Kim Jong-un exibe nova fábrica nuclear e anuncia expansão de arsenal
Kim Jong-un inspeciona uma nova fábrica de enriquecimento nuclear e anuncia, nesta quarta-feira (3), um plano para ampliar a produção de material para armas atômicas.
Fábrica moderna, discurso calculado
O líder norte-coreano aparece caminhando entre fileiras de centrífugas metálicas brilhantes, cercado por militares e cientistas de avental branco. A cena, divulgada pela agência estatal KCNA, marca a estreia pública de uma nova instalação de enriquecimento nuclear na Coreia do Norte, cuja localização não é revelada. No comunicado, Kim afirma que o país mais que dobra a capacidade de produzir material nuclear para armas nos últimos cinco anos e apresenta a usina como peça-chave de um plano de longo prazo.
Kim diz que a nova fábrica emprega “tecnologia mais sofisticada” e reforça que o objetivo é fortalecer a “dissuasão nuclear” do regime. A retórica acompanha imagens de sala de controle, tubulações de processamento e módulos industriais, cuidadosamente enquadradas para mostrar uma planta concluída e em operação. A mensagem é dirigida tanto ao público interno quanto ao exterior: Pyongyang quer ser visto como potência nuclear consolidada, com infraestrutura capaz de sustentar produção em massa, não apenas testes esporádicos.
Plano quinquenal após fracasso com EUA
O avanço exibido agora é o desfecho de um ciclo iniciado após o colapso das negociações de desnuclearização com os Estados Unidos. Entre 2018 e 2019, Kim se encontra três vezes com Donald Trump, então presidente americano, para tentar destravar um acordo. As conversas fracassam sem resultados concretos. Em vez de ceder, o líder norte-coreano transforma o impasse em justificativa para um plano quinquenal de fortalecimento do arsenal atômico.
Segundo a KCNA, a nova fábrica integra esse programa, concebido para ampliar o número de ogivas e reduzir a dependência de instalações já conhecidas por serviços de inteligência estrangeiros. Em março, um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA calcula que a Coreia do Norte possui material nuclear suficiente para até 90 ogivas e acredita que cerca de 50 já estejam montadas. O número não é confirmado por Pyongyang, mas é usado como referência por analistas para medir a dimensão da ameaça.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que não tem acesso direto ao país desde 2009, acompanha o programa à distância, com base em imagens de satélite e dados de inteligência. Em relatório de março, a agência informa que pelo menos duas usinas de enriquecimento nuclear estão em operação, em Yongbyon e Kangson, e registra a construção de um novo prédio em Yongbyon, com “dimensões e infraestrutura, incluindo fornecimento de energia e capacidade de refrigeração, semelhantes às da instalação de enriquecimento de Kangson”. O documento ressalta que a parte externa da estrutura está concluída e que os acabamentos internos “provavelmente estão em andamento”.
Em abril, o chefe da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, tenente-general James Adams, afirma ao Comitê de Serviços Armados da Câmara que o país “constrói uma provável instalação adicional de enriquecimento de urânio em Yongbyon”. Não é possível saber se a fábrica mostrada por Kim é esse complexo em Yongbyon ou uma planta até então desconhecida. A KCNA não fornece pistas geográficas, mantendo o tradicional sigilo em torno de instalações sensíveis.
Do laboratório à produção em massa
A visita desta quarta é, pelo menos, a terceira aparição pública de Kim em instalações ligadas à produção de material nuclear desde setembro de 2024. A frequência das inspeções sugere uma mudança de patamar no programa, que deixa a fase experimental e assume perfil industrial. Para Hong Min, pesquisador sênior do Instituto Coreano para a Unificação Nacional, em Seul, a reportagem divulgada pela TV estatal “dá a impressão de que o foco mudou de ‘pesquisa e produção’ para ‘produção em massa e munições’”.
O grupo que acompanha Kim reforça essa leitura. Além de cientistas nucleares, aparecem autoridades da indústria de munições e do Instituto de Armas Nucleares, reforçando a conexão direta entre a fábrica e o campo militar. Hong destaca que, ao exibir em detalhes a sala de controle, a rede de tubulações e a área de módulos, o regime “está intencionalmente destacando o aspecto de uma fábrica concluída e em operação”.
A aposta na infraestrutura contrasta com a fase anterior, marcada por testes de mísseis e desfiles militares. De acordo com a Avaliação Anual de Ameaças de 2026 do gabinete do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, a Coreia do Norte testa nos últimos anos uma variedade de mísseis e já demonstra capacidade de lançar foguetes balísticos intercontinentais capazes de atingir qualquer ponto dos Estados Unidos. O que se destaca agora é a origem do combustível para esse poder de fogo.
Ao ampliar a capacidade de enriquecer urânio, o país reduz vulnerabilidades e ganha margem para acelerar a montagem de ogivas. Na prática, isso significa um estoque maior de armas disponíveis em menos tempo, com impacto direto no cálculo estratégico de vizinhos como Coreia do Sul e Japão, além de Washington. Kim celebra o resultado e afirma que o potencial nuclear norte-coreano é “inconcebível”.
Escalada regional e margem estreita para diálogo
A nova fábrica surge num momento de tensão elevada no nordeste asiático. O Exército sul-coreano registra sucessivas rodadas de lançamentos de mísseis norte-coreanos no Mar Amarelo e em direção ao mar aberto, o que reacende alertas em Seul, Tóquio e Washington. A mensagem de Kim, amparada em imagens de aço e concreto, é que o programa nuclear não está em teste, mas em expansão planejada.
A Coreia do Norte já se vê, há anos, como potência nuclear de fato. A diferença agora está no volume e na estabilidade da produção. Especialistas temem que a combinação de capacidade industrial maior com mísseis balísticos intercontinentais acelere uma corrida armamentista regional, com respostas mais agressivas de Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos. O pacote provável inclui novas sanções, reforço de sistemas antimísseis e aumento da presença militar americana no Pacífico.
Para os defensores da diplomacia, o cenário complica qualquer tentativa de retomar negociações de paz. Quanto mais o programa avança, menor é o incentivo do regime para abrir mão de partes significativas do arsenal em troca de alívio econômico. O histórico recente pesa: depois das cúpulas com Trump, Pyongyang conclui que conversas de alto nível não impedem sanções nem exercícios militares conjuntos de EUA e Coreia do Sul.
Governos vizinhos tentam calibrar a resposta entre pressão e contenção. Uma reação excessiva pode alimentar ainda mais a narrativa de cerco externo usada por Kim para justificar gastos militares elevados em um país pobre e isolado. Uma postura branda corre o risco de ser lida como sinal verde para novos avanços. Nessa equação, a nova fábrica de enriquecimento se torna símbolo de uma encruzilhada: o programa nuclear norte-coreano parece mais enraizado e menos negociável.
O que vem a seguir
A divulgação das imagens indica confiança do regime na maturidade técnica da usina. Para a AIEA e serviços de inteligência, o passo seguinte será medir, com base em dados indiretos, a capacidade real de produção dessa planta e de eventuais instalações adicionais. A vigilância por satélite, antes focada em testes de mísseis, se volta cada vez mais para prédios industriais, linhas de energia e sistemas de refrigeração.
Em público, Kim promete seguir o plano quinquenal até o fim e sugere que a expansão atual não é o ponto de chegada. Se a Coreia do Norte já dispõe de material para até 90 ogivas, como estimam analistas americanos, uma nova fábrica em escala industrial pode elevar esse patamar em poucos anos. A resposta internacional definirá se esse avanço será contido pela pressão externa ou se abrirá um novo capítulo de incerteza na segurança global, com uma potência nuclear cada vez mais confiante e difícil de persuadir.
