Lula rejeita “tarifaço” de Trump e promete reação do Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma nesta quinta-feira (11), em reunião do Conselhão, que o Brasil “não tem direito” de aceitar um novo tarifaço de Donald Trump. Diante de empresários e ministros, ele promete reagir a medidas protecionistas dos Estados Unidos que possam atingir exportações brasileiras e travar o crescimento econômico.
Lula mira tarifas dos EUA e fala em defesa do Pix
Lula chega ao encontro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável, em Brasília, sob clima de preocupação com o aumento de tarifas anunciado por Trump contra parceiros comerciais. Ao discursar, segura uma placa em defesa do Pix, sistema de pagamento usado por mais de 160 milhões de brasileiros, e faz uma conexão direta entre inovação doméstica e pressão externa. Diz que não aceitará ver a indústria nacional pagar a conta de decisões tomadas em Washington.
O presidente critica o que chama de “onda protecionista” que volta a ganhar força nos Estados Unidos. “O Brasil não tem direito de aceitar um novo tarifaço de Trump”, afirma, em referência a elevações tarifárias anteriores contra aço e alumínio, que chegaram a 25% em alguns produtos. Segundo assessores presentes à reunião, Lula reforça que qualquer aumento semelhante agora, mesmo que atinja setores diferentes, pode cortar bilhões de dólares do fluxo comercial bilateral, hoje na casa dos US$ 100 bilhões anuais.
O discurso ecoa na plateia do Conselhão, que reúne representantes da indústria, do agronegócio, do sistema financeiro e de movimentos sociais. Empresários do setor exportador calculam que uma alta de 10% a 20% em tarifas sobre bens industriais brasileiros reduziria contratos já fechados para 2027 e 2028, com impacto direto em empregos qualificados. Lula, segundo participantes, cobra união entre governo e setor privado para defender interesses brasileiros em negociações em Washington, na Organização Mundial do Comércio e em fóruns regionais.
Exportadores em alerta e pressão por resposta diplomática
A fala do presidente acende um sinal de alerta imediato entre exportadores de aço, celulose, carne e máquinas. Esses segmentos já sentiram efeitos de barreiras impostas nos últimos dez anos, que variam de sobretaxas a exigências sanitárias mais duras. Qualquer tarifa extra, mesmo de 5%, encarece o produto brasileiro na prateleira americana e abre espaço para concorrentes da Ásia e da Europa, mais próximos geograficamente ou com subsídios mais agressivos.
No caso do aço, associações do setor lembram que, quando os Estados Unidos impõem sobretaxas na casa de 25%, a margem de lucro praticamente desaparece. Em 2018, empresas brasileiras cortam turnos e adiam investimentos por causa de medidas semelhantes. Agora, com a economia ainda se recuperando de choques recentes, diretores de grandes siderúrgicas afirmam reservadamente que um novo tarifaço pode comprometer planos de expansão de até R$ 10 bilhões ao longo de cinco anos.
A diplomacia brasileira trabalha com cenários diferentes, que vão de uma negociação política direta com a Casa Branca à abertura de contenciosos na OMC. Integrantes da área econômica avaliam que, se o governo brasileiro responder apenas com notas de protesto, setores exportadores vão repassar parte dos prejuízos para a cadeia interna, encarecendo insumos industriais e pressionando preços ao consumidor em até 3% em alguns segmentos.
A defesa do Pix, exibida por Lula na placa que leva à reunião, funciona como símbolo de uma agenda de inovação que o governo tenta contrapor ao protecionismo externo. Criado em 2020 e responsável por movimentar mais de R$ 17 trilhões em 2025, o sistema de pagamentos instantâneos é apresentado pelo Planalto como prova de que o Brasil pode liderar soluções financeiras digitais e reduzir custos bancários, enquanto enfrenta restrições impostas por economias ricas no comércio de bens e serviços.
Negociações, contrapesos e o que vem a seguir
Lula indica que pretende transformar a resistência ao tarifaço em bandeira política e econômica nos próximos meses. Integrantes do governo falam em montar, até o fim de julho, uma estratégia em três frentes: negociação direta com autoridades americanas, articulação com outros países afetados por medidas semelhantes e revisão de incentivos internos para exportadores brasileiros. A meta é evitar queda nas vendas externas em 2027, que pode chegar a 8%, segundo projeções de consultorias privadas.
No Congresso, parlamentares da Frente Parlamentar do Comércio Exterior discutem propor, ainda neste semestre, um pacote de salvaguardas para setores mais expostos às tarifas americanas. As ideias vão de linhas de crédito com juros mais baixos a desonerações pontuais, com custo fiscal estimado em alguns bilhões de reais por ano. O desafio é aprovar qualquer medida em um ambiente de orçamento apertado, com teto de gastos redesenhado e cobrança por responsabilidade fiscal.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a reação de Lula pode reposicionar o Brasil nas negociações globais sobre comércio e cadeias produtivas. Ao criticar publicamente Trump e segurar uma placa em defesa do Pix, o presidente busca mostrar que o país não aceita papel secundário na economia mundial e quer ser visto como protagonista digital e industrial. O sucesso dessa estratégia, porém, depende de acordos concretos que preservem empregos, ampliem mercados e evitem uma escalada de retaliações.
As próximas semanas devem mostrar se o gesto no Conselhão é ponto de partida para uma política mais assertiva ou apenas um recado de ocasião. A disputa em torno das tarifas, somada ao esforço de consolidar o Pix e outras inovações financeiras, coloca diante do governo a pergunta que ainda não tem resposta clara: até onde o Brasil está disposto a ir para defender sua competitividade em um mundo cada vez mais fechado?
