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Câmara dos EUA limita Trump enquanto Israel e Líbano anunciam trégua

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprova nesta quarta-feira (3/6) uma resolução para restringir novas ações militares de Donald Trump contra o Irã. No mesmo dia, Israel e Líbano anunciam um cessar-fogo mediado por Washington para tentar conter a escalada da guerra envolvendo o Hezbollah.

Congresso desafia Casa Branca em meio à guerra com o Irã

O placar de 215 votos a 208 expõe um Congresso dividido, mas disposto a testar os limites do poder de guerra do presidente. Quatro republicanos se juntam aos democratas na tentativa de conter novas ofensivas sem aval legislativo, em uma rara dissidência aberta desde o início da campanha militar em fevereiro.

A medida aprovada afirma, na prática, que Trump não pode ampliar ou iniciar novas ações militares contra o Irã sem autorização expressa do Congresso. O texto ecoa uma disputa antiga em Washington sobre quem decide quando o país entra em guerra, agora reacendida por uma escalada que atinge diretamente o Golfo Pérsico, Israel e o Líbano.

O republicano Tom Barrett, de Michigan, rompe com o partido e tenta recolocar o freio constitucional no centro do debate. “Somente o Congresso declara guerra, isso é algo que certamente precisamos proteger”, diz o deputado. Ele admite o risco político da dissidência, mas minimiza o cálculo eleitoral: “Eu voto de acordo com minha consciência, pelo que acho certo, e estou disposto a aceitar isso”.

No campo democrata, o tom é de reprimenda direta à Casa Branca. Gregory Meeks, principal democrata no Comitê de Relações Exteriores da Câmara, chama o resultado de “repreensão bipartidária significativa à guerra ilegal do presidente Trump no Irã e o primeiro passo para encerrá-la de uma vez por todas”. Ele acusa o governo de não alcançar os objetivos declarados, elevar o preço dos combustíveis e dificultar uma saída diplomática para o programa nuclear iraniano.

A resolução ainda precisa passar pelo Senado, controlado pelos republicanos, onde o texto enfrenta resistência maior. Mesmo que avance, Trump pode vetar a iniciativa. Para derrubar um veto presidencial, seriam necessários dois terços dos votos em cada Casa, um patamar distante do resultado apertado desta quarta-feira. Em maio, o Senado já havia conseguido fazer avançar uma proposta semelhante após sete tentativas frustradas, mas a iniciativa continua parada, sem votação em plenário.

Enquanto o Congresso tenta redesenhar os limites da autoridade militar da Casa Branca, a guerra segue em múltiplas frentes. Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel lançam ataques coordenados contra alvos no Irã. Teerã reage atingindo Israel e aliados americanos no Golfo e praticamente fecha o Estreito de Ormuz, rota vital para o transporte global de petróleo. Em abril, Washington anuncia um bloqueio naval a embarcações que entram ou saem da costa iraniana, ampliando o risco de choque direto com a Guarda Revolucionária iraniana.

Um cessar-fogo inicial é anunciado em 8 de abril, sob forte pressão internacional. As hostilidades, porém, não cessam. Nos últimos dias, os EUA voltam a atacar posições iranianas, e o Irã responde atingindo o Kuwait, aliado estratégico de Washington na região. Trump insiste, em público, que as negociações “vão muito bem” e que um acordo pode ser fechado “já neste fim de semana”. Ao mesmo tempo, exibe poder de fogo. “Nós os atingimos com força na noite anterior, e também na noite anterior a essa”, afirma a repórteres na Casa Branca. Ele diz que Teerã “está bem perto de assinar” um entendimento que encerraria a guerra “sem matar todo mundo”.

Trégua frágil entre Israel e Líbano tenta conter Hezbollah

Enquanto o debate jurídico sobre os poderes de guerra de Trump se desenrola em Washington, o impacto mais imediato recai sobre o norte de Israel e o sul do Líbano. O Departamento de Estado americano anuncia, também nesta quarta-feira, um cessar-fogo entre Israel e Líbano, costurado ao longo das últimas semanas por diplomatas dos EUA e de países europeus.

