Advogado deixa defesa e trava delação de dono do banco Master
O advogado José Luís Oliveira Lima deixa, nesta sexta-feira (23/5), a defesa do empresário Daniel Vorcaro, dono do banco Master, em meio à negociação frustrada de uma delação premiada na Polícia Federal. A saída ocorre após a recusa formal da proposta de colaboração e expõe o impasse que envolve o principal investigado do escândalo financeiro que atinge o banco e causa prejuízos bilionários ao sistema.
Delação emperra e defesa muda de rumo
Lima é conhecido por conduzir acordos de colaboração em casos de grande repercussão, como os firmados na Operação Lava-Jato. A decisão de deixar o caso, descrita nos bastidores como de “comum acordo”, sinaliza que as conversas com investigadores perderam fôlego depois que a PF rejeita a delação apresentada por Vorcaro em Brasília, na Superintendência da corporação.
Fontes que acompanham as tratativas relatam que a estratégia da defesa busca ampliar o diálogo com a Procuradoria-Geral da República, que ainda analisa os anexos entregues pelo empresário. A PGR não bate o martelo sobre o acordo e mantém em estudo o conteúdo da colaboração, enquanto a PF considera insuficientes os termos propostos até agora.
Vorcaro, preso preventivamente há semanas, resiste no início a abrir o jogo sobre aliados e interlocutores políticos que orbitam o banco Master. A postura muda com o desgaste da prisão. Pessoas próximas ao empresário afirmam que ele passa a admitir uma delação mais ampla, com mais detalhes sobre as fraudes e o papel de outros envolvidos nas operações que tiram da praça valores bilionários de contas de clientes privados e órgãos públicos.
Na mesa de negociação entra, inclusive, a possibilidade de aumento do valor da multa que o banqueiro aceita pagar para reparar parte dos prejuízos. Não há, até aqui, cifra oficial. Investigadores falam em rombo que supera a casa dos bilhões de reais e atinge fundos públicos, empresas e correntistas de varejo, o que torna o caso uma das maiores crises de credibilidade do sistema financeiro recente.
Cela especial, disputa jurídica e pressão pública
Enquanto o acordo emperra, a rotina de Vorcaro na prisão vira objeto de disputa jurídica em Brasília. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determina ontem o retorno do empresário a uma cela especial na Superintendência da PF. Na mesma decisão, nega o pedido da defesa para converter a prisão preventiva em domiciliar.
O banco Master e seu controlador estão no centro de um escândalo que provoca efeito dominó sobre investidores, servidores e gestores públicos que mantinham recursos sob administração da instituição. As investigações apontam fraudes em série, com operações irregulares, maquiagem de balanços e captação de recursos sem lastro suficiente. O caso reacende o debate sobre a fiscalização de bancos médios e o risco de falhas de controle em um mercado que movimenta trilhões de reais por ano.
Na prática, o STF afasta a hipótese de prisão em casa, mas acolhe parte das queixas da defesa sobre as condições da cela comum para a qual o banqueiro é transferido depois da recusa da PF à delação. Os advogados descrevem o espaço como destinado a presos de passagem, sem fornecimento regular de água, ventilação e iluminação, e com paredes mofadas. Também alertam para o risco de segurança diante da forte exposição do caso.
A PGR acompanha a discussão e se posiciona contra a domiciliar, sob o argumento de que a simples entrega de anexos da colaboração não basta para abrandar a custódia. No parecer, o órgão afirma que a liberdade em casa manteria riscos de destruição de provas, pressão sobre testemunhas e contato de Vorcaro com outros integrantes da suposta organização criminosa.
O Ministério Público, porém, concorda com o retorno do banqueiro ao alojamento anterior na PF ou com a transferência para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como “Papudinha”. A PGR reconhece que a cela comum atual é mais adequada a presos transitórios e cobra condições mínimas de segurança, estrutura física e suporte, em linha com regras nacionais e internacionais para custódia de presos.
Investigação travada e disputa por narrativa
A saída de um advogado especializado em delações, em meio à recusa da PF, afasta no curto prazo a chance de um acordo rápido que destrave a investigação. Sem a colaboração de Vorcaro, investigadores precisam avançar com quebras de sigilo, perícias contábeis e depoimentos de executivos e ex-dirigentes do Master, o que tende a alongar o inquérito por meses.
O atraso na delação interessa a diferentes atores. Políticos, operadores do mercado financeiro e gestores públicos que aparecem em relatórios preliminares ganham tempo para montar estratégias de defesa e tentar minimizar danos de imagem. Credores e correntistas, por outro lado, seguem sem clareza sobre o tamanho final do prejuízo e sobre a possibilidade de ressarcimento efetivo.
O caso também testa a disposição do STF e da PGR de impor limites claros às negociações de delação em crimes financeiros de grande porte. A recusa inicial à proposta e a manutenção da prisão preventiva, mesmo com algum ajuste nas condições de custódia, enviam ao mercado a mensagem de que a colaboração não será moeda automática para abrandar penas sem contrapartida consistente.
No campo político, a investigação sobre o Master se mistura ao debate mais amplo sobre o uso de bancos médios em esquemas de desvio de recursos públicos. O histórico de crises bancárias no país, das quebras dos anos 1990 às fraudes em fundos de pensão na última década, alimenta a percepção de que o sistema ainda convive com brechas exploradas em ciclos.
O próximo passo depende da PGR. Se o órgão considerar que a proposta de Vorcaro ainda pode ser aproveitada, mesmo com ajustes, uma nova rodada de negociações pode recolocar a delação no centro da investigação. Se a resposta for negativa, a tendência é de um inquérito mais longo, com a defesa obrigada a construir outra linha de atuação.
Enquanto o impasse se prolonga, o banqueiro volta à cela especial em Brasília, mas permanece sem horizonte claro sobre o futuro da própria colaboração. A pergunta que se impõe, para investigadores, investidores e para o próprio sistema financeiro, é se o principal personagem do escândalo do Master decidirá falar tudo o que sabe — e em quais condições estará disposto a fazê-lo.
