Valdemar diz que Flávio foi à casa de Vorcaro por “restante do dinheiro”
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirma nesta segunda-feira (25) que o senador Flávio Bolsonaro foi à casa do banqueiro Daniel Vorcaro, em Brasília, para buscar o “restante do dinheiro” prometido para financiar o filme de propaganda “Dark Horse”, estrelado por Jair Bolsonaro. O encontro ocorre após a decretação de prisão domiciliar do ex-dono do Banco Master e amplia a pressão política e jurídica sobre o pré-candidato do PL ao Planalto em 2026.
Encontro na casa do banqueiro em meio à crise
Valdemar descreve, em entrevista à GloboNews, uma visita que ocorre em clima de cobrança, não de encerramento amigável de negócios. Segundo ele, Flávio vai à casa de Vorcaro em busca da parcela final dos recursos combinados para “Dark Horse”, filme orçado em cerca de R$ 134 milhões. A reunião acontece depois da primeira prisão de Vorcaro, no fim de 2025, e já com o banqueiro sob suspeita de irregularidades financeiras.
“Ele (Flávio) queria terminar a relação com Vorcaro. ‘Olha, vai me pagar? Vai pagar o restante? Dá pra pagar o restante ou não dá?’”, relata Valdemar. O dirigente do PL faz questão de frisar que o banqueiro “estava sendo investigado, mas não foi condenado a nada”, numa tentativa de afastar a ideia de que o partido se associa, de forma deliberada, a um condenado por crimes financeiros. Ainda assim, admite: não tem dúvida de que Vorcaro fez “uma barbaridade no País”.
Versões em choque e dinheiro no exterior
Flávio Bolsonaro reconhece o encontro, mas insiste numa leitura distinta. Em declaração em 19 de maio, o senador diz que procura Vorcaro para “botar um ponto final na questão” do financiamento de “Dark Horse”, e não para pressionar por novas transferências. “Eu fui, sim, para o encontro dele, para botar um ponto final nessa história e dizer que se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo, e o filme não correria risco”, afirma.
A fala de Valdemar, porém, reforça a versão de que a prioridade de Flávio, naquele momento, é garantir que o fluxo de recursos não seque de forma abrupta. Em 13 de maio, reportagem do The Intercept revela que o senador negocia diretamente com Vorcaro um financiamento de cerca de R$ 134 milhões para “Dark Horse”. Desse total, R$ 61 milhões teriam sido efetivamente enviados para um fundo nos Estados Unidos, administrado por um advogado ligado ao deputado Eduardo Bolsonaro, que vive no Texas desde o início de 2025.
A Polícia Federal investiga se parte desse dinheiro serve para custear despesas do ex-deputado no exterior, o que pode caracterizar uso indevido de recursos e drible à legislação eleitoral e financeira brasileira. As suspeitas envolvem tanto a origem dos valores quanto o destino final das remessas, num momento em que as campanhas para 2026 ainda nem entram formalmente em campo.
Financiamento opaco às vésperas de 2026
“Dark Horse” nasce como peça central do esforço bolsonarista para reorganizar sua base às vésperas da eleição presidencial. O filme busca recontar a trajetória política de Jair Bolsonaro e apresentar o ex-presidente como vítima de perseguição judicial, numa narrativa voltada para redes sociais e plataformas de streaming. O valor de R$ 134 milhões, alto para os padrões de documentários políticos, transforma o projeto em símbolo do apetite financeiro do grupo para 2026.
A revelação de que parte do dinheiro sai de um banqueiro sob investigação e cruza fronteiras fiscais pressiona Flávio Bolsonaro, que tenta se viabilizar como alternativa competitiva no campo da direita. O episódio também abala a imagem do PL, que se apresenta como o principal polo conservador do País e abriga a maior bancada da Câmara. Ao classificar a ida do senador à casa de Vorcaro como “a coisa mais natural do mundo”, Valdemar tenta normalizar a cobrança por aportes privados de grande porte, mas o contexto de investigação enfraquece o argumento.
No centro da controvérsia está a linha tênue entre financiamento privado de comunicação política e eventual caixa paralelo de campanha. A legislação brasileira impõe limites rígidos a gastos eleitorais e exige transparência na origem dos recursos, mas a fase pré-campanha abre zonas cinzentas, sobretudo em projetos de mídia produzidos e lançados antes do período oficial. O caso “Dark Horse” expõe essas brechas e antecipa um debate que tende a dominar o calendário eleitoral de 2026.
Pressão judicial, cálculo político e próximos passos
A investigação da Polícia Federal sobre as operações ligadas a Vorcaro avança em paralelo a outros inquéritos que cercam o bolsonarismo. A conexão entre os R$ 61 milhões remetidos ao exterior e a vida de Eduardo Bolsonaro no Texas torna o caso particularmente sensível. Se a PF comprovar uso eleitoral irregular ou lavagem de dinheiro, o impacto pode atingir diretamente a elegibilidade de lideranças do PL e a estratégia de comunicação da campanha.
Valdemar Costa Neto tenta, por ora, conter danos e manter a pré-candidatura de Flávio de pé. O partido aposta na força do sobrenome Bolsonaro e na capacidade de mobilização de sua base digital para atravessar a crise. Adversários já ensaiam ações no Tribunal Superior Eleitoral e prometem questionar, etapa por etapa, a origem dos recursos utilizados para promover o ex-presidente e seu herdeiro político. O futuro de “Dark Horse” e a extensão da responsabilidade criminal e eleitoral dos envolvidos agora dependem do ritmo das investigações e da disposição da Justiça em enfrentar o financiamento opaco que se move na penumbra da pré-campanha.
