Ultimas

Impasse sobre urânio iraniano trava acordo e mantém risco de guerra

Estados Unidos e Irã avançam nas negociações de cessar-fogo em 2026, mas esbarram no destino de quase meia tonelada de urânio altamente enriquecido. O material, suficiente para até dez ogivas, mantém aceso o risco de uma escalada militar que pode fechar o Estreito de Ormuz e atingir alvos na Europa.

Urânio no centro da disputa

As conversas diplomáticas tentam consolidar um acordo que reabra o Estreito de Ormuz e reduza as tensões no Golfo, após meses de ataques e ameaças. O ponto mais sensível não é apenas o cessar-fogo, mas o que fazer com os 439,98 quilos de urânio que o Irã concentrou em um nível próximo ao de armas, dentro de um estoque total de cerca de 454 quilos enriquecidos a 60%.

Donald Trump, de volta à Casa Branca, repete em reuniões fechadas e em público que Teerã precisa entregar o que chama de “poeira nuclear”. O governo iraniano reage e insiste no direito a um programa nuclear civil, sem armas, e acusa Washington de tentar impor uma rendição disfarçada.

No terreno, o clima não é de trégua. O Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial, registra ataques a navios e drones armados. Autoridades iranianas ameaçam ampliar o conflito para além da região, com possíveis ações contra instalações petrolíferas no Golfo e até bases militares no Reino Unido e na Alemanha.

Os estoques hoje conhecidos preocupam inspetores internacionais. Segundo avaliações citadas pela CNN Internacional, o urânio enriquecido a 60% e o material a 20% — estimados em 184,11 quilos de urânio-235 — podem chegar ao nível de 90%, considerado grau militar, em semanas ou até dias, se o Irã mantiver uma instalação de enriquecimento operacional.

Do subsolo iraniano à mesa de negociação

O atual impasse nasce de um programa nuclear que sobrevive a ataques e sanções há mais de uma década. O Irã enriquece urânio em usinas subterrâneas, transformando o minério em um gás chamado hexafluoreto de urânio e girando-o em centrífugas avançadas em complexos como Natanz, Fordow e Isfahan. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) verifica pela última vez, em junho de 2025, que a quase meia tonelada de urânio a 60% e o material a 20% permanecem na forma gasosa.

Um mês depois, tudo muda. Em julho de 2025, ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel, batizados pelo Pentágono de Operação Martelo da Meia-Noite, atingem instalações em Isfahan e outros pontos do programa nuclear. O governo Trump anuncia que o programa iraniano está “obliterado”. Relatórios internos do próprio Departamento de Defesa, porém, indicam que boa parte do estoque é soterrada, não destruída.

O choque fecha as portas aos fiscais. O Irã barra a entrada dos inspetores da AIEA ainda em 2025 e passa a operar no escuro aos olhos da comunidade internacional. “Não sabemos para onde o Irã pode ter dispersado parte desse material antes dos ataques”, admite Eric Brewer, especialista da organização NTI e ex-responsável pela área de contraproliferação no Conselho de Segurança Nacional do primeiro governo Trump.

Sem acesso ao solo, as estimativas se baseiam em inteligência e no histórico de outros programas nucleares. Quando a China conclui seu enriquecimento de urânio em 1964, leva entre três e cinco semanas para converter o gás em metal e montar uma bomba, lembra o físico Hui Zhang no Boletim dos Cientistas Atômicos. O paralelo assombra negociadores em Washington, Teerã e capitais europeias.

A Casa Branca estuda cenários de força. Em março, reportagens da CNN revelam que planejadores militares revisam opções para uma operação em Isfahan para “recuperar” o urânio, como Trump passa a ameaçar em público. A avaliação é que seriam necessários centenas, talvez milhares de soldados, com alto risco de baixas e sem garantia de localizar todo o material. “Realizar tal remoção sob condições hostis seria algo sem precedentes”, reconhece Brewer.

