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Colômbia leva disputa entre extrema direita e esquerda ao segundo turno

O advogado de extrema direita Abelardo de la Espriella e o senador de esquerda Iván Cepeda disputam, em 21 de junho, o segundo turno presidencial na Colômbia. A nova votação ocorre após um primeiro turno apertado, marcado por violência política, contestação de resultados e um país dividido sobre segurança e reformas sociais.

Vitória inesperada e país em ebulição

De la Espriella, um excêntrico milionário de 47 anos admirador de Donald Trump, surpreende o país ao liderar a primeira rodada com 43,7% dos votos neste domingo (31). Cepeda, de 63 anos, aliado do presidente Gustavo Petro e nome da esquerda governista, fica em segundo lugar com 40,9%, apesar de liderar a maior parte das pesquisas até a véspera.

O resultado derruba previsões e escancara a polarização. Entre plantações de café, bairros populares e condomínios murados, o sentimento é de incerteza. “Estamos nos extremos radicais. Que Deus nos proteja”, resume Gloria Terranova, trabalhadora rural de 59 anos, em uma fazenda de café, ao comentar a escolha entre o advogado ultraconservador e o senador de esquerda.

A votação ocorre em meio à pior onda de violência dos últimos dez anos. Carros-bomba, ataques com drones e o assassinato de um candidato em 2025 empurram a segurança para o centro da campanha. Todos os presidenciáveis recebem ameaças, e os principais nomes se recusam a participar de debates, o que amplia a sensação de campanha às cegas.

De la Espriella vota em Barranquilla, cidade caribenha que considera sua casa, cercado por seguranças com escudos à prova de balas. Quando a contagem preliminar o coloca à frente, ele surge atrás de uma cápsula blindada, vestindo a camisa amarela da seleção colombiana de futebol. “Aqui está o seu tigre que ruge e que morde! (…) Vamos enfrentar, derrotar e castigar os inimigos da Colômbia”, grita, assumindo o personagem “El Tigre” que o acompanha desde o início da campanha.

Do outro lado, em um bairro popular de Bogotá onde cresceu antes de se exilar na antiga Tchecoslováquia, Bulgária e Cuba, Cepeda deposita o voto cercado por indígenas, camponeses e ambientalistas. Filho de um comunista assassinado por agentes estatais e paramilitares, ele promete derrotar o que chama de “fascismo mafioso” e manter vivo o projeto progressista iniciado por Petro em 2022.

Segurança em choque com agenda social

A disputa opõe duas visões de país quase incompatíveis. De la Espriella constrói sua campanha na promessa de mão pesada contra o crime, com megapresídios, bombardeios a grupos armados e até pena de morte ou prisões “dez andares abaixo da terra” para líderes mafiosos. Ele também defende reduzir em 40% o tamanho do Estado para enfrentar a crise fiscal e atrair investimento privado.

O advogado, que já defende narcotraficantes e estrelas do futebol, se apresenta como outsider disposto a “evitar que a esquerda volte ao poder e destrua o país”. Seus comícios misturam saudações militares, discursos inflamados e forte apelo ao patriotismo. Neste domingo, muitos apoiadores votam vestidos com a camisa da seleção. “Vejo nele um homem decidido, de personalidade (…) A segurança é o que precisamos neste momento”, diz Kelly Mayorga, vendedora de flores de 43 anos.

Cepeda tenta se firmar como herdeiro político de Petro e defensor de uma segunda fase das reformas sociais. Filósofo e ativista de direitos humanos, ele aposta nos “excluídos” em um dos países mais desiguais do mundo, com forte presença de comunidades indígenas, camponeses e trabalhadores informais em seus eventos. Com uma campanha discreta, aposta no apoio direto de Petro, que se torna protagonista da eleição após um governo marcado por choques com Congresso, tribunais, Procuradoria-Geral e Banco Central.

O senador defende a continuidade da chamada “Paz Total”, política que busca negociar simultaneamente com grupos armados que permaneceram ativos após o acordo com as Farc. A iniciativa sofre fortes críticas da oposição por não conter a nova escalada de violência, mas permanece como eixo de sua proposta. Cepeda promete também aprofundar programas sociais, ampliar a presença do Estado em áreas rurais e manter o acordo de paz no centro da agenda pública.

Para analistas, o resultado do primeiro turno representa um revés claro para a esquerda. “É um resultado surpreendente, um resultado inesperado. As pesquisas sugeriam que seria o contrário”, avalia Felipe Botero, diretor de Ciência Política e Estudos Globais da Universidade dos Andes. Segundo ele, a vantagem de De la Espriella “coloca Cepeda em dificuldades porque ele contava com a possibilidade de avançar na liderança”.

Alianças, incertezas e teste para a democracia

O segundo turno de 21 de junho se desenha como um teste para a democracia colombiana, sob risco de nova escalada de tensão e episódios de violência. A candidata da direita tradicional, Paloma Valencia, afilhada política do ex-presidente Álvaro Uribe, termina o primeiro turno em um distante terceiro lugar, com 6,9%. Horas depois, anuncia o apoio a De la Espriella. “Continuarei nesta batalha para derrotar Iván Cepeda”, afirma, em um gesto visto como decisivo para consolidar a direita em torno do advogado.

Cepeda, assim como Petro, questiona os números preliminares divulgados no domingo e evita reconhecer imediatamente o segundo lugar. Ele afirma que só falará sobre o resultado definitivo depois que as comissões de apuração “esclarecerem totalmente” a contagem. Na Colômbia, a etapa preliminar serve para informar o país no dia da eleição, e o resultado oficial costuma coincidir com essa primeira contagem, o que torna o gesto político ainda mais carregado.

Na sede de campanha do senador em Bogotá, o clima é de frustração e apreensão. O funcionário de cafeteria Andrés Alba, 42, resume o sentimento de parte da base governista: “Sim, é uma frustração”. Entre militantes, cresce a pressão por uma virada de discurso que reconecte a esquerda a eleitores temerosos da violência, sem abrir mão das agendas de direitos humanos e justiça social.

Uma vitória de De la Espriella significaria uma guinada à direita com impacto direto sobre o acordo de paz, as negociações com grupos armados e a política de drogas. O candidato promete extinguir o tribunal criado a partir do pacto com as Farc, estrutura central para julgar crimes de guerra e violações de direitos humanos. A mudança pode tensionar relações com a comunidade internacional, em especial com países europeus que apoiam financeiramente o processo de paz.

Uma vitória de Cepeda consolidaria o primeiro ciclo de governos de esquerda na história recente colombiana e reforçaria políticas sociais, ambientais e de negociação com grupos armados. O desafio seria administrar um país exausto pela violência e por disputas institucionais, sob olhar atento de parceiros estratégicos como Estados Unidos e vizinhos latino-americanos.

Até 21 de junho, a Colômbia mede forças entre medo e esperança. Os próximos dias vão revelar se o discurso de punição exemplar e Estado enxuto de De la Espriella prevalece sobre a promessa de paz negociada e inclusão social de Cepeda. A escolha definirá não só o próximo presidente, mas também o rumo da segurança, da democracia e do próprio processo de paz na próxima década.

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