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Senado aprova pautas bilionárias e adia decisão sobre fim da jornada 6×1

O Senado aprova, nesta quarta-feira (10), três propostas com alto impacto fiscal, mas mantém em suspenso a tramitação da PEC que altera a jornada 6×1. O movimento expõe o peso das pressões eleitorais e de categorias organizadas sobre a pauta econômica em ano pré-eleitoral.

Renegociação rural abre rombo bilionário

O projeto de renegociação de dívidas rurais avança mais do que qualquer outra pauta. O texto cria uma linha especial de financiamento para produtores afetados por eventos climáticos extremos e queda de renda, com condições mais suaves de pagamento. A proposta recebe ajustes no Senado e, por isso, retorna à Câmara dos Deputados antes de seguir para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No governo, a conta assusta. Técnicos da equipe econômica estimam que o custo para o Tesouro pode chegar a R$ 140 bilhões nos próximos anos. Integrantes do Executivo classificam o projeto como “pauta-bomba” e admitem, reservadamente, que o avanço reflete a força do agronegócio no Congresso e o clima de antecipação eleitoral. Entidades rurais, por outro lado, afirmam que produtores atravessam uma sequência de safras comprometidas por seca e excesso de chuvas e veem a renegociação como condição de sobrevivência para milhares de propriedades.

A votação ocorre depois de reuniões sucessivas entre líderes partidários e representantes do setor produtivo. Senadores da base e da oposição evitam bater de frente com o agro em ano em que dois terços do Congresso tentam se reeleger em 2026. A avaliação predominante, tanto entre governistas quanto entre independentes, é que negar alívio às dívidas seria politicamente mais custoso do que enfrentar a crítica de gasto extra em um Orçamento já pressionado.

Piso de médicos dispara e pressiona folha salarial

Na Comissão de Assuntos Sociais, senadores aprovam o projeto que eleva o piso salarial nacional de médicos e cirurgiões-dentistas de R$ 3.636 para R$ 13.662, para jornada de 20 horas semanais. O salto multiplica por quase quatro o valor de referência usado hoje em boa parte das redes pública e privada. O texto segue diretamente para a Câmara se nenhum parlamentar apresentar recurso para levar a discussão ao plenário do Senado.

O aumento é comemorado por conselhos profissionais e sindicatos, que argumentam que o valor atual é “irreal” diante da formação longa e da responsabilidade sobre a vida dos pacientes. Gestores públicos e privados, porém, veem risco imediato nas folhas de pagamento. Prefeituras e estados já enfrentam dificuldades para cumprir o teto de gastos locais e planejam, nos bastidores, uma ofensiva por fases de implementação ou por novas fontes de financiamento, caso o projeto avance sem mudanças.

Hospitais filantrópicos e planos de saúde acompanham a tramitação com apreensão. Dirigentes desse segmento afirmam que a combinação de reajuste expressivo de piso e aumento de custos hospitalares tende a se refletir em repasses maiores do SUS e em mensalidades mais altas para usuários de convênios. O debate sobre quem paga a conta, mais uma vez, se sobrepõe à discussão de valorização profissional.

Aposentadoria especial para agentes de saúde divide governo e municípios

Na Comissão de Constituição e Justiça, avança a PEC que garante aposentadoria especial a agentes comunitários de saúde e de combate a endemias que sejam servidores públicos. O texto fixa idade mínima de 57 anos para mulheres e 60 para homens, desde que cumpridos 25 anos de contribuição e exercício na função. Há ainda regras de transição até 2041 para quem já está na carreira na data da futura promulgação.

A Confederação Nacional de Municípios calcula que a medida pode gerar impacto de R$ 70 bilhões às contas municipais, considerando os cerca de 400 mil agentes em atividade no país. O Ministério da Previdência projeta um efeito ainda maior, estimando até R$ 99 bilhões quando se somam União, estados e prefeituras. Na tramitação anterior, na Câmara, o relator Antonio Brito (PSD-BA) havia estimado um custo mais modesto, de R$ 5,5 bilhões até 2030, o que evidencia a disputa em torno das contas.

Prefeitos pressionam senadores e alertam para risco de inviabilizar serviços básicos, caso não haja compensação de receitas. Representantes dos agentes rebatem o argumento e afirmam que a categoria atua na linha de frente de epidemias e enfrenta exposição permanente a doenças. “Não é privilégio, é reconhecimento”, defendem lideranças, que tratam a aposentadoria especial como correção de uma distorção criada na reforma da Previdência de 2019.

Jornada 6×1 empaca e vira moeda em disputa política

Enquanto pautas de alto impacto fiscal avançam, a PEC que trata do fim da escala 6×1 segue sem rumo definido. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), mantém o texto na gaveta e ainda não o envia à CCJ. O parlamentar condiciona qualquer movimento a um acordo entre líderes sobre relatoria e formato final. A reunião prometida não tem data marcada, o que, na prática, congela o debate.

A indefinição acende o alerta na base do governo, que teme ver a proposta travada e usada como moeda de troca em negociações futuras. Senadores alinhados à esquerda deixam o plenário nesta quarta dizendo que vão pressionar Alcolumbre para destravar a PEC. O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, se reúne com o presidente do Senado na terça-feira (9), mas o encontro termina sem anúncio oficial de cronograma.

No centrão, a avaliação é diferente. Líderes desse bloco defendem o avanço da proposta e apostam na pressão de eleitores e sindicatos em ano pré-eleitoral. O cálculo é simples: mudanças na jornada podem render palanque para parlamentares que buscam reeleição em 2026. Oposição e parte do empresariado, porém, se organizam para retardar qualquer votação no primeiro semestre, com a expectativa de remodelar ou enterrar o texto original.

Três semanas antes, entidades como CNA, CNC, CNI, CNT e Fiesp articulam uma ofensiva direta sobre o comando do Senado. Em carta aberta, pedem apoio a uma PEC alternativa, apresentada pela oposição, que flexibiliza a definição de jornada e permite acordos individuais entre empregado e empregador. O texto prevê que escala e horário sejam definidos por negociação direta, convenção coletiva ou “livre pactuação contratual”, fórmula que amplia o espaço de barganha das empresas.

Pressão eleitoral e incerteza fiscal na reta final de 2026

O contraste entre o avanço de medidas com potencial de gerar até R$ 239 bilhões em despesas adicionais e a paralisia da PEC da jornada escancara a lógica da pauta no Senado. Propostas com apoio de setores organizados e forte apelo eleitoral ganham velocidade, ainda que fragilizem o esforço de ajuste fiscal defendido pelo próprio governo. Mudanças estruturais nas regras de trabalho, com impacto difuso e resistência empresarial, esbarram em um cálculo político mais cauteloso.

As três iniciativas aprovadas ainda dependem da Câmara e, no fim da linha, da caneta de Lula. No caminho, podem sofrer enxugamentos ou travar em comissões sob o argumento de responsabilidade fiscal. A pressão de prefeitos, governadores, médicos, dentistas, agentes de saúde e produtores rurais tende a se intensificar nas próximas semanas, enquanto senadores e deputados medem cada voto pelo impacto nas bases eleitorais.

A dúvida que permanece é se o Congresso estará disposto a conciliar esse pacote de benesses com as metas de equilíbrio das contas públicas. A resposta não define apenas o tamanho do rombo no Orçamento, mas também o tom da campanha de 2026, em que promessas de alívio financeiro podem falar mais alto do que qualquer discurso de austeridade.

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