileiros ou em suspeitas generalizadas sobre o Pix. Nos bastidores, a avaliação é que a resposta precisa ser rápida para afastar o risco de decisões unilaterais de empresas e organismos internacionais, sempre sensíveis a sanções dos EUA. Enquanto o diálogo não avança, fica em aberto a pergunta que hoje inquieta Brasília e o mercado financeiro: até onde a disputa política em Washington pode ir sem atingir um dos pilares da infraestrutura de pagamentos do Brasil.
