Hezbollah rejeita cessar-fogo e mantém impasse entre Israel e Líbano
O Hezbollah rejeita, nesta quarta-feira (3), o acordo de cessar-fogo entre Israel e Líbano anunciado por Washington e promete manter a resistência armada no sul do país. A decisão bloqueia a entrada em vigor imediata da trégua e expõe o fracasso das pressões internacionais para conter a escalada na fronteira. O grupo acusa os EUA de patrocinar um “roteiro para a aniquilação” do povo libanês.
Trégua anunciada não sai do papel
O plano apresentado pelos Estados Unidos prevê cessar-fogo “imediato e verificável” entre Israel e Líbano, desde que o Hezbollah interrompa os ataques transfronteiriços e retire seus combatentes de áreas próximas à fronteira. O anúncio ocorre após quase três meses de bombardeios diários, desde que o grupo xiita retoma os ataques em 2 de março, em apoio ao Irã sob ofensiva conjunta de Israel e EUA.
Naim Qassem, número dois do Hezbollah e principal voz pública da organização, responde com dureza. Em comunicado, ele classifica as negociações mediadas por Washington como “vergonhosas” e rejeita o pacote. Diz que o texto equivale a “um roteiro para a aniquilação de uma parte do povo libanês e a escravização do restante”. Reforça que o grupo não participa das conversas diretas e acusa os mediadores de tentar legitimar a permanência israelense no sul do Líbano.
Qassem afirma que qualquer trégua aceitável precisa incluir o fim da ocupação israelense em território libanês e a remoção da chamada “zona de segurança” criada por Israel ao longo da fronteira. Para ele, cidades no norte de Israel não estarão seguras “enquanto nossas aldeias estiverem inseguras, bombardeadas, destruídas e nosso povo estiver sendo morto”. A mensagem deixa claro que o grupo não aceita separar segurança israelense e segurança libanesa.
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, tenta preservar espaço para a negociação. Mais cedo, antes do comunicado do Hezbollah, ele descreve a proposta americana como “última oportunidade para garantir um cessar-fogo abrangente e permanente”. Afirma que o acordo poderia entrar em vigor em um dia, caso “todas as partes” concordassem, em referência velada à milícia xiita, que é ao mesmo tempo partido político e força armada de peso no país.
Bombardeios continuam e aumentam pressão regional
Enquanto a disputa diplomática se arrasta, o campo de batalha segue ativo. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirma que o Exército manterá uma “presença contínua” no sul do Líbano e que “continuará, por enquanto, seus ataques e operações em terra”. Segundo ele, a meta é “desmantelar a infraestrutura terrorista na área”, com “liberdade de ação, com o apoio dos EUA, para atacar Beirute em resposta a ataques contra comunidades e território israelenses”.
Fontes de segurança relatam uma série de ataques aéreos israelenses contra posições do Hezbollah no sul libanês. Na cidade de Sohmor, a cerca de 70 quilômetros ao leste de Beirute, a Agência Nacional de Notícias do Líbano informa a morte de cinco pessoas em bombardeios, entre elas civis. Drones militares sobrevoam a capital ao longo do dia, alimentando o temor de que a guerra avance para regiões densamente povoadas.
O conflito atual torna-se eixo central das negociações para conter a escalada regional. Teerã, aliado e financiador do Hezbollah desde a fundação do grupo, em 1982, condiciona qualquer entendimento mais amplo ao fim dos ataques israelenses no Líbano. O comandante da Força Quds, braço externo da Guarda Revolucionária iraniana, resume a posição: “a exigência mínima da resistência” é a retirada de Israel às posições que ocupava antes da invasão recente do sul libanês.
A insistência iraniana reforça a percepção de que a disputa ultrapassa a fronteira entre os dois países. De um lado, Israel e Estados Unidos tentam impor um arranjo que empurre o Hezbollah para longe da linha de contato e reduza a capacidade de ataque à região norte israelense. De outro, o eixo formado por Irã e Hezbollah busca transformar a crise em instrumento de pressão, ligando o cessar-fogo no Líbano a uma reconfiguração mais ampla do equilíbrio de forças no Oriente Médio.
Desde abril, Washington anuncia sucessivos entendimentos de cessar-fogo, travados por detalhes de implementação e pela falta de garantias reais no terreno. A rejeição explícita feita agora por Qassem expõe o limite da diplomacia quando os principais atores armados não estão à mesa ou se veem fortalecidos pelo custo político de ceder.
Risco de escalada e horizonte incerto
A recusa do Hezbollah prolonga a insegurança para civis de ambos os lados da fronteira. No sul do Líbano, vilarejos esvaziados acumulam casas destruídas e plantações queimadas após semanas de ataques de artilharia e mísseis. No norte de Israel, localidades próximas à fronteira vivem sob alertas constantes, com milhares de moradores deslocados desde o início de março e economia local paralisada.
A manutenção do impasse enfraquece instituições libanesas já fragilizadas por crise econômica, inflação em dois dígitos e serviços públicos colapsados. O país, que registra uma das maiores dívidas públicas proporcionais do mundo, enfrenta novo choque: mais deslocados internos, perda de infraestrutura e queda adicional na confiança de investidores e doadores internacionais. No lado israelense, o prolongamento da ofensiva terrestre e aérea pressiona o orçamento de defesa, alimenta desgaste político interno e amplia o risco de múltiplas frentes de guerra.
Organismos internacionais discutem o reforço das missões de paz na região, mas a margem de manobra é pequena sem um acordo sólido entre as partes. Uma missão de observadores não consegue, sozinha, conter ataques diários de foguetes nem ocupação militar em curso. Diplomatas em Beirute, Jerusalém e Washington admitem reservadamente que a chance de uma trégua estável em 2026 diminui a cada semana de bombardeios.
Qassem insiste que “enquanto a ocupação existir, a resistência continuará”. A frase, repetida em discursos e comunicados, sintetiza a estratégia do grupo: transformar o cessar-fogo em palco de disputa por legitimidade. Israel responde com a promessa de seguir atacando infraestruturas do Hezbollah, com aval explícito dos Estados Unidos para atingir inclusive a capital libanesa, caso avalie necessário.
O presidente Joseph Aoun tenta manter aberta a porta para a diplomacia e descreve a iniciativa americana como última chance. A mensagem, porém, soa cada vez mais distante da realidade nos campos ao sul. Sem concessão clara sobre a presença israelense no território libanês e sem sinal de recuo do Hezbollah, o cessar-fogo anunciado permanece no papel. A fronteira segue como linha de fogo e teste diário para saber até onde a região aguenta antes de mergulhar em uma guerra mais ampla.