Risco global, energia em xeque

O que acontece com esse urânio define mais do que o futuro das relações entre Washington e Teerã. Define também o cenário de segurança internacional e o preço da energia para o planeta. Inspetores calculam que o estoque altamente enriquecido seja suficiente para até dez armas nucleares. Para especialistas, não há aplicação civil plausível. “Não há nenhum propósito civil plausível para esse material”, afirma Scott Roecker, ex-chefe do Escritório de Remoção de Material Nuclear da Administração Nacional de Segurança Nuclear dos EUA, hoje na NTI.

Roecker defende que o “foco principal” das negociações seja se livrar desse estoque e, se possível, remover também o urânio de baixo enriquecimento. O Irã acumula pelo menos 5.896,7 quilos de material enriquecido a 5%, cerca de 5,9 toneladas. Em mãos de um país que domina centrífugas rápidas e eficientes, essa reserva funciona como uma espécie de poupança estratégica, pronta para ser elevada a níveis mais altos se a decisão política for tomada.

O mundo acompanha atento porque qualquer colapso das conversas pode se traduzir em choque imediato no mercado de petróleo. Um bloqueio do Estreito de Ormuz, mesmo parcial, reduziria a oferta e pressionaria preços em questão de dias, com impacto direto em inflação, frete e contas públicas de países importadores, do Brasil à Europa. A possibilidade de ataques a instalações petrolíferas no Golfo adiciona um componente de pânico aos cálculos de investidores.

No campo militar, aliados dos Estados Unidos calculam o custo de um eventual confronto aberto. Bases americanas, britânicas e alemãs entram na linha de mira dos mísseis de longo alcance e drones iranianos, testados em ataques recentes na região. Qualquer erro de cálculo, alertam diplomatas, pode empurrar o conflito para além do Oriente Médio e envolver diretamente grandes potências.

Remoção, neutralização e a brecha da dúvida

Negociadores trabalham com duas grandes saídas para o impasse: retirar o urânio do país ou neutralizá-lo em território iraniano. Em ambos os casos, o primeiro passo provável é converter o gás em um pó mais estável, o que reduz riscos de acidente e facilita o transporte. A Administração Nacional de Segurança Nuclear dos EUA mantém uma unidade móvel, baseada no Laboratório Nacional de Oak Ridge, no Tennessee, capaz de viajar para qualquer parte do mundo para “estabilizar, embalar e remover materiais nucleares”. O processo levaria semanas.

Uma alternativa é repetir o modelo de 2015, quando a Rússia recebe parte do urânio iraniano sob o acordo nuclear daquele ano. Outra opção, defendida por técnicos, é o chamado empobrecimento por mistura: diluir o urânio altamente enriquecido com material de baixa pureza até reduzir a concentração do isótopo físsil U-235. Em teoria, o material deixa de ser útil para uma bomba. Na prática, tudo depende de monitoramento e verificação rigorosos.

Esse é o ponto em que a técnica encontra a política. Sem inspetores no país, restam câmeras antigas, dados incompletos e versões conflitantes. “Você corre o risco de o Irã dizer: ‘Não podemos prestar contas desses 100 quilos porque eles realmente explodiram nos ataques’, e você nunca vai saber se isso é verdade ou não”, alerta Brewer. A frase ecoa nas salas de situação em Washington e nas sedes de agências de inteligência europeias.

Trump sobe o tom e ameaça “entrar” para recuperar o urânio se o Irã não ceder. Teerã responde com avisos de que vai fechar Ormuz e ativar outras frentes, do Mar Vermelho ao Mediterrâneo, se considerar o cessar-fogo violado. As próximas semanas definem se o mundo caminha para um acordo que congela o programa nuclear iraniano em um patamar administrável ou para uma nova rodada de ataques e retaliações, com o Estreito de Ormuz como válvula de pressão global.

Enquanto negociadores trocam rascunhos de texto e militares revisam planos de contingência, uma pergunta continua sem resposta clara: quantos quilos de urânio o mundo ainda não consegue enxergar nos túneis do Irã?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *