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Mistério sobre Ahmadinejad expõe aposta arriscada de EUA e Israel

Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente do Irã, vira um dos maiores enigmas da guerra em 2026. EUA e Israel avaliam, nos bastidores, seu potencial como liderança alternativa ao regime em Teerã, mas uma operação fracassada deixa o político ferido e com paradeiro desconhecido.

De inimigo declarado a peça de bastidor

O nome de Ahmadinejad retorna ao centro do tabuleiro em meio à fase mais tensa do conflito envolvendo o Irã neste início de década. O jornal americano The New York Times relata que Washington e Tel Aviv cogitam, em planos de pós-guerra, explorar uma eventual ruptura do ex-presidente com o aparato de segurança iraniano para redesenhar o poder em Teerã.

Segundo o jornal, uma operação para tirá-lo da prisão domiciliar no começo dos combates termina em desastre. O ataque, atribuído a essa tentativa de resgate, fere Ahmadinejad e interrompe qualquer movimento imediato. Desde então, a pergunta se repete em serviços de inteligência e entre analistas: onde está o ex-presidente que durante anos promete que Israel “irá desaparecer do mapa”?

A história causa choque porque esbarra na memória recente. Entre 2005 e 2013, Ahmadinejad governa o Irã com um discurso radicalizado contra Israel, contra os Estados Unidos e contra o reconhecimento do Holocausto. Em 2005, na conferência “O mundo sem o sionismo”, em Teerã, declara que “um mundo sem a América e o sionismo é possível”. Em 2006, autoriza a controversa conferência sobre o Holocausto, que reúne negacionistas conhecidos e provoca reação diplomática em capitais europeias e em Washington.

Em Israel, parte da elite de segurança transforma o ex-presidente em exemplo perfeito da ameaça iraniana. Em 2008, o ex-chefe do Mossad Efraim Halevy o chama de “o maior presente do Irã para Israel”, porque sua retórica ajuda a convencer a opinião pública internacional de que Teerã representa perigo real. A figura pública de Ahmadinejad cristaliza a imagem de um Irã disposto a desafiar sanções, avançar no programa nuclear e confrontar diretamente o Estado israelense.

Carreira marcada por rupturas e recalculagens

A trajetória política de Ahmadinejad ajuda a explicar por que, mesmo cercado de controvérsias, seu nome volta a circular em cenários de transição. Ele surge no cenário nacional em 2003, quando é eleito prefeito de Teerã. Em 2005, chega à Presidência com o apoio aparente do líder supremo Ali Khamenei, surfando em promessas de justiça social, simplicidade e combate à corrupção em um país com hoje mais de 90 milhões de habitantes.

No poder, porém, o tom interno se mistura à confrontação externa. O governo ignora pressões para moderar o programa nuclear, enfrenta novas sanções e se isola diplomaticamente. Em 2009, após a eleição contestada que o mantém na Presidência, Ahmadinejad legitima sua posição acusando reformistas de sedição. Os protestos de massa daquele ano abrem uma fissura profunda na sociedade iraniana, exposta em redes sociais, universidades e mesquitas.

Depois de deixar o cargo, em 2013, o ex-presidente entra em colisão com o próprio sistema que o impulsionou. Diverge de Khamenei, critica o aparato de segurança e enfrenta a resistência da poderosa Guarda Revolucionária Islâmica. O Conselho dos Guardiões, órgão que filtra candidaturas, barra sucessivas tentativas de Ahmadinejad voltar às urnas. A mensagem de Teerã é clara: a velha casa não tem mais lugar garantido para ele.

Ao mesmo tempo, Ahmadinejad passa a testar uma nova persona no exterior. Abre conta em redes sociais globais, escreve em inglês, parabeniza o time de futebol americano da Universidade de Michigan, cita o rapper Tupac Shakur e chega a elogiar Donald Trump por “combater a corrupção política nos EUA”. O contraste entre o líder que nega o Holocausto e o ex-presidente que interage com a cultura pop americana alimenta dúvidas sobre suas motivações e seu cálculo político.

Ceticismo, risco de desestabilização e cálculo de poder

Especialistas em Washington e em Tel Aviv encaram com desconfiança a ideia de que EUA e Israel realmente planejam recolocar Ahmadinejad no comando do Irã. Max Abrahms, professor de ciência política na Universidade Northeastern e pesquisador de contraterrorismo, afirma que o relato precisa ser recebido com “grande ceticismo”, em meio ao volume de desinformação que cerca a guerra. Para ele, é improvável que Israel aceite a volta de um líder associado ao avanço do programa nuclear e ao negacionismo do Holocausto.

Ilan Berman, do American Foreign Policy Council, considera difícil que exista um plano consistente nesse sentido. Admite que o nome de Ahmadinejad pode aparecer em conversas sobre possíveis lideranças alternativas, mas avalia que raramente ocuparia a primeira posição em qualquer lista séria. Michael Rubin, do American Enterprise Institute, vai além, chama o relato de “fantasioso” e acusa o New York Times de depender demais de fontes anônimas. Mesmo assim, reconhece que o Ocidente ainda não entende plenamente por que o ex-presidente mantém apoio em nichos da sociedade iraniana.

Em Israel, parte dos analistas de segurança concentra a crítica na própria visão que o país projeta sobre o Irã. Danny Citrinowicz, do Instituto de Estudos em Segurança Nacional, escreve que tentar “coroar” Ahmadinejad revela uma compreensão frágil do sistema político iraniano. Lembra que o ex-presidente não controla base real de poder e não teria o respaldo da Guarda Revolucionária, força militar de elite. Na avaliação dele, Ahmadinejad só chegaria novamente ao comando se toda a estrutura atual desmoronasse, algo que ataques aéreos e levantes localizados ainda não produzem.

O analista veterano Yossi Melman, também israelense, chama a história de “absurda em vários níveis”. Para ele, a crença de que o regime iraniano cai apenas com pressão externa e apoio a minorias internas mostra que parte dos estrategistas em Washington e Tel Aviv “vive em um mundo de fantasia”. A avaliação coincide com a de críticos iranianos que apontam outro risco: qualquer movimentação em torno de Ahmadinejad tende a acentuar desconfianças internas, alimentar teorias conspiratórias e aprofundar a sensação de cerco em Teerã.

Figura útil em cenário instável, mas sem provas de laços externos

A discussão sobre o “por que Ahmadinejad” aponta para um tripé que intriga diplomatas. O ex-presidente reúne fama nacional, experiência dentro do sistema e distanciamento de Khamenei. Conhece os mecanismos da República Islâmica, fala com parcelas das camadas populares e, ao mesmo tempo, rompe publicamente com o líder supremo e com setores da segurança. Para estrategistas que pensam o Irã pós-conflito, esse perfil poderia, em tese, servir como catalisador de fissuras na elite de poder, mesmo sem transformá-lo em aliado direto do Ocidente.

Críticos iranianos lembram que o próprio Ahmadinejad fornece munição para suspeitas. Durante o mandato, constrói legitimidade atacando reformistas. Depois, tenta se aproximar justamente de antigos rivais, inclusive um ex-presidente, em gestos de reconciliação que nunca se completam. A facilidade para mudar de posição e redesenhar alianças parece menos ideológica e mais tática, guiada pela sobrevivência na disputa interna.

Até agora, porém, não surge qualquer evidência concreta de vínculos de Ahmadinejad com serviços de inteligência de Israel ou dos Estados Unidos. O New York Times afirma em rede social que “confia plenamente” em sua reportagem e diz basear a apuração em autoridades americanas, israelenses e iranianas, além de outras fontes com acesso ao tema. A ausência de provas públicas alimenta o ceticismo, mas não resolve a questão central: quem, afinal, é o Ahmadinejad que emerge da guerra de 2026?

Se o ex-presidente reaparecer com saúde e capital político, tende a voltar ao centro das disputas em Teerã, mesmo sem controle formal da máquina. Pode servir como ponto de convergência para descontentes, como alvo preferencial de ataques do regime ou como figura descartável em um jogo maior entre potências. Enquanto seu paradeiro permanece desconhecido, a dúvida que envolve seu futuro ajuda a medir o grau de incerteza sobre o próprio destino do Irã.

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