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Israel toma Castelo de Beaufort e aprofunda incursão no sul do Líbano

O Exército de Israel captura neste domingo (1º) o Castelo de Beaufort, no sul do Líbano, em uma operação terrestre ampliada contra o Hezbollah. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu descreve o avanço como uma “mudança decisiva” na ofensiva, que já ultrapassa a linha do rio Litani.

Castelo simbólico volta ao centro da guerra

O castelo de pedra aparece recortado contra o vale do Litani há quase 900 anos. Desde as Cruzadas, domina a paisagem e a movimentação militar na região. Em 1982, na Primeira Guerra do Líbano, tropas israelenses tomam a fortaleza e a mantêm por 18 anos, até a retirada da zona tampão no ano 2000.

Quarenta e quatro anos depois daquela ofensiva, soldados israelenses voltam à colina. A tomada do Castelo de Beaufort ocorre em meio a uma incursão por terra que avança mais de 14 km além da fronteira, rompendo na prática o limite informal do rio Litani. Para Netanyahu, trata-se de “um estágio decisivo e uma mudança decisiva em nossa política”.

O premiê afirma que o objetivo é “aprofundar e expandir nosso controle sobre os lugares que estavam sob o controle do Hezbollah”. Ele diz que Israel “quebra a barreira do medo” e “opera em todas as frentes — na Síria, em Gaza, no Líbano”. O castelo, a 14,5 km de Israel, volta a ser vitrine desse avanço.

O ministro da Defesa, Israel Katz, recupera a memória da guerra de 1982. Ele lembra que a Brigada Golani hasteia a bandeira israelense sobre Beaufort naquela época e repete o gesto agora. Para o governo, a reconquista da fortaleza é tanto um símbolo quanto um ativo tático, num momento em que o Hezbollah intensifica o uso de mísseis e drones contra o norte de Israel.

Ofensiva avança, civis fogem e pressão externa aumenta

A captura de Beaufort se insere em uma ofensiva mais ampla, iniciada em março, que transforma o sul do Líbano em principal frente de combate no confronto entre Israel e o Hezbollah. Desde então, autoridades libanesas estimam mais de 3,3 mil mortos no país, enquanto Israel confirma 25 militares mortos nas operações. O cessar-fogo temporário entre os dois governos, renovado duas vezes, está na prática desfeito.

O Exército israelense amplia nos últimos dias as ordens de evacuação. O segundo alerta em sequência manda que todos os moradores ao sul do rio Zahrani deixem suas casas. Um porta-voz militar afirma que “qualquer pessoa presente perto de elementos, instalações ou meios de combate do Hezbollah põe em risco sua vida”. O recado atinge diretamente vilarejos rurais e cidades como Nabatieh, que se torna alvo recorrente de ataques.

O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, vai à TV e acusa Israel de adotar “política de terra arrasada e punição coletiva” contra a população do sul. O Ministério da Saúde do Líbano relata que 13 funcionários de saúde ficam feridos em um ataque aéreo nas proximidades do hospital Hiram, em Tiro, que sofre danos significativos. O governo acusa Israel de violar o cessar-fogo; Israel devolve a acusação ao Hezbollah.

No sábado, o Hezbollah dispara cerca de 25 projéteis contra comunidades israelenses próximas à fronteira, o que força o fechamento de escolas na região. Lideranças da oposição em Israel exigem do gabinete medidas mais eficazes para garantir a segurança dos moradores do norte. Katz argumenta que o controle de Beaufort e da cordilheira vizinha é “passo importante na proteção das comunidades israelenses do outro lado da fronteira”.

A guerra arrasta o Líbano para um tabuleiro que ultrapassa suas fronteiras. Em 2 de março, o Hezbollah reage a um ataque israelense que mata o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e lança foguetes contra Israel. Os Estados Unidos, aliados de Israel, respondem com ataques ao Irã, incluindo duas ofensivas em três dias em maio, enquanto Israel desencadeia campanha aérea em todo o Líbano e envia tropas por terra.

França e Alemanha passam a vocalizar, em público, o incômodo com a escalada. O presidente Emmanuel Macron pede uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e declara que “é urgente que as armas se silenciem — todas elas, e para sempre”. Ele afirma que “nada justifica a grande escalada atualmente em andamento no sul do Líbano”. O chanceler francês, Jean-Noël Barrot, chama a operação israelense de “grande erro”. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, fala em “motivo de séria preocupação” e alerta para novas ondas de deslocamento interno no país árabe.

Castelo tomado aprofunda guerra e complica saída diplomática

A nova fase da ofensiva altera o equilíbrio militar ao longo da fronteira. Com Beaufort sob controle israelense, radares e baterias de artilharia ganham visão mais ampla do vale do Litani e de rotas usadas pelo Hezbollah. O castelo se torna peça central na tentativa de Israel de criar uma zona de exclusão de fato, empurrando a presença do grupo armado para além de 20 ou 30 km da fronteira.

Esse avanço, porém, amplia a vulnerabilidade de civis libaneses. A ordem de evacuação ao sul do rio Zahrani atinge dezenas de milhares de pessoas e aprofunda um deslocamento forçado que já atinge cidades inteiras desde março. Hospitais e escolas lutam para funcionar em meio à ameaça constante de bombardeios e falta de eletricidade, enquanto estradas se enchem de famílias em fuga com o que conseguem carregar.

No plano político, o governo libanês se vê encurralado. Salam afirma que a única saída do país é a mesa de negociação em Washington, onde delegações de Israel e Líbano se reúnem pela quarta vez nesta semana. O Hezbollah, principal força militar não estatal em campo, está fora da mesa. O Exército libanês, com capacidades limitadas, observa de longe a disputa entre Israel e o grupo apoiado pelo Irã, enquanto tenta manter alguma ordem nas cidades mais afetadas.

Israel sustenta que intensifica a ofensiva terrestre em resposta ao aumento dos ataques do Hezbollah com drones explosivos e mísseis, tanto contra tropas israelenses instaladas no Líbano quanto contra comunidades no norte do país. Autoridades libanesas, por sua vez, enxergam na captura de Beaufort uma etapa de um projeto mais amplo de ocupação de parte do território e temem que a zona tampão desfeita em 2000 volte ao mapa de maneira informal.

O cessar-fogo temporário entre os dois governos, que já é estendido duas vezes desde que entra em vigor no mês passado, resiste mais no papel do que no campo de batalha. As acusações de violação se acumulam de lado a lado, enquanto números de mortos e feridos sobem a cada semana. A nova realidade no topo da colina de Beaufort torna a negociação ainda mais complexa: qualquer acordo futuro terá de lidar com a presença de tropas israelenses bem dentro do território libanês.

Negociadores em Washington tentam, em paralelo, evitar que a guerra se espalhe. Os Estados Unidos buscam conter uma escalada direta com o Irã, ao mesmo tempo em que apoiam militarmente Israel. Teerã reforça o discurso de que a resistência armada na região, encarnada pelo Hezbollah e por grupos aliados, responde à ofensiva israelense em várias frentes. Entre as ruínas do castelo e os abrigos improvisados nas vilas vizinhas, a pergunta que domina conversas é se essa “mudança decisiva” anunciada por Netanyahu aproxima algum tipo de solução ou apenas empurra a região para uma guerra ainda mais longa.

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