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Justiça mantém preso homem que tenta estuprar nutricionista em SP

A nutricionista Jessica Soares reage a uma tentativa de estupro dentro do próprio apartamento em Barueri, na Grande São Paulo, no fim de maio. O agressor, Wellington de Oliveira Santos, é preso em flagrante após mais de dez minutos de luta corporal e tem a prisão convertida em preventiva em audiência no dia 24 de maio de 2026.

Invasão em condomínio expõe falhas de segurança

O caso começa em uma manhã chuvosa, por volta das 8h, em um condomínio residencial de Barueri. Imagens de câmeras de segurança mostram Wellington entrando no prédio sem ser barrado na portaria, passando pela catraca da recepção e seguindo livremente até os elevadores, sem qualquer questionamento de funcionários ou controle eletrônico aparente.

Minutos depois, ele chega ao andar onde mora Jessica. A nutricionista dorme quando percebe a presença de um desconhecido dentro de casa. O que se segue é uma sequência de agressões, ameaças e tentativa de estupro que dura mais de dez minutos, segundo a defesa da vítima. Dentro do apartamento, o homem teria subido sobre o corpo dela, tentado tirar suas roupas, a ameaçado de morte e afirmado que pretendia estuprá-la.

Jessica reage. Praticante de jiu-jitsu, ela recorre a técnicas de defesa pessoal aprendidas no tatame para conter o agressor e ganhar tempo. A luta corporal se arrasta, até que os gritos chamam a atenção de moradores vizinhos, que deixam seus apartamentos para ajudar. O grupo consegue imobilizar Wellington até a chegada da Guarda Civil Municipal, que efetua a prisão em flagrante.

Com diversas lesões espalhadas pelo corpo, a vítima é levada a um pronto-socorro da região. O caso é registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Barueri como tentativa de estupro, lesão corporal e violação de domicílio. A advogada de Jessica, Silvana Campos, afirma que o homem observava a rotina da nutricionista havia algum tempo e a perseguia, o que, se confirmado, pode agravar a responsabilização criminal.

Depoimento, álcool e a decisão de manter a prisão

No dia 24 de maio, menos de 24 horas após a prisão, Wellington é levado à audiência de custódia. No vídeo da sessão, ele admite ter entrado no condomínio sem ser impedido por ninguém. “Eu não sei nem como eu cheguei lá, eu não sabia se tinha um homem ou uma mulher [no apartamento]”, afirma ao juiz. Em outro momento, destaca que estava alcoolizado naquela manhã. “Eu simplesmente estava alcoolizado”, diz.

Na tentativa de convencer o magistrado a não converter a prisão em preventiva, ele apela ao cuidado com o pai, de 74 anos. “Eu te imploro, doutor, eu cuido do meu pai que tem 74 anos. Eu não sou toda essa periculosidade, não, doutor. Eu não corro todo esse risco, não”, argumenta. Quando percebe que a decisão pela manutenção da prisão está tomada, insiste: “Doutor, mas agora o senhor vai me deixar preso? Não faz comigo não, pô”.

O juiz decide manter Wellington detido e converte o flagrante em prisão preventiva, sem prazo definido para término, amparado na gravidade dos crimes e na necessidade de proteger a vítima e a coletividade. A medida afasta, ao menos por ora, o risco de novas investidas contra Jessica e outras mulheres na região. A CNN Brasil tenta contato com a defesa de Wellington de Oliveira Santos, mas não obtém retorno até a última atualização deste texto.

O relato de embriaguez do suspeito reacende um debate conhecido no direito penal brasileiro. A regra atual é que o consumo voluntário de álcool não elimina a responsabilidade criminal. Em casos como o de Barueri, a alegação de que o agressor estava bêbado não costuma afastar a culpa, justamente porque ele escolhe beber e, em seguida, assume o risco de seus atos.

Violência de gênero, autodefesa e pressão por mudanças

A tentativa de estupro contra Jessica ocorre em um país em que a violência sexual contra mulheres se mantém em patamar elevado. Dados de órgãos de segurança estaduais mostram, ano após ano, números expressivos de estupros consumados e tentados. Cada novo caso que ganha visibilidade pressiona o poder público a aprimorar políticas de prevenção, acolhimento e punição.

O episódio em Barueri também escancara a vulnerabilidade de condomínios residenciais, muitas vezes vendidos como espaços mais seguros do que a rua. A entrada de um estranho sem qualquer checagem na portaria, a passagem livre pela catraca e o acesso desassistido ao elevador colocam em xeque protocolos básicos de controle. Síndicos, administradoras e empresas de segurança privada são diretamente atingidos pela repercussão do caso, que expõe fragilidades que não dependem de alta tecnologia para serem corrigidas.

A reação de Jessica ao usar técnicas de jiu-jitsu para sobreviver à agressão reforça, ao mesmo tempo, a importância da autodefesa e o limite dessa resposta individual. Cursos de defesa pessoal se tornam mais procurados sempre que episódios de violência ganham repercussão, mas especialistas alertam que nenhuma mulher deveria ter de lutar fisicamente para permanecer viva ou preservar sua integridade sexual dentro da própria casa.

Na outra ponta, a decisão da Justiça em converter a prisão em flagrante em preventiva sinaliza uma postura de maior proteção à vítima. Enquanto o processo avança, a medida busca reduzir a sensação de impunidade e enviar um recado a potenciais agressores. A discussão jurídica sobre o peso da embriaguez, levantada pelo próprio Wellington na audiência, segue em aberto na esfera pública, mas não muda a leitura de que cabe ao Estado garantir que vítimas como Jessica não precisem enfrentar o agressor novamente.

Próximos passos na investigação e debate público

O inquérito instaurado na DDM de Barueri deve reunir laudos médicos, perícias no apartamento, imagens completas das câmeras do condomínio e depoimentos de funcionários e moradores. A linha de investigação inclui a apuração da possível perseguição prévia relatada pela defesa de Jessica. Caso essa conduta seja confirmada, o Ministério Público pode considerar agravantes e até a caracterização de stalking, crime de perseguição incluído no Código Penal brasileiro em 2021.

Gestores de condomínios na Grande São Paulo acompanham o caso com atenção, sob pressão de moradores por reforço imediato dos controles de acesso. A discussão sobre a responsabilidade civil de empreendimentos que permitem a entrada de estranhos sem checagem tende a se intensificar, inclusive em ações judiciais. Enquanto a Justiça define o futuro de Wellington de Oliveira Santos e a investigação corre, permanece a pergunta incômoda: quantas outras mulheres dependem hoje, em silêncio, da própria força física para sobreviver onde deveriam estar mais seguras?

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