O acordo condiciona a trégua à “interrupção completa” dos ataques do Hezbollah, grupo político e militar xiita apoiado pelo Irã, e à retirada de seus combatentes de uma ampla área do sul do Líbano. O trecho, denominado no comunicado como Setor Sul do Litani, vai da fronteira até o rio Litani, região que Israel considera fundamental para a segurança de suas comunidades do norte. A exigência mira diretamente o braço armado do Hezbollah, classificado como organização terrorista por Israel, Estados Unidos e Reino Unido.

O anúncio ocorre após uma nova escalada de violência. Ataques israelenses matam ao menos nove pessoas no sul do Líbano poucas horas antes da divulgação do acordo, segundo autoridades locais. O Hezbollah responde lançando foguetes contra o norte de Israel. O Ministério da Saúde libanês calcula 3.516 mortos desde o início da guerra, número que não distingue civis de combatentes. A ONU registra mais de um milhão de deslocados apenas no Líbano. Do lado israelense, o governo fala em 26 soldados e quatro civis mortos em ambos os lados da fronteira.

O conflito atual ganha corpo em 2 de março, quando o Hezbollah dispara foguetes contra Israel em resposta a um ataque israelense que mata o líder supremo do Irã. Israel reage com uma campanha aérea em todo o território libanês e uma ofensiva terrestre no sul do país. Em 16 de abril, um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos falha em interromper os combates. Na semana passada, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordena a intensificação dos bombardeios e o avanço das tropas em território libanês, após uma sequência de ataques com drones e foguetes contra cidades israelenses.

O comunicado divulgado por Washington tenta reposicionar o Líbano como ator soberano, e não como extensão do embate entre Irã, Israel e Estados Unidos. “Todos os países reafirmaram que o futuro da relação entre Israel e Líbano deve ser determinado pelos dois governos soberanos. Também rejeitaram qualquer tentativa, por parte de Estados ou atores não estatais, de manter o futuro do Líbano como refém”, afirma o texto. O Hezbollah, principal alvo do acordo, ainda não comenta publicamente a proposta.

Poder de guerra em disputa e incerteza sobre a paz

A combinação de uma resolução para limitar ações militares de Trump e de um cessar-fogo condicionado no front Israel–Líbano revela um realinhamento delicado. De um lado, congressistas americanos tentam reduzir o espaço para decisões unilaterais que possam ampliar a guerra com o Irã. De outro, a mesma Washington usa seu peso diplomático para forçar uma pausa no confronto entre Israel e Hezbollah e conter o risco de uma conflagração regional.

Se a resolução da Câmara prosperar, presidentes dos EUA enfrentarão controles mais rígidos antes de ordenar operações de grande escala no Oriente Médio. Isso pode atrasar respostas militares, mas também abre margem para negociações mais longas e transparência maior sobre custos humanos e econômicos. Uma derrota no Senado, porém, reforçaria o padrão recente de ampliação do poder executivo em matéria de guerra, sobretudo em conflitos travados sem declaração formal.

No Líbano, a trégua pode oferecer um alívio imediato para populações exaustas, mas depende de um ator que não assina o texto e decide, na prática, a continuidade dos combates. A retirada dos combatentes do Hezbollah do Setor Sul do Litani redesenha o mapa militar da fronteira, mas ameaça a influência do grupo em sua principal base de apoio. Em Israel, o governo precisa conciliar a pressão interna por segurança com a exigência externa de conter a ofensiva.

Israel e Líbano voltam a se reunir em 22 de junho para discutir um acordo mais amplo e duradouro. Até lá, qualquer violação do cessar-fogo pode desmontar em poucas horas o que levou meses para ser negociado. Em Washington, a disputa sobre o poder de guerra segue seu próprio curso, com senadores e assessores contando votos e medindo custos políticos. A pergunta que une as duas frentes permanece aberta: quem, de fato, controla o próximo passo da guerra no Oriente Médio.

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