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Japão cria agência e pede estocar alimentos para 7 dias de crise

Medida visa preparar famílias para situações de emergência com estoques domésticos essenciais.

Japão cria agência e pede estocar alimentos para 7 dias de crise

O governo do Japão colocou em operação nesta segunda-feira (2) a Agência Nacional de Gestão de Desastres, com mais de 350 funcionários sob comando da primeira-ministra Sanae Takaichi, e, junto com o novo órgão, reforçou a orientação para que famílias estoquem água, alimentos e remédios suficientes para até uma semana em casa.

A recomendação mira terremotos de grande escala na Fossa de Nankai e na região de Tóquio e uma possível erupção do Monte Fuji, cenários que podem interromper por vários dias o fornecimento de água, energia, transporte e o acesso a mercados.

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Por que o Japão está orientando a população a estocar água e alimentos?

O Japão orienta o estoque doméstico porque as autoridades consideram provável que um grande desastre deixe parte da população sem abastecimento regular por mais de uma semana.

Estimativas oficiais usadas no planejamento apontam que um terremoto ligado à Fossa de Nankai poderia causar até 298 mil mortes e deslocar milhões de pessoas. Um impacto dessa escala tende a sobrecarregar hospitais, redes de transporte e logística de alimentos.

Ao anunciar a nova agência, Sanae Takaichi afirmou que “a proposta é integrar as medidas de prevenção, atendimento à população e reconstrução, além de melhorar a capacidade de resposta do país diante de eventos de grandes proporções”. O ministro Goshi Hosono supervisiona a estrutura.

O Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca orienta que cada família mantenha aproximadamente três litros de água por pessoa ao dia, considerando consumo e preparo de alimentos, por até sete dias. A conta, para uma casa com quatro pessoas, chega a 84 litros de água reservados.

O governo também recomenda estoques de alimentos não perecíveis – como enlatados, alimentos desidratados, arroz, massas, barras de cereais e leite em pó –, além de medicamentos de uso contínuo, lanternas, pilhas, rádio a baterias, itens de higiene e produtos para bebês, idosos e pessoas com deficiência.

Como o governo japonês está orientando as famílias a se prepararem para terremotos e tsunamis?

As autoridades japonesas pedem que cada casa mantenha um plano de emergência que combine estoque, adaptação da residência e rotas de fuga.

O pacote de recomendações inclui:

– Fixar móveis pesados, como estantes e armários, para reduzir o risco de esmagamento durante tremores;
– Verificar e treinar rotas de evacuação até abrigos seguros em caso de terremotos, tsunamis e deslizamentos;
– Preparar mochilas de emergência com documentos, remédios, água, alimentos leves, lanternas e rádios portáteis;
– Acompanhar alertas oficiais emitidos por autoridades locais.

O Ministério da Agricultura incentiva o uso do sistema conhecido como rolling stock, definido pelo órgão como um método para manter reservas sem compras gigantescas de uma só vez. “O sistema rolling stock consiste em comprar produtos extras utilizados no cotidiano, consumir primeiro os mais antigos e repor os itens retirados”, explica a pasta.

Com isso, famílias vão renovando os mantimentos no dia a dia, evitando desperdício e mantendo sempre um colchão mínimo de suprimentos em casa.

Quais países estão recomendando que a população estoque alimentos e água?

Pelo menos 33 países, em todos os continentes, passaram a orientar que a população tenha algum nível de estoque de alimentos, água e itens essenciais em casa para emergências – de blecautes a enchentes, ondas de calor, conflitos e ataques cibernéticos.

Reino Unido, França, Irlanda, Países Baixos, Canadá, México, Japão e outros países europeus recomendam reservas para ao menos 72 horas. Suécia e Noruega sugerem estoques equivalentes a até 7 dias, enquanto a Alemanha indica um período de até 10 dias de autonomia nas residências.

Nos Estados Unidos, órgãos de proteção civil aconselham que famílias consigam se manter por vários dias sem acesso a serviços básicos. Na Índia, o governo recomenda kits de desastre, embora sem prazo específico para a duração dos estoques.

Na França, autoridades regionais da Normandia difundiram a mensagem “não espere que uma emergência aconteça, prepare-se agora!” em redes sociais, pedindo que moradores antecipem compras e planos.

Em paralelo, a União Europeia adotou uma estratégia de resiliência que inclui, entre outras medidas, a orientação para que cidadãos possam sobreviver por pelo menos 72 horas sem depender de ajuda externa imediata, diante de riscos como guerras, tensões geopolíticas, eventos climáticos extremos e ataques a infraestruturas críticas.

Campanhas no Reino Unido, Europa e EUA

No Reino Unido, o primeiro-ministro Andy Burnham lançou em outubro a campanha Be Ready, com duração prevista de três anos, focada em orientar os moradores a manter suprimentos suficientes para pelo menos 72 horas sem acesso regular a água, energia, internet e outros serviços básicos.

Segundo o governo britânico, tempestades de inverno e incêndios florestais no verão mostraram como eventos extremos podem paralisar redes de energia, abastecimento de água e comunicação. “A campanha Be Ready incentiva os moradores a manter suprimentos suficientes para pelo menos 72 horas sem acesso regular a serviços básicos”, reforça a administração britânica.

Nos Estados Unidos, além das recomendações gerais de estoques domésticos para vários dias, o Pentágono criou o programa FORTRESS, voltado à autonomia de instalações militares. A meta é permitir que bases funcionem de forma independente por até 90 dias em caso de rupturas prolongadas nas cadeias de abastecimento. A medida, porém, é restrita ao ambiente militar e não vale como regra para as residências.

Entenda o contexto

O movimento de mais de 30 países em direção a uma cultura de estocagem moderada em casa é visto por especialistas em desastres como mudança estrutural na forma de lidar com crises. Em vez de depender exclusivamente de governos e equipes de resgate nas primeiras horas, a população passa a ser parte ativa da resposta.

Em regiões com histórico de enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, terremotos ou instabilidade política, autoridades avaliam que famílias com estoques mínimos conseguem atravessar os dias mais críticos sem desespero por abastecimento imediato, o que reduz pressão sobre serviços de emergência.

Ao mesmo tempo, governos alertam para o risco de desigualdades: famílias de baixa renda têm mais dificuldade para montar e manter reservas. Órgãos públicos e organizações comunitárias discutem formas de apoio, como distribuição de kits básicos, campanhas educativas e melhoria das condições dos abrigos públicos com banheiros, refeições quentes, banhos e camas.

No Japão, o próprio governo reconhece que muitos municípios ainda não estão preparados para acolher idosos e pessoas com deficiência em larga escala durante evacuações, o que torna ainda mais importante combinar estoques domésticos com abrigos acessíveis.

Essa orientação indica risco iminente de guerra ou grande desastre?

Autoridades internacionais afirmam que as campanhas não significam anúncio de guerra ou de um desastre específico em curto prazo, mas mudança de postura diante de um mundo considerado mais instável.

“A iniciativa não representa um anúncio de guerra iminente ou de desabastecimento generalizado, mas uma medida preventiva”, dizem representantes de governos que participam do esforço de preparação.

No caso japonês, a estimativa de até 298 mil mortes em um terremoto na Fossa de Nankai é usada como cenário máximo para planejamento, não como previsão de que o evento ocorrerá em data determinada. As recomendações partem da premissa de que grandes desastres são possíveis ao longo dos próximos anos e que, quando ocorrerem, encontrarão uma sociedade mais ou menos preparada.

Em comum, as campanhas no Japão, no Reino Unido, em países da União Europeia, nos Estados Unidos, na Índia e em outras regiões enfatizam que o objetivo é dar tempo: garantir que famílias consigam se manter vivas, com água potável, comida básica, remédios e informação, até que a ajuda externa chegue e redes de serviços sejam restabelecidas.

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